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Ecos de 1964 em Araraquara

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Nestes dias, e pra que nunca mais se repita, comemoram-se os 57 anos do golpe militar de 1964, uma data infame para nunca ser esquecida.

O Brasil do fim dos anos 50 e início dos anos 60 era o país da Bossa Nova, da industrialização crescente – automotiva e auto-peças, da interiorização do desenvolvimento – construção de Brasília e novas estradas, do nacionalismo econômico – Petrobrás e geração de energia hidrelétrica.

E o mundo, desta época, era o da guerra fria, da polarização ideológica, do atrelamento de países a um dos blocos que disputavam o poder – o americano ocidental e o soviético oriental. Não havia espaço para países soberanos e nem independentes em relação ao imperialismo.

A vitória revolucionária em Cuba expunha as desigualdades capitalistas entre as pessoas, o analfabetismo a ser erradicado, a economia depenada pelo imperialismo, e tantas outras mazelas. Era preciso evitar que este exemplo se disseminasse.

Tínhamos um governo nacionalista, do Presidente João Goulart, composto por forças de centro e de esquerda, que queria fazer as chamadas Reformas de Base – Reforma Agrária, Bancária, Fiscal, Urbana, Administrativa e Universitária, e também queria dar direito de voz e voto aos praças das Forças Armadas, dentre outras coisas. Contra este governo progressista se insurgiram militares conservadores apoiados por civis reacionários.

Estas forças de direita, pressentindo uma derrota nas eleições presidenciais de 1965, com JK – Juscelino Kubtscheck despontando como franco favorito interromperam um período democrático iniciado em 1945 com a fim da 2ª Guerra Mundial.

O golpe, para barrar a vitória das forças políticas nacionalistas, representou logo de cara a prisão e a demissão de líderes políticos, militares, professores, estudantes, sindicalistas e muitos outros. Estima-se em cinco mil o número, de oficiais generais a soldados, que foram presos e expulsos das forças armadas e das polícias estaduais.

Dentre os crimes cometidos pela nascente ditadura ocorreu a destruição de uma nascente e moderna universidade a UnB – Universidade de Brasília, a queima de livros, a censura à imprensa e às artes.

E, como em qualquer ditadura, o autoritarismo liberou os instintos mais selvagens de pessoas desqualificadas e oportunistas sempre atentos.

Em Araraquara os primeiros dias foram da elaboração de listas de comunistas, perseguições, depoimentos, intimidações, vinganças. Ao mesmo tempo foram tempos de resistência, de solidariedade, de busca de um novo amanhã.

Soldados da antiga Força Publica foram excluídos da corporação – como Natal Mariano, estudantes foram expulsos da faculdade – como Arnaldo Yasbek – expulso da Faculdade de Farmácia, professores cassados pelos atos de exceção da faculdade – como Pedro Calil Padis da Faculdade de Filosofia, ferroviários foram demitidos, dentre outros tristes e inesquecíveis acontecimentos.

Na Câmara Municipal de Araraquara um vereador, em especial, fez de seu mandato um covil de acusações falsas atingindo de opositores à colegas do mesmo partido.

Tudo isto a democracia nos proporcionou conhecer com os arquivos das diversas polícias e agencias de espionagem liberados após a redemocratização do país.

Uma Torre, dos anos 50, representando simbolicamente a Campanha do Petróleo é Nosso – a criação da Petrobrás e o nacionalismo e independência econômica do Brasil foi arrancada da Praça da Santa Cruz logo em 1964. Ressalte-se que em Porto Alegre uma Torre com o mesmo significado está forte e firme Praça da Alfândega, bem do centro da capital gaúcha e, defronte o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, que curiosamente leva o nome do artista plástico Ado Malagoli, nascido em Araraquara.

Jovens morreram nas torturas tais como José Roberto Arantes de Almeida que embora nascido em Pirajui/SP, foi criado em Araraquara, estudou no IEBA, sendo seu pai professor da então Faculdade de Farmácia e Odontologia.  Zé Arantes, um brilhante e inconformado estudante cursava o ITA, onde foi preso nos primeiros dias do golpe. E, depois foi cursar a Faculdade de Filosofia da USP, na histórica Rua Maria Antonia, quando foi um dos líderes em 1968, participando da diretoria da UNE. Foi assassinado pelo exército brasileiro em 1971 quando participava da resistência armada ao golpe.

