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Equipe “Os Campeões da Bola” completa 36 anos de vida

Hoje na 107.5 FM, a equipe liderada por José Roberto Fernandes completa mais um ano de vida e nem a pandemia os impede de levar informações aos ouvintes de Araraquara e região

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Crédito: Portal Morada

Nesta segunda-feira (22), a equipe “Os Campeões da Bola” completa 36 anos de vida, a qual colecionada coberturas esportivas das mais variadas modalidades, tendo o futebol com a Ferroviária, passando por basquete, vôlei, futsal e o futebol amador da cidade, além de outros.

Liderada pelo radialista José Roberto Fernandes, hoje a equipe está na 107.5 FM, ocupando o lugar da extinta Rádio Cultura AM. Além dele, completam o time Vaguinho Fiorine, Marcos Chiocchini, Carlos Renato Segura, José Roberto Ferrari, Marcelo Oyafuso, Matheus Teixeira, Helter Torres, Adriano de Almeida e toda a equipe técnica.

Do primeiro plantel, fizeram parte grandes radialistas, como Wilson Luiz, Adilson Telarolli, Osney Montanari, Jair Motuca, Tadeu Alves, Geraldo Marchese e também Luiz Carlos Fabrini.

– Grandes coberturas esportivas, num tempo em que o rádio tinha força e irradiava emoções. E foram muitas, com a Ferroviária, o basquete da Uniara, o vôlei do Lupo Náutico e, no esporte amador as Copas Cultura de Futsal, iniciativa do Toninho, e Campeões da Bola de Futebol Interbairros, ideia brilhante do querido e inesquecível amigo Ricardo Simões. Enfim, 36 anos de história e muita luta – declarou José Roberto Fernandes, em nota enviada.

– Quero, em meu nome pessoal, agradecer a todos que fizeram e os que continuam fazendo parte desse projeto de jornalismo esportivo que me orgulha muito. Não fosse a participação e os esforços de tantos, a história não poderia ser escrita. E nem seria possível a relação de audiência com milhares de ouvintes que nos acompanham pelo rádio e também nas redes sociais. Essa relação de confiança e respeito é o maior patrimônio dos Campeões da Bola. Obrigado a todos – encerrou.

Em forma de homenagem, o Portal RCIA Araraquara reproduz abaixo uma entrevista feita para a Revista Comércio & Indústria, em 2016, onde Zé Roberto conta mais sobre a sua trajetória dentro do rádio e outros desafios na carreira.

Revista Comércio & Indústria: Como José Roberto Fernandes veio parar em Araraquara? 

José Roberto Fernandes: Na época, o gerente Antônio Carlos Araújo, da Rádio Morada do Sol, que ficava localizada na Rua Voluntários da Pátria, quase esquina com a Avenida Duque de Caxias, éramos amigos há muito tempo. Acho que nos conhecemos no ano de 1965 ou 66, através da rádio. Eu cobria os jogos do pela PRJ8, de Barretos e Araújo pela Cultura Araraquara, e a gente cobria os jogos do Barretos e Ferroviária. 

Foi no dia 1º de julho de 1975 que recebi um convite para narrar o Sul-americano de Basquete e Araraquara sediou de forma incrível. No final do torneio, o Brasil fez uma final emocionante e inesquecível diante da Argentina, sagrando-se campeão. Com o termino da competição, ele perguntou se eu toparia ficar e montar a equipe esportiva da Rádio Cultura – eles não tinham uma equipe na época – para narrar os jogos do Campeonato Paulista de Futebol. Acabei ficando e hoje são 41 anos de Araraquara. 

RCI: E como a rádio chegou até José Roberto Fernandes? 

JRF: Quando falo sobre esse assunto, eu abordo dois aspectos. O primeiro é o rádio era tão forte na época, quanto é a televisão hoje. Em 1962, a TV engatinhava no Brasil. O grande veículo era o rádio. Curtia rádio adoidado. Só que haviam poucas emissoras também naquela época. Apesar disso, eu alimentava poucas esperanças de poder trabalhar em uma rádio. Estava acima do meu sonho, era impossível de ser realizado.  

