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Memórias de um sobrenome familiar e famoso nas pistas

Conto como conheci pilotos que eram meus ídolos e com quem passei a vivenciar proximidade, período lúdico da minha adolescência (Benê)

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Da esquerda para a direita: Fusine, Cecotto, Adu Celso, Paulo Tognocchi e Betancourt (500 Milhas de Interlagos, em 1973)

O primeiro sobrenome familiar famoso que ouvi falar no mundo das motocicletas de corrida foi Tognocchi. Gualtiero, mestre e grande preparador de motores, irmão mais velho, já tinha prestígio no meio e eu, ainda que, com pouca memória, lembro-me de sua participação aqui em Araraquara, na Alameda Paulista, com uma Yamaha 250 cc TD1. Paolo, mais jovem, marcou mais sua trajetória em minha vida, pelo fato de ter vencido uma corrida aqui em Araraquara e depois porque eu estava no Autódromo, nos boxes do Moto Clube, em 1973, no dia em que, em parceria com Adu Celso, vencera as 500 Milhas de Interlagos.

Marca indelével, pois na companhia do irmão mais velho, já havia vencido a mesma prova no ano de 1970, portanto repetindo o feito e escrevendo por definitivo seu nome na história do Motociclismo Nacional como um dos melhores. A corrida de 1973 foi para mim no mínimo emblemática, a começar que fui com a equipe de Araraquara, representada pelos pilotos Evaldo Salerno e Edivilmo Moraes de Queiroz ajudar nos boxes, e isso por si só, já era uma experiência enorme, depois o encantamento de estar ali presente, do lado, de muito perto com os meus ídolos Adu, Tucano, Denisio Casarini, Paulé, Peixotinho e Gualtiero, vivendo dias de sonhos, mais que isso, a oportunidade única de estar ali.

Cecotto e Adu!. Show! (500 Milhas de Interlagos, em 1973)

Quando fui pela primeira vez em Interlagos com Paulo Pecin tudo foi muito diferente, a pouquíssima idade, o cansaço da viagem, a falta de intimidade com os próprios membros da equipe, a insegurança e o medo de que caminhos minha vida estava tomando, o olhar perdido no meio de tanta coisa para apreciar. Desta vez, tudo já era muito diferente, já tinha outro foco, já sabia exatamente o que eu queria daquele lugar, dos meus sonhos, do meu futuro e estava completamente apaixonado, encantado com a visão da pista, com o barulho que entrava na minha alma, pelo cheiro que extrapolava os limites da minha sensibilidade, pela movimentação das pessoas, que ao mesmo tempo em que concentrados para a prova, estavam em uma grande festa.

 Nos treinos cada vez que um piloto saía dos boxes, a minha movimentação era desenfreada, corria de um lado para o outro, para observar seu comportamento na pista, como ele faria cada curva, como era o seu pêndulo e em que qual melhor momento estabelecia frear para adentrar à curva. Foi uma experiência inesquecível. Viajamos na sexta-feira, chegamos ao anoitecer em São Paulo, indo direto para dormir em um daqueles hotéis “furrebas”, localizado no centro velho de São Paulo, confluência da Avenida General Osório com a Barão de Limeira, quadrilátero que abrigava as maiores lojas de peças e motocicletas do Estado de São Paulo.

Evaldo Salerno (500 Milhas de Interlagos, em 1973)

As revendas Edgard Soares, Luiz Latorre, Felipe Carmona e J. Toledo eram vizinhos e ali tudo se encontrava. Lá fomos para comprar pneus novos, corrente, coroa e pinhão para a Yamaha TD2B que Edivilmo e Nezinho (Salerno) iriam pilotar. Aprendi ali uma lição impagável – A lei da oferta e da procura.  Quando Edivilmo e Penha (José da Penha Moreira) – Chefe da Equipe, pediram o que precisavam para a motocicleta de corrida, o preço foi às alturas e o raciocínio era simples: ou compravam ou não corriam.

Não compraram e voltaram esbravejantes para o carro: Dinho Dall Acqua, matreiro e que havia ficado no carro para descansar, raciocinou como de costume fazia, desceu do carro, deu uma volta no quarteirão a pé e sozinho e foi à loja, fazendo a mesma compra pela metade do preço. Ato contínuo, fomos para o Autódromo onde passamos o dia entre treinos e acertos para lá dormirmos do sábado para o domingo.

No domingo a largada tipo LE MANS, o pega maravilhoso nas voltas iniciais entre Adu Celso o único brasileiro que disputava o Campeonato Mundial e Tucano (Walter Barchi), nosso melhor piloto do país naquele momento da história e que com brilhantismo, na companhia de Denisio Casarini, representavam a Equipe YAMAHA BRASIL.

Paolo Tognocchi, 500 Milhas de Interlagos, em 1970

A prova foi se desenvolvendo, emoção de toda parte e, no final dos 800 quilômetros, a vitória inconteste de Adu e Paolo Tognocchi. Naquele dia Salerno e Edivilmo completaram a prova com um brilhante décimo segundo lugar e eu, diante de tanta emoção, presenciei o início internacional da trajetória vitoriosa do mito venezuelano Johnny Cecotto, menino extraordinário que com apenas 17 anos proporcionou um espetáculo à parte, mesmo tendo problemas mecânicos na largada e de um tombo na curva da ferradura, quando tentava a todo custo recuperar o tempo perdido, fez o “Autódromo” no finzinho da prova “prender” a respiração com tamanha “tocada”, em duelo magistral que proporcionou com Adu, depois de recuperar uma volta que mantinha em atraso, conquistando com todos os méritos, o terceiro lugar em dupla com Ferrucio Della Fusine.

P.S.: – Três anos depois, Cecotto já era Bi-Campeão Mundial na categoria maior do motociclismo, desbancando “apenas” Giacomo Agostini (15 vezes Campeão Mundial).

Velhos Tempos Belos Dias.

Crônica de Benedito Salvador Carlos, Benê, com a colaboração de Leandro Pardine e Deives Meciano