Início Cidade

Caic do Vale do Sol: falta de sensibilidade nas decisões públicas, diz arquiteto

O projeto do CAIC do Vale do Sol, obra arquitetônica de João Filgueiras Lima, o Lelé, expressão da Arquitetura Moderna Brasileira, foi totalmente alterado pela Prefeitura de Araraquara, segundo o arquiteto Luiz Augusto Nigro Falcoski. Ele diz em artigo especial para o RCIA que houve a alteração radical e brutal do sistema original, com o emprego de oitão de alvenaria, suportes metálicos, telhas termoacústicas, calhas e condutores de Aguas Pluviais a um custo de R$ 822.000,00. Leia o que escreveu Falcoski.

706
Caic Vale do Sol, em Araraquara

O arquiteto Luiz Antonio Nigro Falcoski, professor Titular Senior da UFSCar e ex-Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano de Araraquara de 2002 a 2006 dentro do Governo Edinho (primeira e segunda gestão) , esta semana fez severas críticas à Prefeitura de Araraquara e sua Secretaria Municipal de Obras por promoverem uma reforma no CAIC do Vale do Sol e descaracterizarem o projeto criado pelo arquiteto João Filgueiras Lima-Lelé.

ACOMPANHEM A NARRATIVA DO ARQUITETO LUIZ FALCOSKI

Luiz Falcoski

No dia 15 de março de 2022 uma triste notícia foi publicada no site da Prefeitura Municipal de Araraquara, informando a instalação de uma nova Cobertura no CAIC Vale do Sol que abriga a Escola Municipal de Ensino Fundamental.

A Secretaria Municipal de Educação contratou a Empresa Increbase, sem informações mais detalhadas e justificadas, para construir um novo sistema construtivo tradicional de cobertura, alterando radical e brutalmente o sistema original, com o emprego de oitão de alvenaria, suporte metálicos, telhas termoacústicas, calhas e condutores de Aguas Pluviais a um custo de R$ 822.000,00. (1)

O CAIC-Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente foi um programa do MEC criado na década de 1990, de inspiração nos projetos da Escola Parque de Anísio Teixeira e os CIEP-Centro Integrados de Educação Pública de Darcy Ribeiro, construídos no Rio de Janeiro na gestão de Leonel Brizola, com projetos do Arq. Oscar Niemeyer e Arq. João Filgueiras Lima-Lelé, ambos ilustres representantes e símbolos da Arquitetura Moderna Brasileira.

Arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé, aos 80 anos; publicação na
Revista Vitruvius em 2010

Dizem que Lelé, carioca formado pela Escola Belas Artes-RJ em 1955, amante da música e futebol, ganhou este apelido por “conta de um jogador de meia-direita do Vasco, posição preferida dele”. (2)

E já conhecendo o trabalho do Lelé desde a UnB-Universidade de Brasília   que Darcy Ribeiro ajudou a criar em 1960, foi visitar junto com o governador Brizola suas experiências em tecnologia de arquitetura pré-fabricada da Escola Rural Transitória e a Fábrica de Equipamentos de Abadiânia-GO em 1982, um pequeno Município de 20 mil habitantes hoje.

Um projeto arquitetônico criativo, com arte e beleza, e um sistema de montagem pré-fabricada em concreto, com elementos e componentes de argamassa armada de fundações, pilares, vigas, painéis de lajes e vedações, pingadeiras, sheds de ventilação e mobiliário, com grande aplicação de técnicas de conforto térmico e ambiental e o uso da ventilação natural. Um sistema construtivo muito próximo do “saber-fazer” operário, da autogestão familiar das periferias e favelas brasileiras, de construção e gestão coletiva, de construção e valorização do canteiro de obras, feita por etapas, da habitação, escolas e ensino progressivo no tempo, e bem próximo da construção e do saber popular. (3)

Desenho de Lelé: Isometria do Processo Construtivo da Escola Rural de Abadiânia (GO)

Por esta história de vida, Lelé foi chamado por Darcy Ribeiro e Brizola para coordenar e implantar o Projeto CIEP no Rio de Janeiro a partir de 1982, com a criação da Fábrica de Escolas de maior proporção e escala industrial de produção, em um projeto educador, arquitetônico, urbanístico e tecnológico revolucionário.  Pude conhecer essa rica experiência no Rio de Janeiro no início da década de 80, quando participei de uma equipe de Arquitetos da Empresa Figueiredo Ferraz no desenvolvimento de projetos urbanísticos e arquitetônicos de novas cidades no Projeto Carajás da Vale do Rio Doce.