O outro aspecto foi a experiência que me ajudou muito no rádio do serviço de alto-falantes, onde eu trabalhava em Colina. Com 18 anos, eu tinha um programa de esportes que ia ao ar três vezes por semana e cobria o Colina Atlético, time de futebol amador da cidade. Num sábado de manhã, eu estava ouvindo a rádio de Barretos e o locutor do horário anunciou que a rádio faria um teste para locutores. Aí eu pensei “não custa nada eu ir lá”. Colina e Barretos são cidades próximas. Entrei no ônibus e fui até Barretos. Cheguei até a rádio e tinham exatos 232 candidatos, só para se ter uma ideia de como o rádio era na época. Fiz o teste e achei que fui bem, mas voltei para Colina não me alimentando de esperança alguma. 

No sábado seguinte, voltei à Barretos para comprar alguns discos (vinil), pois em Colina não existia uma loja que vendia discos para serviços de alto-falantes. Coincidentemente, o ponto de ônibus era próximo da rádio que fiz o teste. Como restavam alguns minutos para o ônibus passar, decidir ir até lá e pergunta sobre o resultado dos testes. Lembro que eu estava subindo aquelas escadarias de mármore e me José Vicente Dias Leme, que era o gerente da rádio e estava acompanhando os testes de locução. Quando perguntei à ele sobre o resultado, ele, com um largo sorriso no rosto, perguntou: “Mas você é aquele menino de Colina?”. “Sou eu mesmo”, respondi. Aí ele me disse que tentou entrar em contato a semana inteira querendo avisar que eu havia passado nos testes. Eu quase cai das escadarias (risos). Senão fossem os serviços de alto-falantes de Colina. 

RCI: Na rádio de Barretos, você começou na programação esportiva? 

JRF: Eu comecei a fazer de tudo um pouco. Fui locutor comercial, redator esportivo, depois comecei a apresentar programa de esportes, apresentava programas musicais e até apresentador sertanejo eu fui. Isso justifica o gosto que eu tenho pelo sertanejo raiz. Eram várias escolas dentro de uma escola. Procurei tirar proveito e me aprimorei em cada uma delas. 

RCI: E quanto às inspirações? Quem você admirava como narrador? 

JRF: Por eu ter começado em uma época de ouro do rádio esportivo brasileiro, eu tive a oportunidade aqui mesmo em Araraquara nas velhas cabines de madeira do estádio, de sentar ao lado de Pedro LuizFiore Gigliote, Aroldo Fernandes, Darci Reis e Ênnio Rodrigues. Pra mim, o rádio esportivo tem dois marcos. 

O primeiro marco é Pedro Luiz, que pra mim foi o maior narrador de todos. Tem coisas que eu carrego dele que eu pude aprender com ele. O segundo é Osmar Santos. Ele fez a mudança que o rádio esportivo precisava e ele foi muito inteligente com os bordões (“Pimba na gorduchinha” é um dos mais famosos do ex-locutor) e as vinhetas. Foi um negócio que revolucionou o rádio esportivo. 

RCI: Você sempre gostou de futebol ou preferia outra modalidade? 

JRF: Sempre gostei de futebol, embora eu prefira muito mais o basquete. Eu jogava muito na escola como armador da equipemas não com a pretensão de me tornar um jogador. O futebol sempre foi uma preferência nacional. Eu jogava de goleiro na minha infância e até cheguei a frequentar o Colina Atlético, mas era algo longe das minhas pretensões. Como o rádio absorvia muito do meu tempo, não via mais no futebol algo no meu futuro como jogador. 

RCI: Como foi esse encontro entre você e a Ferroviária? 

JRF: Olha, eu não quero dizer que foi uma coisa predestinada. Talvez tenha sido. Antes mesmo de ficar e morar em Araraquara por causa do Sul-Americano, o Araújo esteve uma vez em Barretos pra fazer um amistoso da Ferroviária e ele havia comentado que estava querendo trazer alguém para ficar em seu lugar, pois estava preocupado com a parte administrativa da rádio. Nisso, o professor Paulo de Campos e José Conde Sobrinho começaram a observar o estilo de como eu falava no microfone. Justamente, a minha estreia como repórter esportivo na época foi neste amistoso e a Ferroviária venceu a partida por 3 a 0. O primeiro jogador que eu entrevistei, ao vivo no ar, foi o Peixinho. De uma forma ou de outra, parece que já havia uma certa ligação, uma química entre as partes (risos). 

RCI: Qual foi o seu jogo inesquecível narrando a Ferroviária? 

JRF: O jogo mais marcante pra mim foi aquele do ano passado, em Guaratinguetá, por tudo aquilo que estava envolvido. Quase 20 anos de rebaixamento, de sofrimento infernal, que era a humilhação de ter jogado por dois anos a quarta divisão do futebol paulista, coisa que a Ferroviária nunca mereceu ter passado por isso. Tudo aquilo foi acendendo. No final da narração minha aquilo acabou sendo um desabafo. Eu acompanhei descensos do time, bons momentos, o rebaixamento de 1996, que foi extremamente vergonhoso (naquela campanha, a Locomotiva venceu apenas uma partida durante toda a competição). Foi um negócio de louco e aquilo tudo ficou girando na minha cabeça. É um jogo que marcou profundamente e creio que não haverá outro igual. Se a Ferroviária for campeã do Paulista da A1, não será a mesma emoção como foi ter sido campeã da A2 e ter voltado da forma que voltou. Foi o jogo da minha vida. 

A minha missão terminaria, como jornalista e radialista esportivo, quando a Ferroviária subisse. Eu alimentava de certa forma esta expectativa. Eu não poderia parar com a Ferroviária rebaixada. O dia que ela subisse, poderia tomar uma decisão – não tomei, é verdade – mas com a consciência de que o dever estava cumprido“Missão cumprida. Retorno a base” (frase usada pelo narrador quando encerra a programação esportiva) e esse retorno a base com a missão cumprida seria com o acesso da Ferroviária. 

RCI: O gol da volta à elite foi o mais importante narrado também? 

JRF: Foi. Aquele dia deu tudo certo. Se lembrarmos bem, a bola (na cobrança de pênalti convertida pelo atacante Tiago Adan) furou a rede. Eu tinha a percepção de que a bola tinha entrado no gol. Imagina uma dúvida atrapalhar o gol que vai para a história, o do acesso, eu carregaria essa frustração para o resto da minha vida (risos). 

RCI: O acesso lhe motivou a continuar narrando? 

JRF: (Risos). É uma pergunta um quanto complicada de se responder e eu não gosto de deixar a resposta pela metade. No começo da entrevista eu disse que comecei com mais de 200 candidatos querendo ser radialista, pela concorrência. Hoje, as equipes esportivas enfrentam dificuldades incríveis de se transmitir um jogo até mesmo em uma Série A1, como vi esse ano. Você não tem segurança e garantias para transmitir uma partida. É um negócio maluco.  É o único lado ruim disso. A campanha da Ferroviária preocupou, mas conseguiu escapar. Só que eu não me via em uma situação como essa de novo, de reservar uma linha telefônica para conseguir a conexão e transmitir o jogo. 

Há também o outro lado da renovação de talentos. Eu tenho a consciência de que você tem o começo, o meio e o fim, por vários motivos, como a idade, a condição emocional e física. Ninguém é eterno, muitos menos eu serei eterno. Porém, tudo isso envolve uma responsabilidade muito grande, que é o prestígio da equipe. A Cultura não é uma rádio qualquer e a equipe esportiva também não. Não sei se hoje em dia tem alguma rádio que banca uma equipe dedicada só ao esporte por 31 anos. São mais de três décadas fazendo rádio e é muito difícil fazer esse tipo de coisa. A cada ano que passa isso aumenta toda a nossa responsabilidade, inclusive a minha. Eu não poderia colocar hoje, tudo isso que foi feito, sem mencionar todos os profissionais que fizeram parte d’Os Campeões da Bola dentro destes 31 anos. O mérito conquistado pela equipe foi ele todo vindo de um grande trabalho e seria impossível eu ou qualquer outra pessoa fazer isso sozinho. 

Por isso, não se pode juntar toda esta tradição e simplesmente desaparecer. Seria um desserviço para o rádio, paro rádio esportivo e para toda a história da equipe. A gente sempre tenta imaginar alguém para que possa entregar o bastão. Não que eu queira parar, mas você começa a tirar o pé do acelerador, mas saber de que o bastão seja entregue a um ótimo profissional em condições de dar sequência para tudo isso que foi feito até agora. 

RCI: Se o Zé parar um dia, Os Campeões da Bola continuarão? 

JRF: Então, esta é a minha esperança. Aqui já temos o Vaguinho Fiorini, Marcos Chiochinni e o Zequinha Belizário, que são a minha equipe de sustentação e são pessoas fantásticas. Mas eu preciso de alguém aqui para narrar os jogos. 

RCI: Araraquara não tem esse narrador ainda? 

