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Depois do sucesso do primeiro voo, carro voador brasileiro realiza testes finais em Gavião Peixoto

Eve, startup de mobilidade aérea pertencente à Embraer, planeja iniciar operação comercial de seu eVTOL no próximo ano. Para dar sequência à campanha de ensaio em voo, a Eve construirá seis protótipos de certificação.

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Protótipo em escala real do eVTOL durante feira de aviação na Inglaterra, em 2024

Cerca de 10 anos após anunciar a intenção de construir um veículo elétrico de decolagem e pouso vertical (eVTOL), aeronave conhecida popularmente como carro voador, a Embraer realizou em 19 de dezembro o primeiro voo do protótipo em escala real, dando início à fase de testes em voo. O aparelho da Eve Air Mobility, startup de mobilidade aérea urbana criada pela fabricante brasileira, fez um voo pairado e remoto (sem piloto a bordo), com aproximadamente um minuto de duração, no complexo de testes de Gavião Peixoto (SP), unidade da Embraer usada para campanhas de ensaio em voo de novos projetos aeronáuticos.

Com o objetivo de obter a certificação do aparelho na Agência Nacional de Aviação (Anac), a empresa planeja realizar centenas de voos com o protótipo ao longo deste ano. A certificação comprova que o eVTOL é seguro para voar e operar comercialmente em larga escala, atendendo critérios de desempenho, gerenciamento de energia, emissões, entre outros. Se tudo correr como o planejado, o carro voador brasileiro deverá entrar em operação comercial em 2027.

A carteira de intenções de compra da aeronave gira hoje em torno de 3 mil unidades. O custo do modelo é estimado em aproximadamente US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 8 milhões). “A conversão das intenções de compra em contratos firmes depende de marcos importantes de credibilidade, como a realização do primeiro voo”, destaca Luiz Valentini, diretor de Tecnologia da Eve.

Durante o voo inaugural, foi testada a integração de sistemas essenciais da aeronave, como o conceito de fly-by-wire (sistema de controle de voo por computador) de quinta geração e os rotores (ou hélices) dedicados ao voo vertical. Também foram avaliados o gerenciamento de energia, a resposta dinâmica da aeronave e o nível de ruído.

Híbrido de avião e helicóptero, o eVTOL é uma nova modalidade de transporte aéreo ainda em desenvolvimento no mundo todo. Essas aeronaves são consideradas uma alternativa mais sustentável para a mobilidade aérea em centros urbanos. Dotadas de motores elétricos e sistemas avançados de automação, decolam e pousam na vertical, como os helicópteros, e fazem voos de cruzeiro na horizontal, como os aviões. Estão sendo projetadas para realizar trajetos curtos, de 20 a 100 quilômetros, dentro de cidades ou entre municípios próximos.

O protótipo da Eve fez o chamado hover flight, situação em que o eVTOL permanece imóvel no ar sobre um ponto fixo no solo, mantendo altitude e posição constantes. O voo, segundo a Eve, foi um sucesso. “Validamos elementos críticos, desde nossa arquitetura de rotores sustentadores até a mecânica de voo da aeronave. Agora seguimos para a fase de testes em voo com foco em evoluir a maturidade do produto”, declarou na ocasião Jorge Bittencourt, diretor de Produto da Eve.

O voo pioneiro do aparelho ocorreu em dezembro de 2025, em Gavião

O VOO PIONEIRO DO APARELHO

“O comportamento do protótipo em voo ficou dentro do esperado, conforme previsto pelos nossos modelos e em linha com os objetivos dessa etapa inicial”, completou Valentini. “Com esses dados, ampliaremos o envelope da aeronave e avançaremos para o voo de transição sustentado pelas asas.”

O envelope de voo mencionado por Valentini caracteriza os limites operacionais seguros de uma aeronave, ou seja, a faixa de parâmetros de operação na qual não há danos estruturais ou perda de controle. “Esses parâmetros incluem a velocidade mínima e máxima, a maior aceleração que a aeronave pode desenvolver durante manobras, a qual altitude chega, o peso que consegue carregar”, explica o engenheiro mecânico Domingos Rade, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP). “Isso significa que os testes já realizados cobriram uma parte limitada do envelope de voo definido no projeto.”

Segundo Rade, que coordena o Centro de Pesquisa em Engenharia para a Mobilidade do Futuro (Flymov), criado em 2023 pela FAPESP e a Embraer, o primeiro voo de um protótipo é um passo de extrema importância porque, além de marcar a finalização da primeira parte do programa de desenvolvimento, permite avaliar diversas premissas adotadas no projeto, bem como verificar o funcionamento integrado de sistemas relevantes da aeronave. “No caso do aparelho da Eve, mesmo em voo pairado e com pilotagem remota, os testes permitem avaliar a performance dos propulsores elétricos, do fluxo de energia e gerenciamento térmico das baterias, o comportamento dos sistemas de controle, entre outros”, diz o pesquisador do ITA.

O engenheiro mecânico Marcelo Alves, do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), avalia que o voo de dezembro foi um marco crítico na campanha de desenvolvimento do eVTOL. “Valida a arquitetura básica do produto, confirma a integridade estrutural e os sistemas de controle em condições reais”, diz. “Com esse voo experimental, a Eve demonstrou que o protótipo é capaz de operar de forma segura em um ambiente controlado, pavimentando o caminho para testes mais avançados e a certificação.”

Para dar sequência à campanha de ensaio em voo, a Eve construirá seis protótipos de certificação em sua fábrica em Taubaté (SP). “O uso de seis aeronaves permitirá realizar em paralelo atividades de teste, reduzir gargalos e aumentar a eficiência do programa rumo à certificação”, destaca Valentini. De acordo com ele, cada protótipo pode se dedicar a objetivos específicos, o que ajuda a acelerar o aprendizado e a evolução do projeto.

“Empregar múltiplos aparelhos em uma campanha oferece vantagens significativas em comparação ao uso de uma única aeronave experimental”, destaca Alves, que é também diretor do Centro de Engenharia Automotiva da Poli-USP. Ao fazer testes simultâneos, a empresa pode acelerar a coleta de dados e reduzir o tempo de desenvolvimento, ressalta o engenheiro. Além disso, distribui riscos, pois se um protótipo sofrer danos, os outros podem continuar os ensaios. “Outro benefício-chave é a possibilidade de ensaiar configurações distintas simultaneamente, como variações em sistemas de propulsão, aerodinâmica ou software”, declara.