O trabalho do arquiteto Lelé neste campo de tecnologias de arquitetura e da pré-fabricação é tão significativa que não podemos deixar de mencionar também a experiência inovadora da Fábrica de Cidades-FAEC em Salvador em 1986, destinado a produção de componentes préfabricados em argamassa armada em larga escala, de qualidade e baixo custo, para escolas, equipamentos comunitários e obras de infraestrutura e urbanização de favelas da cidade. Um projeto exemplar criado pelo Prefeito Mario Kertész, e coordenado pelo Lelé, além do convite e participação da grande arquiteta Lina Bo Bardi para outros projetos de grande relevância para a cidade.

Aliás, vale relatar que este projeto da Fábrica de Cidades de Salvador nos inspirou a propor,  quando fui Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano de Araraquara de 2002 a 2006, projetos sociais e estratégicos  do Plano Diretor de Araraquara. No Mapa Estratégico de Produção da Cidade foram criados os projetos INTECS-Incubadoras de Tecnologias Sociais Sustentáveis e as FABRES-Fábrica de Equipamentos Sociais. Mas infelizmente, desde 2005, nunca foram regulamentados e implementados pelo Poder Público. (4)

Arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé; Croquis Implantação – Tipologia CIAC/CAIC

Sabe-se também que Darcy Ribeiro e o governador Brizola convenceram o presidente Collor de Mello da relevância dos CIEPs-RJ, surgindo os CIACs como Política Pública no período de 1990 a 1992, que após a sua renúncia, na gestão do Itamar Franco em 1992, é substituído pelo programa CAIC. Neste processo é que o Arq. Lelé e sua equipe foram contratados pelo MEC para coordenar e desenvolver o projeto, mas infelizmente por um período muito curto, pois foram contrários a forma de sua implantação pelo governo federal e construtoras que visavam lucro fácil e imediato de obras em grande escala.

O Arq. Lelé foi um mestre e uma grande escola para minha formação como estudante de arquitetura da FAU-UnB de 1973 a 1979. Uma referência cultural, pois junto com o Arq. Oscar Niemeyer, no início da década de 60, foram professores do IAU-Instituto de Arquitetura e Urbanismo da UnB, antes de serem banidos pela Ditadura Militar em 1964, com demissão coletiva de muitos professores. E ainda tive a grande oportunidade de ser estagiário no seu escritório na W3 Norte em Brasília em 1978, para o desenvolvimento e detalhamento do Projeto EMBRAPA-DF.

E por estes motivos, tive a grata satisfação de me tornar seu amigo pela vida, principalmente no período que ingressei na UFSCar como Professor a partir de 1983, e que a cidade de São Carlos era um roteiro e uma agenda quase permanente e constante em sua vida. Seja em pesquisas tecnológicas em argamassa armada em parceria com o Departamento de Estruturas da EESC-USP, em palestras no IAU-USP e UFSCar, ou quando coordenador do Projeto do Hospital da Rede Sarah no Município, a convite do ex-Prefeito Newton Lima Neto (PT), hoje Hospital-Escola da UFSCar.

