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1º de Maio – Em Araraquara e no mundo

Por Domingos Carnesecca Neto

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Existem datas comemoradas internacionalmente, duas delas são importantes para a história dos trabalhadores, o 8 de Março – Dia Internacional da Mulher e o 1º de Maio – Dia Internacional dos Trabalhadores.  Sobre a primeira já discorremos aqui em artigo publicado por ocasião da sua celebração, agora é a vez de historiarmos o 1º de Maio.

Instituído pelo Congresso da Segunda Internacional Socialista em 1891, o 1º de Maio nasceu com o propósito de reverenciar os mártires da classe operária, muitos presos e alguns mortos em Chicago/EUA em 1886, quatro deles enforcados, acusados de liderarem uma greve geral que envolveu centenas de milhares de trabalhadores americanos lutando pela jornada de trabalho de 8 horas diárias. Anos depois os processos que os condenaram foram anulados, mas já era tarde para os assassinados.

Esta data passou a ser comemorada em várias partes do mundo, como um dia de luta e luto, e no Brasil a primeira destas manifestações ocorreu em Porto Alegre em 1892.

Em Araraquara, esta data, foi trazida para cá pelos imigrantes italianos, sendo que a primeira manifestação registrada, pela historiadora Anna Maria Martinez Corrêa, foi o desfile, em 1º de Maio de 1901, pelas ruas centrais dos membros do “Clube Socialista Avenire”, que significa futuro em italiano, acompanhado pela “Banda de Música Carlos Gomes”.

Devido ao caráter reivindicatório da data, desde o início de sua celebração, o 1º de Maio foi marcado por muitas proibições, conflitos, e até mortes, no Brasil e em todo o mundo.

No Brasil durante todo o início do século XX muitas manifestações, geralmente proibidas pelas autoridades, foram realizadas, em grande parte impulsionadas pelos imigrantes que aqui chegavam da Europa trazendo na sua bagagem a consciência de classe e a importância das lutas pela melhoria das condições de vida e trabalho.

Após 1930 a ditadura instalada por Getúlio Vargas, cercada de contradições, rompeu com a política vigente que considerava as reivindicações trabalhistas e sociais um caso de política, e estabeleceu a CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas, a oficialização dos Sindicatos de trabalhadores e de patrões, e um rígido controle sobre estas reivindicações. Apropriando-se desta data ele conduzia grandes manifestações públicas no Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro, onde com o mote “Trabalhadores do Brasil…” iniciava seus discursos com seu típico sotaque gaúcho.

Desta maneira, Getúlio, conseguiu durante muitos anos conduzir sua política, com fundamentos e rituais que até hoje se mantém.

No pós-ditadura, a partir de 1945, manifestações por ocasião do 1º de Maio ocorreram em várias cidades brasileiras, ora conduzidas pelos sindicatos oficiais, ora por movimentos políticos e populares, muitos dos quais fiéis ao espírito da criação da data.

Ressalte-se a importância de Getúlio Vargas e do 1º de Maio na cultura política do nosso país ao observarmos que praticamente todas as cidades brasileiras, e seguramente todas as maiores têm ruas que se chamam Getúlio Vargas, Presidente Vargas ou 1º de Maio.

Em Araraquara, o principal acesso rodoviário de entrada em nossa cidade, ligando a Rodovia Washington Luís e a Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros ao centro da cidade, foi em 1954 denominada Avenida Presidente Vargas. Na Vila Xavier, em 1973, denominou-se a Rua 1º de Maio, justamente o logradouro onde estava localizado o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e Mobiliário.

No pós-64, na vigência da ditadura militar as comemorações foram proibidas, exceto as oficialistas que buscavam controlar a data. Neste contexto ocorre o 1º de Maio de 1968 na Praça da Sé, em São Paulo, quando o palanque oficial comandado pelo então governador Roberto de Abreu Sodré, foi atacado por operários metalúrgicos, de Osasco, que em meio a uma  greve, contra o arrocho salarial,  resolveram acabar com a festa.

Comemorações não-oficiais, como a ocorrida no Estádio da Vila Maria Zélia, no Belenzinho, em São Paulo, em 1970, tiveram a atuação de agentes da repressão política que agiram e detiveram, torturaram e mataram operários, dentre eles Olavo Hansen, operário químico.

Em 1977, operários e estudantes, que panfletavam as comemorações oficiais do ABC paulista, acabaram presos e torturados, só que desta vez houve uma reação política a esta repressão da ditadura e em consequência resgataram-se lutas sufocadas desde 1964. Foi o que na época ficou conhecido como “o apito da panela de pressão”, um aviso de que a sociedade estava para explodir em insatisfações.

Em 1978, os metalúrgicos do ABC fizeram as primeiras grandes greves que voltaram a ocorrer nos anos seguintes, e projetaram nacionalmente a liderança de Luis Inácio Lula da Silva e serviram de estopim para a formação de novos sindicatos, novas entidades e até um partido político.

Em 1979 foi a vez dos estudantes recriarem a sua UNE – União Nacional dos Estudantes, algo que merecerá um novo artigo.

Passada a ditadura, alguns sindicatos retomaram a prática getulista de comemorar festivamente a data enquanto outros se mantiveram no espírito reivindicatório da data.

Em Araraquara, o 1º de Maio foi resgatado em seu caráter de luta com a criação do Partido dos Trabalhadores, dos sindicatos combativos e da tomada de consciência de líderes sindicais. Em 1º de Maio de 1981 foi oficialmente lançado o PT em Araraquara e no ano seguinte na mesma data foram lançados os candidatos petistas às eleições municipais daquele ano. Em 1983 foi realizada a Semana dos Trabalhadores com eventos em vários bairros de nossa cidade culminando com um Ato Público no Saguão da Câmara Municipal. Em anos subsequentes foram realizadas passeatas pelo centro da cidade, atos públicos e muitas outras iniciativas para marcar esta importante data.

Em 2020 e neste ano de 2021, marcados pela pandemia e pelo isolamento social, o 1º de Maio foi e será virtual, com o uso das redes digitais de comunicação para que, numa demonstração de unidade dos trabalhadores, sejam levantadas as bandeiras de luta da atualidade, como “Vacina Já para Todos”, “Ditadura Nunca Mais” e “Fora Bolsonaro”, este suposto responsável pelas mais de 400 mil mortes ocorridas no Brasil. E, resgatando antigos slogans – “Salve o 1º de Maio !!!”….. “A Luta Continua !!!”.

(*)Domingos Carnesecca Neto, economista, professor universitário aposentado, fundador e ex-vereador do PT 1983/1992.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR