

Em 1960, 4 de setembro, com menos de um ano de atividades e antes de ser incorporada à Unesp (o que ocorreria apenas em 1976), a Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLar) se tornou palco de um dos maiores eventos filosóficos do Brasil. A instituição recebeu uma conferência ministrada pelo filósofo e escritor Jean-Paul Sartre, principal representante do existencialismo. A visita, fora do roteiro original do pensador, ajudou a consolidar a instituição no cenário universitário brasileiro e internacional e rendeu uma passagem anedótica que envolveu o Santos de Pelé.
Naquele ano, Sartre e sua esposa, Simone de Beauvoir, também filósofa e escritora, passaram dois meses no Brasil a convite do escritor Jorge Amado e de sua companheira, Zélia Gattai. O quarteto percorreu cidades como Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Fortaleza e Manaus, visitando plantações de tabaco, café e cacau, além de mercados populares, fazendas, favelas e centros urbanos, sempre em diálogo com trabalhadores, intelectuais e estudantes.
Os encontros públicos e entrevistas concedidas à imprensa abordavam principalmente questões políticas, já que Sartre também era reconhecido por seu posicionamento alinhado a causas de esquerda. Entre os temas discutidos pelo casal estavam a guerra de independência da Argélia, que estava em curso desde 1954 e foi finalizada apenas em 1962, e a Revolução Cubana, ocorrida em 1959. O mundo vivia o período da Guerra Fria e o posicionamento político do intelectual francês parecia despertar mais interesse que sua área de especialidade: a filosofia.
Durante a estadia do pensador em Recife, Fausto Castilho, docente da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) de Araraquara, achou por bem provocar o debate filosófico com o visitante francês e pediu a amigos que estavam na cidade para que fizessem a seguinte pergunta a Sartre:
“Desde 1943 conhecemos os termos em que o senhor define o filósofo bem como os vínculos que se estabelecem, na história, entre ele e sua obra – a História, isto é, o limite intransponível ao mesmo tempo para o subjetivo e para o objetivo. Contudo, na Questão de método e mais recentemente ainda na Crítica (da razão dialética), o senhor renuncia formalmente ao nome de filósofo. Devemos perguntar se tal declaração não implica, para o senhor, uma nova ideia das relações entre o subjetivo e o objetivo? E como dizer-se ideólogo, hoje, e, entretanto, não cair nas dificuldades que Marx assinala a propósito de toda ideologia? Em suma, é possível superar a Filosofia sem realizá-la?”

