Início Motociclismo Naqueles Tempos

Sonhos de criança na minha querida cidade

A fantasia que a gente criava quando era criança torna efetivamente o mundo mais belo e neste encantamento é que criávamos a alegria pela vida. Hoje, conseguimos lembrar deste tempo com muita saudade.

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Piloto Eduardo Luzia, em Interlagos

Fim de tarde de verão, perto das 17 horas, e Zezé chegou defronte sua casa, com aquela ‘lambretinha’ modelo Stander, pronta para a corrida, completamente ‘pelada’ e sem as suas já poucas latarias. Tinha uma cor azul, banco de vinil preto com assento único, escapamento em forma de funil, extremamente barulhenta, produzindo muita fumaça devido à sua rica mistura de gasolina e óleo Castrol R e que ele, buscando regulagem, acelerava desmedidamente.

Eu, que tinha mo máximo 6 ou 7 anos e em um tempo que criança ficar na rua, não representava perigo algum, na companhia de seu pai, Seu Pinante (Lindomar Braghini), que era meu padrinho de crisma, por minha única e exclusiva escolha, assistíamos a todo aquele espetáculo embasbacados.

Expedito Marazi e Eduardo Luzia em Araraquara

Aquele barulho me remetia ao famoso DKW nº 10, magistralmente guiado por Marinho Camargo Filho, nas corridas da ‘Avenida 36’. Evidentemente que eu não sabia o porquê, mas já era a magia do motor 2 tempos, que era o propulsor do carro e seu mesmo modelo também para a lambreta. Seu barulho ensandecido, estridente, encantador e, ao mesmo tempo, inebriante.

Escutar aquele som era um balsamo para minha alma, a batida do motor, o cheiro da gasolina impregnada em meu corpo e em meus sonhos. Naquele dia eu queria ser um Zezé, um Gildo Scarpa ou Manolo.

Com a chegada de minha adolescência, mais a convivência nas oficinas, fui ampliando horizontes e ganhando novos sonhos, nascendo daí então novos ídolos: Evaldo Salerno, de quem aprendi a admirar a “tocada” muito técnica e também muito agressiva. Neto era magistral, tinha a capacidade de repetir meticulosamente as curvas de forma absolutamente igual a corrida inteira, sendo técnico e, ao mesmo tempo, determinado. Se comparado a um baile, Salerno conduzia a motocicleta e Neto se apropriava do salão.

Chegar em São Paulo, no Autódromo de Interlagos, foi um divisor de águas na minha vida. Tinha aqui as amizades e a convivência de ambos, acrescida de Baiano Faito (Celso Martinez), Zé Faito, Diogo Martinez, Nego (Adolpho Tedeschi), Pinho (José Manoel do Amaral Sampaio) e Edivilmo. Lá o encontro especial com Eduardo Luzia, que daqui já havia ido embora, Araraquara tinha ficado muito pequena para os seus sonhos: queria mais, queria ser profissional, queria patrocínio, queria equipamentos melhores, queria novas e avançadas tecnologias, queria protagonismo. Particularmente admirava sua coragem, seu desapego com suas raízes. Seu sucesso foi imediato, primeiro ganhou o País correndo pela equipe Banaurea, da cidade de Santos, disputou com expressivos resultados o Campeonato Paulista, o Brasileiro, as Quinhentas Milhas de Interlagos por três ou quatro vezes e em dupla com Neto, as Vinte e Quatro Horas do Brasil e a Taça Centauro que ganhou com muitos méritos, conseguindo respeito e admiração de seus pares.

Eduardo Luzia, diferentemente de Salerno e Victorinho Barbugli, não era um piloto agressivo, seu estilo era técnico, mais parecido com o “jeito” de Neto e Edivilmo Moraes. Fazia sua corrida em uma “tocada” só, sem erros, mantendo regularidade impressionante, também tirando todo o proveito de seu equipamento. Como todo piloto, também era sonhador e fazia verdadeiras loucuras para competir. Uma delas, nas Quinhentas Milhas de 1972, convidou um promissor empresário aqui de Araraquara, e que era proprietário de uma Yamaha R5 350cc, dois cilindros, dois tempos, para ser seu parceiro. Sua participação, com a motocicleta emprestada, foi maravilhosa, quanto ao seu co-piloto inexperiente que era, guardamos a recordação do mesmo ter andado na contramão da pista, confundindo-se na curva da junção, que ao invés de entrar para a esquerda, entrou para a direita, provocando um caos enorme nos treinos. Noutra oportunidade, com o aval de Danilo Gregolin, seu amigo pessoal, no dia da inauguração da Loja Jumbo Eletro, aqui em Araraquara, verdadeira festa para a população, que ali se aglomerava comprou uma Suzuki 380cc, dois tempos zerinha, e, no mesmo dia autorizou José da Penha Moreira a depená-la, ficando pronta para corridas.

Os lambreteiros dentro de uma competição nas ruas de Araraquara

Ao fim de sua carreira de piloto, virou um “manager”, preparador de motores espetacular que participou ativamente das carreiras vitoriosas dos pilotos Edimar Ferreira e César Barros, ambos participantes inclusive do Campeonato Mundial de Motocicleta.

Em um dos nossos derradeiros encontros, na oficina dos Faitos, rememoramos estas histórias, demos risadas, gargalhadas sem fim e choramos muito pela felicidade de uma amizade tão bonita e tão verdadeira de pilotos do Moto Clube.

Velhos tempos, belos dias

Texto: Benedito Salvador Carlos (Benê)

Colaboração: Leandro Pardine