Rede Sarah Kubitschek:
Hospital Escola UFSCar de São Carlos

Alguns amigos arquitetos da FAU-UnB da década de 70, que conhecem também a obra e a grande contribuição do Lelé para a arquitetura brasileira e internacional, a partir de suas experiências exitosas e projetos, comentam essa insensibilidade do poder público em relação a história deste processo, projeto, vida e obra deste grande arquiteto:

“No caso de Araraquara e certamente noutras cidades, essas edificações não recebem a manutenção adequada e quando aparecem os problemas acham melhor interferir no sistema construtivo em vez de corrigir e reparar” (Arq. Silvano Pereira-DF)

“Além disso, estes projetos eram inovadores e de certa forma experimentais, em que pode haver a necessidade de intervenções corretivas ou complementares, mas sempre feitas por profissionais tecnicamente capacitados e sensíveis a proposta original. O que se vê na foto (site Prefeitura) é gambiarra pura” (Arq. Paulo Faccio-SP )

Diante dessa obra imediatista e extemporânea da Prefeitura sem avaliar a história do CAIC e seus princípios fundadores de projeto, mesmo considerando eventuais reuniões com a unidade escolar  ou  do Orçamento Participativo que elogiamos como instrumento, as decisões certamente foram tomadas sem consultas complementares a comunidade de arquitetos, ao COMPUA-Conselho da Cidade, a instituições representativas como o Conselho de Arquitetura e Urbanismo(CAU-SP) e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP) e as Escolas de Arquitetura de Universidades locais e regionais.

Além disso, dada sua importância e considerando todos esses fatos condicionantes, seria importante informar e consultar também a Arq. Adriana Filgueiras Lima, filha do Lelé, que participou de todo esse processo de projeto e criação dos CIAC no bairro do Cajú no Rio de Janeiro e em Brasília no Lago Paranoá, e responsável pela criação de um Instituto mantenedor para a preservação de sua vida e obra, após sua morte em 2014 aos 82 anos.

Prefeitura trabalhando na cobertura que deixa de ser original a existente no projeto de João Filgueiras Lima, Lelé

Embora o CAIC Vale do Sol de Araraquara tenha sido construído após a saída do Lelé e sua equipe do programa MEC, ou seja, não sendo mais responsável pelas implantações posteriores, é inegável que o projeto arquitetônico e parte do sistema construtivo, conserva em grande parte as características tipológicas de projeto original idealizadas pelo arquiteto. E por este motivo torna-se importante, necessária e obrigatória a avaliação profissional e técnica criteriosa de qualquer intervenção que venha a ser feita, no sentido de resgatar e preservar as características originais do projeto, com diretrizes técnicas e construtivas mais adequadas e simples, ensinadas por Lelé, desde que feita com sensibilidade e conhecimento.

João Filgueiras Lima-Lelé, foi um grande mestre e pioneiro de uma Arquitetura social e mais humana no Brasil, de uma Arquitetura e Construção pré-fabricada e industrializada feita com sonho, poesia e arte, de uma Arquitetura ecológica e sustentável de carbono zero. Foi e ainda é um grande arquiteto, artista e humanista brasileiro que merece nossa admiração, reconhecimento e respeito, em especial pelo legado de sua vida e obra representativa no Município de Araraquara, e que sempre procurou preservar os valores e princípios fundadores de nossa história cultural, artística, urbanística e arquitetônica.

Se não pode ser também com uma obra de arquitetura hospitalar, outra grande experiência de projeto do Programa Sarah Kubitschek coordenado por Lelé, para a reforma do posto de saúde e instalação de novas unidades na Vila Melhado,  quando fui Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano de Araraquara em 2004, proposta infelizmente não aceita pelo Prefeito, que seja pela preservação, valoração arquitetônica, técnico-construtiva e uma manutenção mediada pelas características do projeto original do CAIC Vale do Sol na periferia de nossa cidade.

NOTAS

(1) Prefeitura Municipal de Araraquara. www.araraquara.sp.gov.br/noticias/2002/marco/15/ prefeitura-instala-nova-cobertura-ncaic-vale-do-sol

(2) CAU-Conselho de Arquitetos do Brasil.In: www.caubr.gov.br/obrasilperdeLelé

(3) Filgueiras Lima, João- Escola Transitória: Modelo Rural. Ed.MEC,1984, Brasília-DF

(4) Prefeitura Municipal de Araraquara. Plano Diretor –  LC 350/2005