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No adeus a Denisar, relembro uma das histórias mais inusitadas que aconteceu em Araraquara

Por Rafael Zocco

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Foi alguns anos atrás, em frente ao Bar do Zinho, localizado na Rua Cinco, num sábado à noite, que encontrei novamente o senhor que tinha aquele andar de passos muito curtos, mas que não perdia a oportunidade de tomar a sua cerveja diária. Ali, era o seu grande momento do dia. Não tive escolha. Fui até ele e me apresentei:

– Denisar, tudo bem? Sou Rafael, neto do Cana. Você deve ter conhecido ele – perguntei.
– De quem? Do Cana? Eu não acredito – disse, quase incrédulo.

Logo após, esbanjou um sorriso de orelha a orelha. Naquele momento, eu queria que ele me confirmasse uma grande história. Achei tão pitoresca que não poderia ser verdade aquilo.

Aconteceu nos anos 60, quando Arnaldo de Araújo Zocco, o Cana, era então diretor de futebol da Associação Ferroviária de Esportes. Em um momento que o clube não andava bem, houve um certo dia que o radialista Denisar, em seu programa “A opinião de Denisar Alves – doa a quem doer”, na Rádio PRD4, não mediu palavras para demonstrar insatisfação com Antônio Tavares Pereira Lima.

Uma coisa eu soube: meu avô não admitia que falassem mal do seu eterno melhor amigo. Pois bem, com a declaração feita, o enfurecido Cana se dirigiu até Avenida Duque de Caxias, na região central da cidade, onde ficava localizada a antiga sede do clube. Lá, estava Denisar, com outros amigos, jogando carteado.

Saindo da sede, Denisar foi surpreendido pelo diretor afeano, que então estava segurando um… cinto. Sem diálogo algum, Cana começou a dar várias cintadas em plena praça publica no jornalista que não conseguia se desviar dos golpes.

– O seu avô acertou uma cintada bem no meu pescoço – me disse Denisar, recordando do episódio, mas dando bastante risada.

Logo, Denisar percebeu o que havia acontecido para que meu avô se descontrolasse daquele jeito, mas o jornalista não deixou barato pela humilhação sofrida. No dia seguinte, procurou membros da ACEESP (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) e demais jornalistas, para contar o ocorrido.

Em comum acordo, aconteceu mais um fato inusitado, mas desta vez quem sofreu o golpe foi a Ferroviária. Todos os veículos de comunicação passaram a censurar o nome do clube, apenas se referindo como “equipe ou time de Araraquara”. Esta foi a única fez que a Locomotiva sofreu uma censura da imprensa de todo o estado. Isso durou 15 dias.

Com os ânimos mais controlados, a paz veio de uma forma que parecia um pedido de casamento. Um novo encontro aconteceu após uma missa realizada em domingo de manhã, na Igreja Santa Cruz. Na escadaria,  o arrependido Cana se encontrou com Denisar e pediu perdão, que prontamente foi aceita pelo jornalista.

– Quando eu vi seu avô na igreja, achei que ele ia me bater de novo. Mas ele foi um grande amigo ao longo da vida – relembrou naquele sábado à noite.

A censura acabou e o clima harmonioso foi retornado. Vá em paz, Denisar. Que você, Cana e Pereira Lima possam dialogar bastante e colocar o papo em dia, sem cintadas e censuras.

*Rafael Zocco, é jornalista e escreve para o RCIA

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR