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Enfermagem: muito além da vocação

Por Paulo de Tarso

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Hoje é Dia Mundial da Enfermagem. E talvez esteja na hora de pararmos de falar da Enfermagem apenas como vocação.

Porque enquanto romantizamos a profissão, normalizamos jornadas exaustivas, responsabilidades gigantescas e uma discrepância salarial histórica dentro da saúde brasileira.

A Enfermagem não funciona “por amor”. Ela funciona por conhecimento, técnica, gestão, ciência, tomada de decisão e, principalmente, responsabilidade. Sou enfermeiro. E tudo que faço na vida profissional é baseado em evidências. Foi a Enfermagem que me ensinou isso.

A profissão me ensinou a olhar pessoas de forma integral, a entender sistemas complexos, a liderar equipes, a educar, a gerenciar conflitos e a tomar decisões sob pressão. Talvez por isso tantos enfermeiros consigam atuar em áreas tão diferentes: assistência, gestão, auditoria, educação, saúde pública, estratégia, urgência, saúde ocupacional, empreendedorismo e inovação.

O enfermeiro é, muitas vezes, o engenheiro da saúde. É quem faz a máquina girar.

Quem transforma atendimento, acolhimento, técnica, gestão e educação em uma grande sinfonia — quando o sistema está afinado. E aqui existe um ponto importante: a sociedade ainda enxerga a saúde de forma excessivamente médico-centrada. A Medicina possui importância indiscutível, mas centralizar o cuidado em uma única profissão nunca foi a melhor resposta. Historicamente, os sistemas mais eficientes são aqueles que valorizam equipes multiprofissionais, autonomia técnica e descentralização das decisões. Aliás, um dos pilares organizacionais do SUS é justamente a descentralização político-administrativa. Isso deveria servir de reflexão para qualquer ambiente de cuidado em saúde.

A saúde moderna exige integração. Exige diálogo entre profissões. Exige respeito às diferentes competências técnicas. Exige abertura para saúde integrativa, promoção da saúde, prevenção, educação em saúde e novos modelos de cuidado. E nesse contexto, a Enfermagem ocupa um papel central. Porque quem educa, influencia. E quem influencia, ajuda a moldar comportamentos, culturas e comunidades inteiras — para o bem ou para o mal. Talvez por isso eu considere a Enfermagem uma das profissões mais poderosas socialmente.

Estamos presentes do nascimento ao fim da vida. Na vacina, na UTI, na escola, na empresa, na atenção básica, na gestão hospitalar, na auditoria, na emergência, na saúde mental, no cuidado domiciliar e nas políticas públicas. Poucas profissões possuem essa capilaridade. Somos profissionais generalistas com capacidade de adaptação impressionante. Temos competência para liderar equipes, empreender, gerir serviços, desenvolver projetos, educar pessoas e ocupar espaços estratégicos.

Precisamos avançar cientificamente, economicamente e politicamente. E isso exige união da categoria em defesa da autonomia profissional, valorização técnica e fortalecimento das pautas coletivas da Enfermagem.

A Enfermagem brasileira não precisa de devoção. Precisa de reconhecimento, maturidade institucional, valorização e protagonismo. E talvez o primeiro passo seja mudar a forma como nós mesmos contamos a nossa própria história.

(*) Paulo de Tarso, Enfermeiro com passagem pelo NGA-3 por 13 anos, líder de setor e gestor da unidade. Trabalhou na saúde ocupacional da Electrolux e Raízen. Atualmente é Auditor da Unimed Araraquara no Hospital São Paulo e escreve para o RCIA.
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