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Empresária diz no COE da Bahia ter sido envolvida na doação de respiradores para Araraquara

A venda de 300 respiradores que seriam produzidos pela BioGeoenergity no interior da Iesa em Araraquara e entregues ao Consórcio Nordeste na Bahia ganha novos contornos; ao COE em Salvador a empresária da HempCare que intermediava as negociações disse que foi envolvida por Carlos Gabas para doar 30 respiradores à Prefeitura de Araraquara e que seria um atendimento ao seu irmão de alma (prefeito).

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O BR 3, respirador que seria fabricado pela BioGeo em Araraquara para ser entregue ao Consórcio do Nordeste e doado à Prefeitura de Araraquara

O Bahia Notícias teve acesso com exclusividade ao depoimento da empresária Cristiana Prestes Taddeo, dona da Hempcare, envolvida no caso dos respiradores comprados pelo Consórcio Nordeste através da Bahia que não foram entregues. Em trecho, a empresária acusa o ex-secretário da Casa Civil, Bruno Dauster, de ter sugerido um aditivo no contrato para aumentar o valor dos respiradores comprados.

Cristiana respondeu que “não iria estuprar o Governo dessa maneira”. A empresa que Cristiana é sócia, segundo ela, faz importação de medicamentos derivados da cannabis e teria repassado ao intermediador Fernando Galante cerca de R$ 9 milhões por ele ter sido a “ponte” com o Consórcio Nordeste, representado por Cleber Isac, que também recebeu uma “comissão” de R$ 3 milhões. A empresária afirmou que emitiu uma nota como tendo sido prestado um serviço de “consultoria”, apesar de afirmar que sabia que não seria esse o serviço.

A empresária relata que durante a contratação, a análise para o fechamento das negociações teria durado 20 minutos. Sendo que a autorização não teria passado pelo Comitê Executivo do Consórcio, sendo apenas conduzida por Dauster. O pagamento também assustou a empresária, que revelou ter recebido os R$ 48 milhões de forma integral em apenas dois dias após o firmamento.

A HISTÓRIA

Após problemas para a aquisição de respiradores com origem chinesa, a empresária Cristiana Prestes Taddeo, CEO da HempCate, relatou que uma nova situação envolvendo o negócio surgiu após empresários terem criado um grupo no WhatsApp, onde “facilitadores” participariam do processo de compra dos aparelhos. Como não conseguiu comprar os equipamentos da China, ela afirma que recebeu o dinheiro através de Carlos Kerbes, sócio do irmão do secretário Bruno Dauster – cujo nome não foi mencionado no depoimento – que intermediava a compra no país asiático.

Como a empresa chinesa não possuía certificado da Anvisa para os respiradores, a HempCare teria pago R$ 400 mil para Kerbes, intermediar o contato com a fornecedora asiática. Revelando então que os respiradores teriam problemas nas “válvulas pneumáticas”, necessitando de reparos para a validação na Anvisa.

Dauster então teria sugerido aumentar o valor do contrato, saltando de 23 mil dólares para 27 mil dólares, e depois para 35 mil dólares. Com a negativa da empresária.

Depois das conversas com esse grupo de empresários e dos problemas com a aquisição dos respiradores na China, Cristiana decidiu comprar respiradores nacionais. Ela teria pactuado a readequação no contrato firmado para aumentar para 480 respiradores, já que o valor seria menor. Mesmo sem ainda ter acontecido os produtos, Dauster pediu para a empresária mais 300 respiradores nacionais, o que, segundo ela, foi vetado após o secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, afirmar em seu Twitter que nenhuma empresa brasileira teria a validação. Dauster então teria enviado uma mensagem: “Amiga, errei, o BR2 [respirador brasileiro] não foi aprovado”.

Então a empresaria ficou preocupada. Segundo ela, o pagamento pelos respiradores já teria sido feito e Dauster voltado atrás com o pedido. Ela diz que jamais afirmou que iria entregar os equipamentos no mesmo momento, além de ter sido envolvida na doação de respiradores para a prefeitura de Araraquara-SP.

Segundo ela, Carlos Gabas seria irmão de alma do prefeito da cidade, e que precisaria de 30 equipamentos, porém não teria verba e o pedido teria vindo implícito. Após um período, a Procuradoria da Prefeitura de Araraquara teria pedido que ela assinasse um termo de doação dos respiradores, já que existia uma notícia de que a prefeitura teria comprado os equipamentos e eles não teriam sido entregues.

O FABRICANTE EM ARARAQUARA / DEPOIMENTO

Preso na Operação Ragnarok, o empresário Paulo de Tarso Carlos, dono da Biogeoenergy, uma das empresas envolvidas na compra fraudada de respiradores pelo Consórcio Nordeste, revelou em depoimento à Polícia Civil que teria recebido uma proposta de superfaturamento de insumos de combate ao coronavírus do superintendente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE). A pasta é administrada pelo vice-governador da Bahia, João Leão (PP).

No depoimento obtido pelo Bahia Notícias com exclusividade, Paulo de Tarso narra que após ter se reunido com Leão, o superintendente Deraldo Alves lhe chamou para uma outra sala e, numa conversa particular, lhe ofereceu um negócio relativo a “superfaturamento de equipamentos de proteção individual” usados no combate ao coronavírus.

De acordo com o empresário, Deraldo propôs que a Biogeoenergy elevasse o preço dos insumos em 50% na venda para o estado. “Esclarece, a título de exemplo, que comercializa o kit teste por R$ 100 (cem reais) e que a proposta de Deraldo seria de que a Biogeoenergy elevasse o preço R$ 150 (cento e ciquenta reais)”, consta no depoimento.

Ainda de acordo com o relato de Paulo, ele não aceitou a proposta em questão. “Soube, posteriormente, que o Governo chegou a adquirir kits por R$ 180 (cento e oitenta reais) através de outras empresas”.

Deraldo foi nomeado para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) em julho de 2019, após a chegada do vice-governador João Leão na pasta. Ele era assessor do deputado estadual Zé Cocá (PP), pré-candidato a prefeito de Jequié.

NOTA DA PREFEITURA

O RCIA encaminhou à Prefeitura de Araraquara pedido de esclarecimento sobre a doação de 30 respiradores que seriam fabricados pela BioGeo e doados pela HempCare, quando da entrega dos aparelhos à Bahia.

E em nota a Prefeitura de Araraquara afirma que, jamais procurou nenhuma empresa para que doações fossem feitas. A proposta de doação, que nunca se efetuou, foi por iniciativa da empresa. A mesma alegou que seria contrapartida social para a cidade, já que milhares  de equipamentos seriam produzidos no município.