Carta aberta aos servidores municipais e aos trabalhadores terceirizados e cooperados da Prefeitura de Araraquara
Nos últimos dias, Araraquara viu trabalhadores responsáveis pela limpeza de escolas, creches e outros equipamentos públicos interromperem suas atividades por falta de pagamento. Como consequência, unidades foram fechadas, serviços foram prejudicados e inúmeras famílias sentiram diretamente os efeitos de uma crise que não foi criada por quem trabalha.
Diante dessa situação, quero manifestar publicamente minha solidariedade aos trabalhadores terceirizados e cooperados que prestam serviços ao Município e, igualmente, aos servidores municipais que convivem diariamente com os impactos dessa paralisação.
Não escrevo como alguém distante dessa realidade. Sou servidor público municipal concursado e trabalhei durante 13 anos no NGA-3. Nesse período, atuei no atendimento à população, e diversos setores, inclusive na gestão da unidade. Conheço as dificuldades do serviço público e, sobretudo, conheço as pessoas que sustentam seu funcionamento cotidiano.
Apesar do estigma injustamente construído em torno do funcionalismo público, os servidores municipais são, em sua maioria, trabalhadores qualificados, experientes e comprometidos. São profissionais que conhecem profundamente os serviços, as necessidades da população e as limitações da própria administração. Frequentemente trabalham e produzem muito, mesmo diante de equipes reduzidas, estruturas inadequadas, falta de materiais, acúmulo de funções e condições muito inferiores àquelas necessárias para a execução adequada de suas atividades.
A higiene do ambiente de trabalho não é luxo, favor ou responsabilidade improvisada de quem estiver disponível. É o mínimo que qualquer empregador deve assegurar aos seus trabalhadores e à população atendida. Em escolas, creches, unidades de saúde e demais prédios públicos, limpeza e higiene também são condições fundamentais para a segurança, a saúde e o funcionamento dos serviços.
Isso não diminui qualquer atividade. Ao contrário: o trabalho da limpeza é essencial, exige organização, treinamento, materiais adequados e profissionais remunerados com dignidade. Quando sua ausência leva ao fechamento de unidades públicas, fica definitivamente demonstrada a importância desses trabalhadores.
Por isso, não é possível tratar o atraso de salários como um simples problema administrativo ou contratual. Por trás de cada pagamento que não chega, existe uma família que precisa comprar alimentos, pagar aluguel, água, energia, medicamentos e transporte. Existem trabalhadores que cumpriram sua parte e que não podem financiar, com a própria sobrevivência, as dificuldades de uma empresa, de uma cooperativa ou do poder público.
Também causa preocupação a declaração atribuída ao secretário municipal de Governo, segundo a qual servidores poderiam “passar uma vassoura” durante a paralisação. Colaboração não pode significar a substituição improvisada de trabalhadores paralisados nem a transferência da responsabilidade administrativa para quem já mantém os serviços funcionando em condições adversas.
A solução precisa começar pelo reconhecimento da dignidade de quem trabalhou e ainda não recebeu. Precisa passar por transparência, diálogo e pela apresentação de medidas concretas, com responsabilidades e prazos claramente definidos.
Aos trabalhadores que aguardam seus pagamentos e aos meus companheiros servidores municipais, deixo minha solidariedade e meu respeito. Conheço o trabalho que realizam, as dificuldades que enfrentam e a importância de cada um para o município de Araraquara.
Salário não é favor. Condições dignas não são privilégio. E nenhuma crise de gestão pode ser varrida para debaixo do tapete.
(*) Paulo de Tarso, Enfermeiro com passagem pelo NGA-3 por 13 anos, líder de setor e gestor da unidade. Trabalhou na saúde ocupacional da Electrolux e Raízen. Atualmente é Auditor da Unimed Araraquara no Hospital São Paulo e escreve para o RCIA.
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