Uma jovem, a Maria Augusta Garlippe, nascida em Araraquara, filha do ferroviário e atleta Armando Garlippe que dá nome à pista de Atletismo na Avenida 36, enfermeira formada pela USP, e chefe do Setor de Doenças Tropicais do Hospital das Clínicas/SP desapareceu neste período. Ela se engajou na Guerrilha do Araguaia, ao lado do PCdoB, cuidando da saúde das populações marginalizadas deste pedaço da Amazônia e salvando a vida dos guerrilheiros feridos. Tuta Garlippe foi morta, pelo exército brasileiro, no Natal de 1973 e seu corpo até hoje não foi encontrado.

No decorrer dos anos, os ditadores foram se sucedendo e, apesar das novas leis autoritárias e das ações da repressão, o povo foi aumentando a sua resistência.

Araraquara deu lições à ditadura votando em 1974, 1976 e 1978 nos candidatos do MDB (o partido que representava uma frente política de várias vertentes oposicionistas, do centro até a esquerda).

No final dos anos 70as entidades estudantis foram reconstruídas com a participação dos estudantes de Araraquara.  No Congresso da UNE – União Nacional dos Estudantes, em 1979 em Salvador na Bahia, um ônibus levou os estudantes araraquarenses para participar e,  a despeito dos bloqueios na estrada que tentavam impedir o grito da juventude,  lá chegou e participou deste momento histórico.

Araraquarenses que tinham sofrido toda a série de perseguições desencadearam a Campanha pela Anistia aos presos e exilados políticos, finalmente conquistada. De veteranos das lutas dos anos 50 até os perseguidos dos 60 e 70 o engajamento foi amplo e diversas outras lutas ocorreram na cidade.

Em 1982 com a liberdade partidária conquistada parcialmente nos finais da ditadura, elegemos vereadores de esquerda pelo PT e pelo PMDB em Araraquara, professores esquerdistas auxiliaram o então prefeito Medina a implantar o sistema de Educação e de Saúde da Prefeitura. Aperfeiçoado com o tempo é este sistema que está na linha de frente do combate atual ao Covid.

Hoje vemos em nossa cidade pessoas jovens, influenciados pelo gabinete do ódio e suas fake-news, juntando-se a poucos saudosos dos tempos de arbítrio, da tortura, das mortes,  praticando uma política negacionista, sendo cúmplices das mais de 300 mil mortes que assolam o Brasil. Divulgam boatos, contestam as medidas de isolamento social, tentam desacreditar a campanha de vacinação e não sossegam nem um dia sequer na ânsia de atrapalhar o governo municipal na sua jornada pela vida e pela segurança das atividades econômicas sem que mais mortes ocorram.

Nestes últimos anos lideranças jovens, de esquerda ou progressistas, foram coagidas em Araraquara. Cartazes rasgados, e nestes dias até um out-door da UNE foi destruído.

Estes não passarão, nenhuma ditadura voltará ao Brasil, o medo que sempre tiveram do povo, os impedem de disputar eleições limpas, precisam se esconder nas mentiras, nos fatos falsos, na discórdia e em último caso até tramando cancelar as eleições, mas não passarão.

Que esta data, a do Golpe de 1964, seja lembrada como uma data infame, e que os defensores dela sejam banidos da vida política.  No mundo todo não há espaço para fascistas na democracia e aqui não será diferente.

Apelo para que os enganados no radicalismo fascista pulem fora do barco que está a afundar. Os que ficarem até o fim serão responsáveis pelas centenas de milhares de mortes nos processos que se seguirão após este período de loucuras do governo Bolsonaro.

Viva o povo brasileiro! Ditadura Nunca Mais!!!

(*)Domingos Carnesecca Neto, economista, professor universitário aposentado, fundador e ex-vereador do PT 1983/1992.

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