A história se repete nos anos eleitorais. Nos anos 80 e 90, eu era filiado, militante e dirigente municipal em Jundiaí e estadual do PT. As propostas partidárias e consignas eleitorais voltavam-se à defesa da classe trabalhadora. Não pensávamos duas vezes em propor greves contra as opressões de empresários e patrões, que desrespeitavam seus direitos.
Uma das consignas nas portas das fábricas era: “Quem pica cartão, não vota em patrão”; e nas ruas: “Trabalhador vota em trabalhador”. Assim, boa parte dos trabalhadores entendia que seus interesses não eram os mesmos que os dos donos do capital acumulado com seu trabalho e sabia quem os representaria.
Quando a CUT (Central Única dos Trabalhadores) foi fundada, em 28 de agosto de 1983, no 1º Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), em São Bernardo do Campo, surgiu em um momento decisivo, marcado por forte exploração nas zonas rural e urbana. O Congresso reuniu mais de cinco mil delegados de todas as regiões do Brasil.
Nos congressos posteriores, a CUT aprovou pautas voltadas a um “novo sindicalismo”, focado na unificação de trabalhadores rurais e urbanos em torno de reivindicações econômicas e sociais. Com isso, os confrontos entre patrões e trabalhadores, sobretudo nas cidades do ABCD (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema), se intensificaram, com greves e conquistas salariais. Os enfrentamentos à ditadura militar e a atuação na Assembleia Constituinte foram marcos importantes.
Atualmente a região passou a ser ABCDMRR, incorporando Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, historicamente representada como o bloco de empresas do ramo de fabricação de veículos, berço do nascimento do movimento sindical operário combativo importante para impulsionar a luta política da classe trabalhadora no Brasil.
Vejam algumas propostas e pautas de luta do PT e CUT quando não eram aliados da direita, mas um partido exclusivo dos trabalhadores:
a) Fim do imposto sindical, substituído por contribuições diretas e voluntárias;
b) Direito de greve (não reconhecido antes da atual Constituição);
c) Salário mínimo com base no custo de vida real pelo DIEESE (hoje em R$ 7.425,99 — 4,58 vezes o mínimo vigente);
d) Não pagamento da dívida externa e realização de auditoria pública.
Além dessas reivindicações, destacava-se a redução da jornada de trabalho de 48 para 40 horas semanais, sem redução salarial. Na Constituinte de 1988, o movimento sindical — especialmente a CUT — conseguiu reduzir a jornada máxima para 44 horas, limite ainda vigente. Para os trabalhadores rurais, defendia-se a Reforma Agrária sob seu controle, essencial para enfrentar conflitos no campo e combater a fome e a miséria.
Passadas mais de quatro décadas, apesar das conquistas obtidas pela via eleitoral, várias pautas foram deixadas de lado. Entre elas, a redução da jornada de trabalho, que poderia ter avançado a partir do governo Lula, em 2003.
Desde novembro de 2024, a deputada federal Erika Hilton (PSOL) assumiu, na Câmara, a luta pelo fim da jornada de trabalho 6×1. O tema é aprovado por 71% da população trabalhadora (em alta desde dezembro de 2024, quando era 64%). Tramitam na Câmara as PECs (Propostas de Emenda à Constituição) 221/19 e 8/25 e, em 22 de abril de 2026, a CCJ aprovou, por unanimidade, sua admissibilidade, propondo reduzir a jornada semanal de 44 para 36 ou 40 horas, como em países como França (36) e Japão (35).
O governo Lula, ao constatar esse apoio, deveria assumir com firmeza a proposta defendida por Erika Hilton, que a encampou em ano não eleitoral. Assim, seria desejável que houvesse eleições todos os anos, para que os trabalhadores conquistassem direitos historicamente reivindicados e, com o tempo, “esquecidos” por centrais sindicais — exceto a CSP-Conlutas, que desde os anos 80 defende a jornada de 36 horas.
(*) Walter Miranda, Auditor Fiscal da Receita Federal, aposentado, mestre em Ciências Contábeis pela PUC/SP, pós-graduado em Gestão Pública pela UNESP/Araraquara, militante da CSP CONLUTAS-Central Sindical e Popular e do PSTU-Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR