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Ferroviária 70 anos: A EFA que deu origem a AFE e descobriu Eusébio, o Pantera Negra

Faltando exatos seis dias para a comemoração dos seus 70 anos de vida, a RCIARARAQUARA traz um especial recordando os fatos mais importantes das sete décadas da Ferroviária, desde o seu nascimento e do primeiro acesso à elite paulista, até os momentos atuais do clube-empresa e da chegada da MS Sports, investidora encabeçada por Saul Klein.

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O primeiro time da Ferroviária na partida diante do Mogiana, de Campinas - Crédito: Revista (*) ARARAQUARA NO NACIONAL, Nº UM, 1978

Faltando exatos seis dias para a comemoração dos seus 70 anos de vida, a RCIARARAQUARA traz um especial recordando os fatos mais importantes das sete décadas da Ferroviária, desde o seu nascimento e do primeiro acesso à elite paulista, até os momentos atuais do clube-empresa com a chegada da MS Sports, investidora encabeçada por Saul Klein.

De início, contaremos como foi sua primeira década de vida, iniciada em 12 de abril de 1950, fundada pelo engenheiro Antônio Tavares Pereira Lima e que teve participação de outros funcionários da Estrada de Ferro Araraquara.

Por ter em seu símbolo as siglas EFA dentro de uma elipse, surgiu a ideia de apenas trocar o posicionamento delas e aproveitar o seu formato para que surgisse o brasão da Associação Ferroviária de Esportes (AFE). A cor grená é em referência as engrenagens das locomotivas.

Apesar de seu surgimento, o clube teria o seu time profissional em campo apenas em 1951. O primeiro jogo oficial aconteceu no dia 13 de maio, quando enfrentou a Mogiana, de Campinas, no Estádio Municipal Tenente Siqueira de Campos.

A primeira escalação da Locomotiva foi a seguinte: Tino; Sarvas e Aléssio (Pádua); Julião, Basso e Pimentel; Ministro (Baltazar), Milton Viana, Fordinho, Gonçalves e Tonhé. Técnico: Zezinho Silva. A equipe venceu por 3 a 1 e Fordinho foi o primeiro autor do tento grená na história.

Quase um mês depois, no dia 10 de junho, o estádio Doutor Adhemar Pereira de Barros, a Fonte Luminosa, estava pronto para ser inaugurado e foi realizado um jogo amistoso diante do Vasco da Gama, a base da Seleção Brasileira na época.

O placar foi de 5 a 0 para os cariocas, tendo destaque Friaça, autor do primeiro gol na Fonte e de outros três tentos. Tesourinha fez o quinto da partida.

A primeira vitória araraquarense em sua nova casa foi no dia 5 de agosto, diante do Barretos, por 2 a 1, pelo Campeonato Paulista da Segunda Divisão. Dirceu marcou o primeiro gol grená na Fonte.

FINAL EM 1953 E O ACESSO DE 55

O início da jornada afeana foi marcante para a história do futebol araraquarense. Logo em seu terceiro ano na divisão de acesso do Campeonato Paulista, a equipe conseguiu chegar na final para enfrentar o Linense, no estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, em São Paulo, no dia 31 de maio de 1953, mas com a competição sendo válida pelo ano de 52.

Em jogo único, a Locomotiva acabou perdendo para o Elefante da Noroeste por 3 a 0, com  os três gols marcados por Américo Murolo.

No mesmo ano, o clube passou por uma situação delicada. A Federação Paulista de Futebol começou a exigir, no mínimo, 10 anos a filiação dos clubes para poderem disputarem as suas competições. Por ser filiada por apenas dois, a Ferroviária não poderia disputar mais a competição de acesso à elite.

Porém, o Americano Futebol Clube, de Américo Brasiliense, na época distrito de Araraquara, se comoveu com a situação e a Ferroviária acabou fazendo fusão com o clube ameriliense para que continuasse a competir. E deu certo.

Em 1955, veio o tão sonhado acesso e em grande estilo. O campeonato foi disputado em pontos corridos e, na penúltima rodada, a Locomotiva fez clássico diante do Botafogo na Fonte Luminosa e goleou por 6 a 3.

Bazzani, o maior ídolo da Ferroviária, capa da revista “A Gazeta Esportiva – Ilustrada”, de 1960

O destaque na campanha fica por conta de um jogador que se tornaria o maior símbolo de toda a história do clube: Olivério Bazzani Filho, o popular Bazzani.

Além disso, a equipe conquistou também a sua maior goleada em toda a sua história, atropelando o Velo Clube por 15 a 1, na Fonte Luminosa. Cardoso marcou sete vezes e é o jogador que mais fez gols em uma partida com a camisa grená até hoje.

