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Para sempre o “Diário de Abigail”

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O falecimento de Abigail Machado Callera, fundadora do Lar Nosso Ninho, em janeiro passado, nos leva a uma série de reflexões sobre a ousadia de uma mulher que a partir de 1960, decidiu por conta própria e mesmo contra parte da comunidade, principalmente a vizinhança, recolher e abrigar em sua casa, menores deficientes. Na época, a sociedade entendia seu ato como loucura e chegou até mesmo a insinuar que aquilo não tinha outro objetivo senão se beneficiar materialmente. Mesmo crucificada ela foi em frente e a chama da sua luta não apagou.

Em 2014 tivemos acesso ao relatodramático de Abigail, escrito em 1960, quando sozinha, começou arecolher nas ruas da cidade os menores deficientes, levando-os para sua casa. “Eu comecei a levar crianças deficientes para minha casa em1960; tinha três menores: Vera Lúcia,Lucy e Orlando, depois Odete,etc… Não consigo parar mais”.

É assim que Abigail abre seu diário, livro guardado a sete chaves, onde explica como se deu a fundação do Lar Nosso Ninho, casa destinada a assistir excepcionais e deficientes auditivos, de 3 até 18 anos, desde que se enquadrassem aos objetivos da entidade para entrosamento social e familiar. Seria isso maravilhoso não houvessem tantas pedras no caminho de Abigail. “No ano de1960, em maio, trabalhando na Casa Betânia, fui em busca de uma menina que fora abandonada pela mãe em uma casa vazia. Estava só com um ursinho nos braços e sem documentos, sentada em um caixote 

Tinha mais ou menos de 3 a 4 anos de idade. Foi morar em casa. Levei-a depois para Ribeirão Preto ficando em uma casa para cegos, pois a menina era cega-surda”, relata.

A partir daí Abigail começou a pensar nas crianças, que por serem excepcionais, é que mais necessitavam de cuidados e educação especial; as famílias e a sociedade nada faziam para ampará-las e humanizá-las. Em seu diário afirma: “Senti que mesmo sem preparo e sem ter conhecimento algum, eu poderia fazer algo por essas crianças”, narrando que levou a menina para a Delegacia de Polícia, convicta de que poderia obter ajuda, porém, como não havia um lugar para deixá-la, levou-a para sua casa. Interessada em criar um lar que desse abrigo as crianças, Abigail foi conversar com o Juiz de Menores no fórum da Rua Padre Duarte com Avenida São Paulo. “O Juiz Lofredo Júnior me fez sentir todas as dificuldades que eu ia enfrentar. Mesmo assim fiquei com as menores em casa, pedindo a proteção divina para que tivesse forças de continuar”, diz. Até que um dia, conversando com o juiz, o Ernesto Batelli, ofereceu-me gratuitamente umas salas que ele possuía num sobrado na Praça Pedro de Toledo, rua Carlos Gomes, 546, que poderíamos usar até termos uma casa. Assim, criamos com uma diretoria, o Lar. Desde o início seria Lar-Escola, pois a ideia era chegar a profissionalizar o menor e também entregá-lo à Vida.

O Diário de Abigail não é apenas comovente. Em alguns momentos nos deixa perplexos diante do descaso da sociedade, dos políticos e autoridades.Teve ao longo do tempo o sentimento de mãe e deixa um legado de boas ações, exemplos que hoje são seguidos por abnegados que mantêm a história do Nosso Ninho. Não há como não se curvar diante da imagem de Abigail e lhe dizer “muito obrigado”.