Da velhice, o que nós sabemos sobre ela nos tempos atuais


Da velhice, o que nós sabemos sobre ela nos tempos atuais

ARTIGO

Por Luís Carlos Bedran

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Aquele que costuma escrever sobre assuntos genéricos o faz pelas mais diversas razões. Ora devido ao seu estado de espírito do momento, ora direcionado para um tema de interesse ou não daquele que o lê.

Mas como existe uma infinidade de assuntos e o universo dos leitores é vário, pois a vivência de cada um sempre é única, fica difícil coincidir ambos os interesses. Aliás, no mais das vezes não coincidem. Por isso o cronista tende a escrever, menos para se contentar, do que para tentar agradar a média da opinião ou do pensamento dos leitores, se isso é possível mesmo. Afinal, são vocês é que prestigiam este veículo de comunicação.

Como o assunto é sobre a velhice, quem é jovem, de cara já pode descartar sua leitura, muito embora o cronista espera que ele consiga passar por aquela fase da vida e que ela dure bastante com saúde e felicidade. Mas não deixa de ser interessante saber o que as pessoas que viveram ou vivem bastante, conseguiram e conseguem transmitir suas ideias e experiências, que podem ou não servir às novas gerações. Então você que ainda é jovem continue a ler-me, ao menos por curiosidade.

E nada como bem discorrer sobre a velhice do que os filósofos. Essas pessoas sábias que pensam e analisam sobre tudo. Até demais. E isso em todos os tempos, mesmo aqueles que não conseguiam chegar à idade avançada que hoje estamos a atingir. Morriam jovens em comparação com o presente, pois a ciência e as condições de vida permitem que possamos viver muito mais.

Sêneca morreu aos 68 anos. Dizia que a velhice poderá ser cheia de prazeres se soubermos usá-la. Tal como “os frutos são deliciosos quando estão maduros, a juventude é mais prazerosa no fim, os que apreciam o vinho deleitam-se mais com a última taça, a que satisfaz plenamente, e põe um fim à bebedeira”.

Perguntaram-lhe se não se incomodava em ter a morte em vista. Respondeu que ela está sempre presente, quer para o velho ou para o jovem e que ninguém é tão velho que não possa reivindicar para si mais um dia. Um dia é um degrau na vida. “É um homem muito feliz e que tem a plena posse de si mesmo, quem espera o amanhã sem inquietude”. Mais um dia sempre é lucro.

A velhice é próxima da morte. Montaigne morreu aos 59 anos. Falava que filosofar é aprender a morrer, pois basta nascer para que comecemos a morrer, mesmo porque temos um limite além do qual não iremos, de acordo com a natureza. Por isso entendia que é um privilégio conseguir viver até esse limite, coisa rara na época em que viveu. Teve sorte.

Terêncio fazia comédias; morreu com apenas 26 anos. Disse que “a velhice em si é uma doença”. Como poderia saber? Não é o que pensavam outros filósofos mais longevos como Platão, que faleceu aos 80 anos, pois a considerava um peso suportável, desde que o homem fosse sábio; como La Rochefoucauld, morto aos 67, no qual afirmava que poucos sabem ser velhos, pois ao envelhecer nos tornamos mais loucos e mais sábios. Schopenhauer, que viveu até aos 72, entendia que “o velho tinha a imediata, sincera e sólida certeza da vanidade de tudo e do vazio de todas as magnificências mundanas: as quimeras desapareceram”.

Tem de se saber envelhecer. Tantos outros filósofos e escritores que viveram muito, a depender da época, souberam interpretá-la. Mas um dos mais modernos, Norberto Bobbio falecido aos 94 anos em 2004, foi quem melhor expôs essa fase em seu livro De Senectute – O Tempo da Memória.

Dizia que quando jovem se considerava um velho e quando escreveu esse livro, já idoso, se considerava jovem. Depois de uma certa idade desistiu de mudar de opinião, porém não diminuiu sua curiosidade de saber; que falar de si é um vício da idade avançada; que o velho atualmente está marginalizado, pelo envelhecimento cultural, ao lado do biológico e social.

Pois o idoso, como afirmava, na sociedade de consumo tornou-se uma mercadoria como todas as outras. Conversa mole dizer que “velho é lindo’, substituído que foi pelo antigo elogio do velho “virtuoso e sábio”. O que resta do mundo dele é a memória. A dimensão na qual vive é o passado.

Mas é com o brasileiro Millor Fernandes, falecido em 2012, aos 88, que termino: “A melhor maneira de atingir uma velhice saudável é se alimentar com moderação, beber pouco e evitar excessos sexuais depois dos setenta”...

Luís Carlos Bedran, é sociólogo e cronista da Revista Comércio, Indústria e Agronegócio