Em resumo, a proposta do docente era compreender como seria possível relacionar as ideias do existencialismo com o marxismo. Na ocasião, porém, a pergunta não foi respondida. A negativa não impediu Castilho de insistir: ele tentou novamente no Rio de Janeiro, por telefone, mas sem sucesso.
Persistente, o professor decidiu fazer a pergunta pessoalmente, em São Paulo. Dessa vez, Sartre se dispôs a respondê-la — desde que em forma de conferência. Assim começaram os preparativos para o evento que ficaria conhecido como a “Conferência de Araraquara”.
O EXISTENCIALISMO VISITA O INTERIOR DE SÃO PAULO
O docente de Economia e diretor da FCLar, Cláudio Cesar de Paiva, afirma que a ida de Sartre à cidade deu início a uma sequência de acontecimentos inusitados, mas intelectualmente relevantes. “Essa foi a única palestra teórico-filosófica que Sartre concedeu no Brasil, e a discussão feita por ele virou referência global. Tanto que o anúncio da conferência, realizada no interior de São Paulo, foi noticiado até na Universidade de Sorbonne, na França”, destaca.
A íntegra da palestra está no livro Sartre no Brasil: a conferência de Araraquara, publicado pela Editora Unesp, em versão bilingue. Paiva assina a apresentação da edição mais recente da obra e comenta que a história é conhecida por todos que ingressam no corpo docente da FCLar. “É quase uma obrigação”, brinca o diretor.
Para o deslocamento de Sartre, Simone de Beauvoir, Jorge Amado e outros intelectuais interessados em assistir à conferência, a diretoria da FFCL alugou uma kombi que saiu de São Paulo em direção a Araraquara. O grupo foi deixado no centro da cidade, próximo ao antigo Teatro Municipal — hoje sede da Secretaria de Cultura e do Museu da Imagem e do Som.
Beauvoir relata, em seu livro A Força das Coisas, a estadia no Brasil. Enquanto comentava a passagem por Araraquara, a filósofa ressalta a iniciativa brasileira de expandir o ensino superior para o interior do país, tomando como exemplo a FFCL. Em outro trecho da obra, que aborda a chegada na cidade, ela registra que, após a longa viagem, Sartre parou em um estabelecimento no centro da cidade para comer sanduíches antes da palestra.
No anfiteatro, havia cerca de 100 pessoas, entre elas nomes que se tornariam referências intelectuais no país, como o reitor da Unesp entre 1984 e 1989, Jorge Nagle, a socióloga Ruth Cardoso, os filósofos Bento Prado Jr. e João Cruz Costa, o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, o psicólogo Dante Moreira Leite, a socióloga Miriam Moreira Leite, o crítico literário Antônio Candido e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A cobertura jornalística foi feita pelo então jovem Inácio de Loyola Brandão, que mais tarde se tornaria um dos principais escritores brasileiros.
Paiva afirma que, diferentemente da recepção acadêmica e dos intelectuais, parte da população de Araraquara não foi receptiva à visita de Sartre. Na época, a cidade, com cerca de 80 mil habitantes, tinha perfil conservador e havia resistência, inclusive por parte da Igreja Católica. “Sartre era comunista, e setores mais conservadores não viram com bons olhos sua presença para discutir ideias consideradas revolucionárias, como a reforma agrária”, explica.
Embora essa primeira conferência não tenha abordado diretamente o cenário geopolítico, Sartre voltou ao tema em um segundo encontro com estudantes, no qual, segundo o livro de Beauvoir, foram discutidas a possibilidade de uma revolução brasileira semelhante à de Cuba, as ligas camponesas e a importância da reforma agrária. Nesse segundo momento, o anfiteatro de Araraquara estampava bandeiras com os dizeres: “Viva Cuba! Viva Sartre! Você falou dos bohios: agora fale das favelas”.

UMA RESPOSTA ESTUDADA ATÉ HOJE
A resposta de Sartre, apresentada em formato de conferência, foi longa e bastante complexa. A pergunta de Castilho — embora simples em sua formulação — era carregada de embasamento teórico, o que exigia uma resposta à altura.
Nascida a partir do acaso, a conferência de Araraquara se tornou um marco da filosofia, sendo estudada até hoje por pesquisadores de todo o mundo. “O livro sobre a palestra circula internacionalmente. É comum pesquisadores da França entrarem em contato para saber como acessar esse material”, comenta o diretor da FLCar.
O evento também tornou-se um marco para o câmpus de Araraquara e contribuiu para consolidar a instituição no cenário universitário. “A partir daquele momento, muitos passaram a desejar fazer parte do corpo docente ou estudar onde Sartre havia ministrado sua conferência”, afirma Paiva.
“Veja que algo não previsto muda a história da filosofia, porque a palestra ministrada é um texto denso, e tudo isso foi ministrado em uma cidade do interior de São Paulo, atraindo diversos intelectuais que seriam referência no Brasil nas décadas seguintes”, completa.
SARTRE E PELÉ EM ARARAQUARA
Enquanto Sartre ministrava sua palestra, boa parte da população de Araraquara se concentrava no estádio da Fonte Luminosa para assistir ao jogo do Campeonato Paulista entre o time local, a Ferroviária, e o Santos, então liderado por Pelé. Em 1960, a equipe santista ainda não havia conquistado o bicampeonato mundial, mas já era uma das principais forças do futebol brasileiro. Ainda assim, a partida teve um resultado surpreendente: uma goleada da “Locomotiva” por 4 a 0.
Após o jogo, a população saiu às ruas para celebrar aquela vitória imponente sobre o poderoso Santos e, por coincidência, o fim da partida ocorreu ao mesmo tempo em que Sartre deixava o Teatro Municipal. “Sartre saiu em frente ao teatro e viu aquela multidão na rua pulando e comemorando a vitória sobre o Santos de Pelé e pensou que a celebração era por causa da sua presença na cidade”, relata o professor. “Naquele momento, ninguém quis desmentir o filósofo”. (Texto: Natan Sampaio)