O time base da competição foi: Fia; Izan e Ferraciolli; Dirceu, Pixo e Elcias; Paulinho, Cardoso, Gomes, Bazzani e Boquita. Técnico: Capilé.

RIVALIDADE COM A ADA

Apesar de ter durado apenas cinco anos, Ferroviária e Associação Desportiva Araraquara fizeram o futebol e toda a sociedade araraquarense se dividirem para quem torcer. Mais uma vez, Pereira Lima foi o personagem principal central.

Depois de cumprir seu mandato como prefeito da cidade, o cartola tentou se reaproximar da AFE, mas o conflito político foram determinantes para que fundasse o novo clube na cidade, em 10 de janeiro de 1952, fazendo a rivalidade Ferro-ADA.

Com confrontos na Fonte Luminosa e no Estádio Municipal, o clássico araraquarense tomou grandes proporções, já que havia um conflito social, visto que quem trabalhasse na ferrovia era considerado da elite, enquanto o “povão”, principalmente nos bairros do Carmo e São José, abraçaram mais a ADA.

O primeiro confronto aconteceu no dia 10 de agosto de 1952, no Estádio Municipal. Em jogo de sete gols, a Locomotiva levou a melhor e venceu por 4 a 3. Russo (2), Dirceu e Osvaldo fizeram para o escrete grená, enquanto Américo, Lula e Elvo fizeram para o time alviceleste.

Entre amistosos e jogos oficiais pelo Campeonato Paulista da Segunda Divisão, foram 11 encontros, sendo seis vitórias grenás, dois empates e apenas três vitórias da ADA.

3ª COLOCADA NO PAULISTA DE 59

Em sua quarta participação e com apenas nove anos de vida, a Ferroviária alcançou a sua melhor colocação até hoje no Campeonato Paulista.

Foram 38 jogos disputados, conquistando 23 vitórias, sete empates e oito derrotas, marcando 78 gols, ficando com saldo de gols positivo de 44.

A 1ª EXCURSÃO E O DESCOBRIMENTO DE EUSÉBIO, O PANTERA NEGRA

No auge do futebol, muitos clubes costumavam seguir viagem para outras terras a fim de aprimorar sua equipe, divulgar a sua existência ou até mesmo, voltar com alguma contratação para reforçar o elenco. Para a Ferroviária não foi diferente.

Em 1960, a Locomotiva realizou sua primeira excursão por Europa e África do Sul, e fez bonito. No continente europeu, passou por Portugal e Espanha, batendo equipes como Nacional (4 a 3 e 2 a 0), Belenenses (2 a 1) e Porto (2 a 0). Diante do Sporting, derrota por 1 a 0 e empate por 1 a 1. Em Madri, empate diante do tradicional Atlético por 1 a 1.

Porém, um dos grandes “achados” do futebol aconteceu na África. Em meio a vários jogos, um menino chamou a atenção do então técnico Bauer, ex-meio-campista de São Paulo e Seleção Brasileira, e que comandava a Ferroviária na época. Era ninguém mais que Eusébio, que seria apelidado futuramente de Pantera Negra e é até hoje lembrado como um dos maiores esportistas de Portugal.

Eusébio, o Pantera Negra, em entrevista ao “Grandes Momentos do Esporte” – Crédito: Reprodução/TV Cultura

No programa “Grandes Momentos do Esporte”, de 1994 e que era mostrado na TV Cultura, Bauer explica como foi a descoberta e, por muito pouco, o clube araraquarense não contou com o futebol do jogador de Moçambique.

“Mas acontece que nós ganhávamos de 8 a 3, um cidadão ia lá e fazia os três gols. Ganhávamos de 5 a 2 e o cidadão voltava e tal. Aquilo me chamou atenção. “De novo esse moço vai jogar contra a gente?” Ele apareceu em todos os jogos. Fiz amizade com alguns portugueses que estavam por lá e disse a eles do meu contentamento de ver um grande jogador em ação. Aí eles me disseram “se quiser, ele vai para o Brasil, nós o arrumamos pra você”. Falei “pô, vocês estão brincando!?”. Passaram-se alguns dias e falaram que estava tudo certo e poderia levar o jogador. Falei com dois dirigentes da Ferroviária, um era o tesoureiro e o outro era o chefe da delegação, dizendo a eles que se a Ferroviária quisesse tínhamos um grande jogador para trazer para o Brasil. Mas disseram que tinham dificuldades, muitos problemas, então o jogador ficou.”, disse Bauer.

Fontes: Blog “Ferroviária Em Campo”, de Vicente Baroffaldi, livros “Fonte Luminosa” e “Araraquara, Futebol e Política”, de Luis Marcelo Inaco Cirino