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A vida não cabe apenas no domingo

Por Paulo de Tarso

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Muito se discutiu sobre o fim da escala 6×1. Como quase sempre acontece quando o assunto é trabalho, surgiram números, projeções econômicas, análises de produtividade e previsões catastróficas. Mas talvez estejamos esquecendo de falar sobre as pessoas.

Venho da classe trabalhadora. Trabalhei em balcão de atendimento, arquivo, farmácia, gestão, ambulatórios, hospitais, usinas e indústrias. Convivi com gente que pega ônibus antes do sol nascer, que almoça correndo, que trabalha doente porque não pode perder o dia e que chega em casa quando os filhos já estão dormindo.

Quando falamos sobre a escala 6×1, não estamos discutindo apenas horas de trabalho. Estamos discutindo quanto vale a vida de quem trabalha.

Um dia para ver os filhos. Um dia para visitar os pais. Um dia para descansar. Um dia para resolver problemas que se acumularam durante toda a semana. Um dia para existir além do trabalho.

Vemos diariamente as consequências disso. Crescem os afastamentos por ansiedade, depressão, burnout e adoecimentos relacionados ao estresse crônico. Cresce o uso de medicamentos para dormir, para acordar, para suportar a rotina. E, muitas vezes, tratamos como problema individual aquilo que também é um problema coletivo.

É hora de reconhecer que descanso não é privilégio. É direito.

Nenhuma sociedade se torna mais justa quando obriga seus trabalhadores a escolher entre sobreviver e viver. Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida é aquela que aprende a valorizar quem acorda cedo, enfrenta longas jornadas, cuida dos outros, produz riqueza e mantém o país funcionando. Porque o Brasil não é sustentado pelos discursos de quem está no topo, mas pelo trabalho diário de milhões de brasileiros e brasileiras que raramente aparecem nas manchetes.

(*) Paulo de Tarso, Enfermeiro com passagem pelo NGA-3 por 13 anos, líder de setor e gestor da unidade. Trabalhou na saúde ocupacional da Electrolux e Raízen. Atualmente é Auditor da Unimed Araraquara no Hospital São Paulo e escreve para o RCIA.
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR