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As passagens de Wilsinho Fittipaldi nos circuítos de rua em Araraquara nos anos 60

Imaginar que Wilsinho Fittipaldi começou sua carreira de piloto da Fórmula 1 nas ruas de Araraquara parece um sonho; o RCIA resgata a luta do prefeito Benedito de Oliveira e do vereador Mário Ananias, em fazer saltar aos olhos do Brasil a nossa cidade que já vivia a realidade de ser "a cidade mais limpa das três américas", slogan que correu o mundo. Veja a passagem de Wilsinho por aqui.

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Os "charutinhos" voltam do Pau Seco e passam em frente onde hoje é a Unip, na Avenida 36. O romantismo de uma competição de rua que viu Wilsinho passar pela 36 (segundo da fila)

A cidade acordou diferente naquele dia véspera do aniversário de Araraquara. O vereador Mário Ananias envolveu cerca de 80 voluntários na organização do Circuito de Rua com carros de corrida que começariam roncar às 8h30 da manhã. Só o prefeito Benedito de Oliveira e poucos vereadores foram convidados para assistirem no palanque instalado na Bento de Abreu a competição e viram Wilson Fittipaldi começar sua carreira na equipe da Willys Overland do Brasil, representada por Irmãos Barbugli Ltda em Araraquara.

Famílias como Bressan, Macieira, Malavolta, Baroni, André e Paschoal, que moravam logo após a Avenida 36, no sábado à noite, 19 de agosto de 1961, conversavam como seria o dia seguinte. Uma das preocupações era convencer as crianças a permanecerem no barranco que separava as ruas 4 e 5 (Padre Duarte e Voluntários), onde hoje é o Supermercado 14.

Dona Maria, mãe da Rosicler e do Rubeta (mais tarde goleiro da Academia São Geraldo), dizia pra todos: “Pode deixar que cuido dos meninos”. Alerta semelhante foi dado pelo padre Armando durante a missa das seis horas da manhã na Igreja de São Geraldo: “Cuidado com seus filhos, porque esse negócio de corrida de carro é um perigo”.

Ao mesmo tempo, o “seo” Delfino já havia aberto a Padaria 9 de Julho (onde funcionou até pouco tempo atrás a agência do Banco Itaú) e o Laitano ajeitava as caixas de cerveja em sua mercearia, bem em frente ao Jardim Primavera, ajudado pelo Lalo, técnico do time do Bangú, que fazia daquele ponto a sua sede.  Ambos estavam convictos de um domingo com muitas vendas.

Chico Landi era um dos principais pilotos na prova

Pouco antes das 8h30, Saturno Gagliardi com o serviço de som na perua Chevrolet recém comprada, começou a correr o trajeto da corrida para anunciar o início da corrida em 30 minutos. Depois, Ennio Rodrigues Caraça também iniciava a transmissão pela Rádio A Voz da Araraquarense, anunciando que entre os participantes da bateria principal – os charutinhos – estariam nomes famosos do automobilismo brasileiro, como Wilson Fittipaldi Jr, Ludovino Perez, José Carlos Pace, Totó Porto, Chiquinho Lameirão, Anísio Campos, Rodolfo Olival Costa e Lian Duarte. Também estão inscritos, disse Ênnio Rodrigues, Luis Pereira Bueno, Luis Fernando Terra Smith, Bird Clemente, Carol Figueiredo, Marinho Camargo, Eduardo Scurachio, Jan Balder e Emerson Fittipaldi.

Prefeito Benedito de Oliveira pronto para dar a bandeirada de largada na Bento de Abreu

Na primeira e segunda baterias participaram os carros de passeio como Belcar Rio (Wemag), Volkswagen, Gordini, Dhauphine, Interlagos e Sinca Chambord. Os circuitos aconteciam em várias cidades do interior para se apurar os campeões em cada categoria no final do ano.

Por mais dois anos, o Circuito Automobilístico de Araraquara foi organizado com grande sucesso, sendo acrescentadas provas de lambretas com corredores que ficaram famosos como Manolo, Gildo Scarpa, Luzia; o kart apareceu em seguida. Essa febre fez surgir em nossa cidade o Automóvel Clube de Araraquara, presidido pelo vereador Mário Ananias. A sede funcionava na chamada Boca do Lixo, proximidades do Terminal de passageiros, hoje Terminal de Integração: era um sobrado com frente para a Avenida São Paulo.
Ao lado, o que me encanta nessa imagem não é o Jorge Lettry com a plaquinha, nem o F-Júnior de Marinho. Mas sim, a linda garota sentada no muro de sua casa no início da Bento de Abreu, com aquele ar sonhador das lindas meninas.

O apoio ao automobilismo continuou enquanto Benedito de Oliveira se manteve no cargo de prefeito. Por questões políticas, Rômulo Lupo deixou de apoiar o Automóvel Clube que aos poucos foi desaparecendo.  Outra questão interessante é que após a duplicação da Washington Luís, a partir de 1964, a abertura de outro acesso à cidade pela 36, mudou totalmente o perfil da avenida, tornando-a um dos principais corredores comerciais da cidade.

Mário Ananias também deixou a presidência da entidade em 1964, sendo substituído por José Wellington Pinto e algum tempo depois, Omar de Souza e Silva, o Mazinho, não durando a ACA mais que 8 anos, após entrar em período de inatividade. “O seu fechamento foi muito triste para todos nós”, relembra o advogado Wellington Pinto.

Pessoas sobre os telhados das casas ainda em construção na Bento de Abreu e o espaço da calçada que seguia por toda extensão da avenida

Entre aqueles que acompanharam esse período de festas para a nossa cidade, permanece de forma indelével a lembrança dos grandes nomes do automobilismo brasileiro, como Ermerson Fittipaldi, bicampeão da Fórmula 1 em 1972 e 1974, campeão da CART (Fórmula Indy) em 1989 e bicampeão das 500 milhas de Indianápolis em 1989 e 1993.

Pessoas e fotos marcam de maneira romântica o acesso de Araraquara ao mundo das disputas automobilísticas e isso nos leva a cumprimentar os que contribuíram na construção  deste período que haverá de ficar marcado para sempre em nossas memórias. Parabéns Mário Ananias.

O prefeito Benedito de Oliveira e o vereador Mário Ananias conseguiram naquela festa de aniversário dar um presente inesquecível e inédito para a nossa cidade