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Entre o adoecimento coletivo e a resistência

Por Paulo de Tarso

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Enfim, janeiro novamente. Lá se foi 2025 — com suas promessas, frustrações e expectativas — e chegamos a 2026 cheios de novas apostas por mudança e melhora. Janeiro é, por tradição, um mês simbólico: representa recomeços, resoluções e a esperança de um ano mais saudável e produtivo.

Também é o mês do Janeiro Branco, campanha nacional dedicada à saúde mental. Embora o tema não seja novo, ele ganhou centralidade nos últimos anos à medida que ficou evidente algo essencial: não há qualidade de vida sem equilíbrio psicológico. Não basta apenas sobreviver; é preciso viver com dignidade emocional e social.

E então surge a pergunta que não quer calar: é possível ter sanidade mental no mundo em que vivemos hoje?

A Organização Mundial da Saúde define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social — e não apenas a ausência de doenças. Se tomarmos essa definição a sério, precisamos admitir algo incômodo: como sociedade, estamos adoecidos.

Vivemos sob um bombardeio constante de informações — muitas delas falsas —, presos a telas por horas a fio, imersos em uma realidade onde já não se distingue claramente o que é humano e o que é artificial. A violência se banalizou: nas ruas, nas redes, nas escolas, nos lares. Tragédias são rapidamente consumidas, comentadas e esquecidas. Mortes em massa se tornam estatísticas, enquanto o Estado colapsado finge normalidade diante da barbárie.

Somado a isso, o modelo de consumo desenfreado nos transforma em competidores permanentes. Trabalhamos mais, ganhamos menos e vemos os lucros se concentrarem no topo. Enquanto isso, conflitos armados explodem pelo mundo, trazendo destruição para quem é invadido e louros para quem mata. Não há ilhas de tranquilidade em um planeta em permanente tensão.

Diante desse cenário, a chamada “boa e velha receita” para a saúde mental continua válida: alimentação adequada, atividade física, lazer, descanso, menos redes sociais, mais vínculos reais, acompanhamento psicológico. Vale lembrar que o Sistema Único de Saúde (SUS) garante, por lei, acesso gratuito a psicólogos, médicos e outros profissionais, que devem oferecer acolhimento e tratamento.

Mas isso não basta. Se quisermos realmente falar de saúde mental em 2026, precisamos ir além do indivíduo e olhar para o sistema. O melhor remédio coletivo é justiça social. É equidade. É trabalho digno, com tempo para viver. É salário que permita mais do que apenas sobreviver. É uma sociedade menos individualista e mais coletiva.

Cuidar da saúde mental não é apenas meditar ou fazer terapia — é também lutar por um mundo mais equânime e solidário.

Porque, no fim das contas, saúde mental é também resistência.

(*) Paulo de Tarso, Enfermeiro com passagem pelo NGA-3 por 13 anos, líder de setor e gestor da unidade. Trabalhou na saúde ocupacional da Electrolux e Raízen. Atualmente é Auditor da Unimed Araraquara no Hospital São Paulo e escreve para o RCIA.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR