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Diante da catástrofe, reinventar a vida!

Por Milton Lahuerta

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Estamos diante de algo novo e desconcertante para as gerações atuais, dos mais jovens aos mais velhos, ainda que a situação não seja propriamente inédita para a humanidade. Depois de praticamente um século em que foi possível conter com relativo sucesso as epidemias, nos vemos diante de um cenário que evoca as imagens bíblicas sobre a proliferação descontrolada da peste!

A última grande epidemia com essas características foi a da gripe espanhola na década de 1920. As gerações criadas depois da II Guerra Mundial cresceram com a ilusão de que esse tipo de situação não mais ocorreria. Afinal, os avanços da ciência mostravam-se tão prodigiosos que não havia porque duvidar de que as coisas estavam sob controle.

A ilusão de que seria possível controlar tanto os conflitos sociais quanto a natureza através do avanço da ciência tem sido questionada pelas várias vertentes da teoria crítica que, ao longo do século XX, problematizaram o mito do progresso. Mais recentemente, toda uma plêiade de grandes intelectuais – cientistas sociais e filósofos – vem abordando o problema, mobilizando a ideia de uma sociedade do risco, ou seja, de uma sociedade que, ao buscar respostas para os riscos naturais e tradicionais, cria uma nova modalidade de riscos: os riscos artificiais, aqueles que decorrem, em larga medida, da intervenção humana e se apresentam de modo aparentemente incontrolável, potencializados pela hiper comunicação e pela aceleração contemporâneas.

Essa nova realidade tecnológica contribui para a propagação não somente de novos riscos, como os epidemiológicos, mas também de uma crescente sensação de medo, que se traduz pela insegurança crescente e pelo questionamento de todas as certezas. Tal clima, além de instituir no âmbito da política a primazia da lógica schimittiana, que se nutre da reiteração da oposição amigo x inimigo, tem estimulado o ódio e a violência de forma generalizada.

No entanto, o medo desencadeado pela epidemia que toma a sociedade não necessariamente vai se desdobrar em violência, em indiferença e em ódio. A quarentena diante da peste, por paradoxal que possa parecer, impôs a redução da aceleração e o reconhecimento da gravidade do que está em curso, trazendo como consequência não prevista, além do imperativo de aumentar a reflexividade social, também o exercício de formas de solidariedade que pareciam ter sido esquecidas.

O que significa que, sim, vamos ter que nos isolar. Mas isso não precisa ser sinônimo de solidão!

O medo, neste caso, junto com a reflexividade, pode nos proporcionar o resgate do humano, servindo assim para aproximar as pessoas e para estimular sentimentos mais nobres que o ódio entre elas!

*Milton Lahuerta, é professor da Faculdade de Ciências e Letras Unesp-Araraquara e coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR