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Empresas e trabalhadores tentam diminuir impactos econômicos da pandemia

Por João Delarissa

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A pandemia de Covid-19 vem provocando grandes mudanças na economia brasileira e também no mercado de trabalho. Após uma queda histórica no emprego já nos meses seguintes ao choque causado pela quarentena de 2020, o quadro de trabalhadores vem se recompondo gradualmente, mas sem garantias de crescimento sustentado nos próximos meses.

Por um lado, o governo federal afirma que o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm) foi capaz de preservar mais de 11 milhões de empregos formais e ajudar mais de 1,5 milhão de empresas brasileiras em 2020, por meio de medidas como a redução de jornada, suspensão de contratos e o pagamento dos benefícios emergenciais.

De outra parte, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), analisados pelo Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara, indicam que o município de Araraquara registrou saldo negativo de contratações em 2020, com perda de 908 postos de trabalho formais e resultados relativamente piores aos observados em âmbito nacional. A comparação com o total de vínculos ativos ao final de 2019, divulgados pela Rais, aponta para o encerramento de até 2.654 contratos de trabalho no ano.

Ainda que possa haver divergências de interpretação sobre os resultados dos dados divulgados pelo Ministério da Economia, além dos inúmeros enfoques existentes sobre o tema, a afirmação de que o setor terciário tem sofrido perdas relativamente mais intensas é válida. Pelos dados mais recentes do Novo Caged, o setor de serviços liderou o ranking de desligamentos no município, com -1.537 vagas, enquanto o comércio encerrou mais 238 postos de trabalho.

Nessa direção, as maiores baixas no número de trabalhadores formais foram observadas no subgrupo de alojamentos e alimentação, cuja variação em 2020 ficou em -15,23%; seguido de transporte, armazenagem e correio, com redução de -11,4%; e informação, comunicação, atividades financeiras, imobiliárias e administrativas, que encerraram 2020 com queda de -8,14% no número de vínculos ativos. Por último, outros serviços, que incluem artes, esportes e recreação, sofreram redução de -2,68% ao longo do ano. O único segmento que registrou discreto aumento nas contratações foi administração pública, defesa e seguridade social, com variação positiva de 3,36%.

No que diz respeito ao total de trabalhadores do comércio varejista amplo no ano passado, a atividade registrou queda de 0,59%. Analisando os subgrupos do setor, o comércio de reparação de veículos automotores e motocicletas sofreu perda de -1,7% em 2020. Já o comércio por atacado, exceto veículos automotores e motocicletas, encerrou o ano passado com alta de 1,69% no estoque de trabalhadores formais no município.

Vale destacar que a recuperação desses setores é influenciada por fatores econômicos, tais como o consumo das famílias e a facilidade de acesso ao crédito pelas empresas. Em caso dessas atividades sofrerem com a implantação de mais medidas restritivas em decorrência da piora no quadro sanitário, a aceleração das campanhas de vacinação são fundamentais para melhorar as expectativas em relação à recuperação econômica.

Ainda que o número de empregos indique crescimento em alguns setores ao final do ano passado – os dados do Caged apontam a criação de 142.690 empregos formais em 2020 no país –, devemos acompanhar o resultado dos próximos meses e verificar o volume das demissões e suas eventuais relações com o fim do programa de manutenção do emprego e renda, como também em relação a outros fatores, como a lentidão no ritmo da vacinação, definições sobre o retorno do novo auxílio e os acordos trabalhistas entre empresa e funcionários.

Diante disso, o sucesso registrado pelo BEm, como defende o governo federal, pode estar com os dias contatos caso a recuperação econômica não ocorra. Assim, os trabalhadores poderão enfrentar problemas com a garantia de seus empregos e de proteção social, em maior ou menor intensidade, dependendo do setor em que estão inseridos.

Nessa perspectiva, devem aumentar cada vez mais os desafios enfrentados pelos trabalhadores que buscam inserção no mercado de trabalho. Se por um lado a aceleração de novas tecnologias e da utilização de novas modalidades de trabalho, como o home office, facilitam a mobilidade da população empregada e podem reduzir custos para as empresas, por outro, pela própria característica de grande parte dos empregos serem de menor qualificação, as oportunidades trazidas pelo avanço tecnológico podem não se tornar acessíveis à parcela significativa daqueles que estão em busca de trabalho. Além disso, as projeções mais recentes têm enxergado que os efeitos da pandemia ainda serão enfrentados por um longo período pelos países emergentes e, sobretudo, no Brasil.

*João Delarissa, participa do Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara

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