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Padre Ticão e sua história com Araraquara

Por Domingos Carnesecca Neto

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O ano era 1978, a conjuntura política apontava o fim da Ditadura Militar, os estudantes nas ruas, os operários iniciando o ciclo de reivindicações trabalhistas no ABC, a Anistia aos presos e exilados políticos se avizinhando, os movimentos populares lutando contra a Carestia na Campanha Contra o Custo de Vida, movimentações políticas apontavam para novos partidos políticos que substituiriam o MDB e a ARENA, a Igreja Católica se posicionando ao lado das lutas populares e pela Democracia.

Este era o cenário político brasileiro quando o jovem Padre Antonio Luis Marchioni, o Padre Ticão, chegou a Araraquara para ser o substituto eventual do Padre Armando Salgado, um religioso idoso, na Paróquia de São Geraldo.

Dom Constantino Amstalden, um religioso conservador, era o Bispo da Diocese de São Carlos a qual a Paróquia do São Geraldo estava vinculada. Padre Ticão nascido em Urupês/SP, recém saído do Seminário passou pela cidade de Santa Ernestina, onde apoiou as reivindicações dos trabalhadores rurais, e veio para Araraquara. Estava sintonizado com as mudanças pelas quais passava o Brasil e assim assumiu suas tarefas.

Pois bem, em Araraquara as forças progressistas se movimentavam. A imprensa se oxigenava com jovens nas redações dos jornais locais: O Imparcial e o Diário da Araraquarense. No campo político, de um lado o MDB, tinha na Câmara Municipal o professor Waldemar Safiotti, de outro lado o prefeito emedebista, eleito com grande vitória eleitoral em 1976, Waldemar De Santi flertava com o governador Paulo Maluf. A esquerda local se rearranjava após anos de repressão e perseguições. Grupos de estudo se estruturavam  e diversas vertentes da esquerda se faziam presentes na cidade. Desde 1968 não tinha tanta movimentação e difusão das idéias progressistas e socialistas na cidade.

Eu e alguns outros jovens, que me reservo o direito de não nominar a todos, compartilhávamos das idéias de um nascente movimento, a Convergência Socialista. Estávamos nos bairros, nas portas de fábrica, conscientizando os trabalhadores da importância de termos uma visão de classe, da força que teríamos se a classe trabalhadora estivesse unida em torno de ideais e tivesse um partido político a dirigi-la – um Partido dos Trabalhadores, socialista e combativo.

Para concretizar nossas pretensões resolvemos buscar o apoio do vereador Safiotti para que ele viesse para o nosso lado, compondo inicialmente uma ala de esquerda dentro do MDB, em troca apoiaríamos sua eleição à deputado federal. Convidado o casal Safiotti – Helleieth e Waldemar, compareceu a Conferência da Convergência Socialista em São Paulo, na qual participaram diversos líderes do Brasil e do exterior. A ditadura, nos seus estertores, não tardou a reprimir este nascente movimento de esquerda prendendo diversos dos convidados estrangeiros e alguns líderes brasileiros.

Cheios de dúvida sobre o alcance da repressão, recebemos um convite do Padre Ticão para procurá-lo na Casa Paroquial do São Geraldo, e assim fomos, eu e o Rodolfo, o Bisão, debater com o Padre a conjuntura política.  Após analisarmos, o que se passava naqueles dias, o Padre Ticão nos falou: -Se precisarem se esconder da ditadura venham para a Casa Paroquial, se precisarem publicar algum panfleto utilizem o mimeógrafo à tinta da Paróquia, e completou, está ali em cima daquela mesa.

Pegos de surpresa por um Padre que não conhecíamos, soubemos que ele acompanhava nossas atividades e reservou para um momento importante o seu contato conosco.

A partir daí teríamos um aliado importante, porém sua presença na cidade foi abreviada e em pouco tempo ele partiu para São Paulo.

As atividades do Padre Ticão em São Paulo, na Zona Leste da capital, são por demais conhecidas por todos. Grande apoiador dos movimentos sociais, nunca fechou sua Igreja para os oprimidos, para os perseguidos, para os menos favorecidos. Também se engajou nas diversas lutas pela melhoria dos bairros da sua região, dentre as quais a da criação de duas universidades: a USP Leste e a UNIFESP Leste, de hospitais e de centros comunitários. Nunca se furtou a discutir temas polêmicos e carregados de preconceitos.

Pois bem, nós da Convergência Socialista em Araraquara,  fizemos a campanha de candidatos ligados às lutas populares do MDB em 1978, coletamos milhares de assinaturas contra a Carestia – o crescente aumento do Custo de Vida, apoiamos greves, fundamos entidades e sindicatos, culminando com a fundação do PT em 1981, e daí os diversos jovens tomaram rumos distintos, mas aí já são outras histórias.

Nunca mais vi o Padre Ticão, já se passaram quarenta e dois anos dos episódios relatados, e há algum tempo me programei para ir até a Igreja de São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo, São Paulo, para reencontrar esta figura tão grande. Infelizmente não deu tempo e o ano de 2021 começou com a triste notícia de seu falecimento.

Aqui, procurei, em breves palavras, resgatar a figura humana, militante, cristã do Padre Ticão, registrando um pequeno momento de sua grande história. Descanse em Paz !!!

(*) Domingos Carnesecca Neto, ex-militante da Convergência Socialista, Fundador e ex-Vereador do PT 1982/1992

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