JRF: Depende de muita coisa, principalmente da filosofia de trabalho. Se você tem uma filosofia que deu certo durante todo esse tempo, convenhamos que você não tenha alguma razão para mudar isso. Eu gostaria de ter aqui não uma pessoa sob meu controle de maneira alguma, sendo que aqui todos tem a liberdade de opinar, falar, discordar e é assim que tem que ser. Mas há um caminho a ser seguido, não o do Zé Roberto, mas o d’Os Campeões da Bola. Eu vejo isso com muita preocupação e eu comento sempre isso com a equipe. Tem a questão da empatia também, do ouvinte sempre estar acostumado com o locutor até com os seus defeitos (risos). Fico feliz de passar pela rua e as pessoas falarem “você é a voz da Ferroviária”. Tem uma alegria, mas você tem essa responsabilidade. Por isso, essa escolha tem que ser feita paulatinamente. Não sei se neste ano ou ano que vem. 

RCI: E quanto ao basquete e o vôlei? 

JRF: O vôlei é um jogo muito complicado de se transmitir. Certa vez um jornal esportivo Lance! veio até Araraquara pra fazer uma matéria com o time do Lupo/Náutico e acabaram fazendo uma matéria com a nossa equipe d’Os Campeões da Bola, pois para eles era um negócio surpreendente uma rádio transmitir vôlei. 

Quanto ao basquete, eu fiz aquela decisão em que a Uniara enfrentou Bauru no Campeonato Brasileiro de 2002, além dos confrontos contra o COC/Ribeirão Preto. Acompanhamos também o basquete juvenil da Uniara, que se sagrou tetracampeã paulista. 

RCI: Se um dia tivesse uma partida de futebol e outra de basquete, qual delas você narraria? 

JRF: Eu faria a de basquetebol pela emoção que este esporte trás. É algo muito dinâmico. Você pega uma decisão de basquete a nível nacional, mesmo em uma de nível paulista, é uma coisa que pode mudar em vários segundos e não tem favorito. Já fiz partidas de vôlei também, mas a prioridade sempre foi o futebol. 

RCI: Qual esporte você gostaria de ter narrado e não conseguiu? 

JRF: Além de futebol, basquete e vôlei, eu narrei boxe e ciclismo. Natação talvez fosse interessante ter narrado, mas eu nunca tive esta oportunidade. Corrida de carros eu teria que ir pra São Paulo, mas eu estou muito bem aqui no interior (risos). 

RCI: No início dos anos 2000, com o boom da Internet banda larga no Brasil, especulou-se sobre o fim da rádio. Você ainda teme por este fim um dia? 

JRF: Não, porque o rádio é o único veículo que você imagina o que você quiser. Isso a televisão e outro tipo de veículo não fazem, assim como na Internet, que você está vendo uma imagem ou lendo uma matéria. Na rádio, você ouve um jogo e consegue imaginar o que quiser. Você olha para o rádio e enxerga o campo de futebol. A narração pelo rádio é muito mais cheia de emoção, diferente da televisão, que é uma narração mais fria. Falou-se que o rádio poderia acabar em diversas ocasiões, mas rádio é um companheiro. Muito mais que um veículo de comunicação, ele é um companheiro de todas as horas. 

Eu já vejo a Internet como uma parceira impressionante, que ajudou muito o rádio jornalístico. Me lembro do finado Wagner Bellini, que fazia o plantão esportivo, pegando um rádio Philco tentando sintonizar uma estação de São Paulo pra poder informar o resultado de uma outra partida, só para ter uma ideia de como o nosso plantão era sofrido (risos). Hoje, você tem tudo na Internet, com diferentes sites informados os placares dos jogos. É entender e saber tirar proveito de tudo isso. É uma coisa substancial que o rádio ganhou. 

RCI: Para encerrar, do que você sente mais falta dentro do ambiente de rádio? 

JRF: Sinto falta da força que o rádio tinha. E isso eu falo pela Rádio Cultura, que existe há 80 anos e foi uma das primeiras rádios do interior do estado de São Paulo, a primeira de Araraquara, surgiu bem na Revolução Constitucionalista de 1932 e tivemos momentos maravilhosos aqui dentro. A gente viaja muito e sabemos do respeito que a nossa rádio tem fora da cidade. Eu tenho saudade disso e dos amigos que me ajudaram muito neste período que estou aqui