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Naquele dia ‘Joinha’ não foi para Interlagos

Está é matéria sobre uma “história” que sempre nos divertimos pela maneira que aconteceu. Verdadeira “trairagem” do bem que só amigos podiam cometer (Benê).

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Penha (José da Penha Moreira)

Por Benedito Salvador Carlos (Benê)

Tudo era muito difícil, tudo era desafiador. Poucos recursos, pouca logística e pouco conforto. Sobrava coragem e talento. Penha (José da Penha Moreira) e Neto (Olympio Bernardes Ferreira Neto), pilotos consagrados recebiam patrocínio de Joaquim Caratti, da Pistões Rocatti e ainda ajuda de custo da Escuderia OS PREOCUPADOS. Celso (Baiano Faito) Martinez, Pinho (José Manoel do Amaral Sampaio) e eu, algumas verbas pontuais. Assim íamos tocando, “correndo” literalmente atrás de nossos sonhos. Nego (Adolpho Tedeschi Neto) e Dinho Dall’Acqua faziam o que podiam para melhorar nossas condições e dessa forma nossas participações iam acontecendo.

A felicidade de chegar na cidade de São Paulo, em Interlagos, sentir o frio que o período de inverno anunciava, era única.  Você ali no mesmo lugar, na mesma pista, pisando no mesmo asfalto, ocupando os mesmos boxes, sentindo a brisa e a atmosfera do local, um cenário maravilhoso locupletado de placas e painéis publicitários, o mesmo local que Fittipaldi, Stewart, Cevert, Lauda, Tucano, Ceccoto, Casarini, Jacaré, Tognocchi, Eduardo Luzia, Zezo Ponticelli, Sidney Scigliano, dividiam conosco, ainda que em momentos diferentes, o mesmo palco, o mesmo ar e o mesmo cheiro da gasolina azul misturada com o óleo Castrol R, sensação que até hoje me provoca calafrios.

O desespero financeiro era tanto, que certa oportunidade, alguém arrumou para nós um patrocínio pontual que alegava só poder revelar no autódromo, e, na necessidade concordamos na hora. Pinho foi o primeiro a receber seu montante e de posse do dinheiro buscou em um posto de combustível próximo, a gasolina e os lubrificantes que poderiam melhorar o desempenho de sua Yamaha FS1. Tudo muito bonito, mais o que ele não contava era que, pelo compromisso assumido, tínhamos de plotar nas motocicletas a marca “PEIXARIA ESTRELA DALVA”, mico que, acabrunhados, pagamos sem reclamar.

Neto (Olympio Bernardes Ferreira Neto)

Nossa amizade e carinho um pelo outro era o que contava. Para esta corrida, naquele dia, nós tínhamos um problema: A verdade era que para ajudar no rateio da viagem, fora “vendido” um lugar a mais que a perua Kombi que nos levaria para Interlagos comportava. “Amigos convidados que viajavam junto e rateavam as despesas”. Assim tínhamos um dilema: Se devolvêssemos o dinheiro recebido para um dos acompanhantes desistir, seria necessário um novo rateio e isso também não era possível, pois, jovens que éramos, só tínhamos “o dia e a noite”, no dizer de Valdemir Rastelli, a gente trabalhava no almoço para garantir a janta.

A noite de sábado já havia entrado, cada um de nós já cumprido com o seu ritual de pré-viagem, de depois de um longo dia de ajustes nas motocicletas, um bom banho, a arrumação de uma pequena tralha para os modestos pertences que levávamos, tais como: capacete, luvas, botas, uma blusa seguindo o conselho sábio de mãe para o frio da cidade de São Paulo, um macacão surrado quase sempre esfolado nos joelhos por um piloto mais velho, que já possuía um mais novo, pente, escova de dente e desodorante, e em fim só faltava à chegada de um piloto retardatário e partir. Acontece que o piloto faltante não era qualquer um, era naquele momento da história a maior “estrela da companhia”, e a ele, sempre, até hoje, nossas reverências, de modo que não andávamos nem para frente nem para trás. Contra nós o tempo, quanto mais demorava a solução, mais conflito ia ter, afinal o frete da perua já estava pago e o dinheiro novo não existia. Eu e Pinho sempre quietos, de lado, pilotos novos que éramos, sem grana e sem patrocínio, ir já era uma vitória e nessa condição só de não atrapalhar, já estávamos ajudando.

Moto 19 Vanderlei Cavalari e Pinho (José Manoel do Amaral Sampaio)

Tomando a dianteira da situação que periclitava, Celso (Baiano Faito) Martinez, pediu um tempo, saindo apressado de carro, para em seguida poucos minutos depois voltar com uma solução: Podemos ir, ele vai mais tarde de motocicleta e muito bem acompanhado. – Vamos, vamos, vamos e assim seguimos. Esta passagem ficou marcante em nossa memória pela maneira matreira que Faito a resolveu. Havia entre nós, algumas garotas que respeitosamente, de vez em quando, acompanhavam o grupo e que próprio da idade, misturávamos um sentimento de amizade e paquera. Dentre elas, uma especial, muito bonita, dona de uma Honda 50 cc cinco marchas, branca e azul que pilotava com doçura, estudante de engenharia, morena, estatura media, cabelos semi-encaracolados, cativante, com um rosto de menina e corpo de mulher, anseio da maioria, que carinhosamente a chamávamos de “Joinha”, motivo mais que suficiente para o convencimento de nosso amigo retardatário. – “Ela quer ir e pediu para você buscá-la às 3h da madrugada, e sem barulho, dar umas pequenas batidas na janela de seu quarto, que ficava no corredor da casa, ressalvando: – “Não passe lá antes para não sujar”.

Combinado isso o nobre amigo liberou sua vaga e pacientemente esperou o horário pseudo marcado. Na viagem, Neto sempre preocupado, insistia com a pergunta: – “Como é que você o convenceu?” e Faito com o olhar distante fixos no horizonte, respondia: – “Deixa quieto, toca.. toca..”.

O sol foi amanhecendo e depois de um breve cafezinho no Posto Lago Azul, já na via Anhanguera, a Kombi que transitava serenamente sem esforço nenhum de seu poderoso motor, quando ao nosso lado, do nada surgiu uma Suzuki 500 cc, com seu piloto enfurecido sinalizando com os braços, pedindo para pararmos, e, Faito que estrategicamente viajava no banco dianteiro, ordenava: -“Para não, segue, seeeegueeee”. Quando chegamos em Interlagos a discussão cresceu: FDP, – Ela disse que não havia combinado nada com ninguém e além de não me acompanhar, de sobra ainda levei um “corre” do seu pai. – “Isso não vai ficar assim, vocês me pagam” (nunca pagamos) rsrs.

Sempre quando juntos, lembramos dessa e de muitas outras histórias que vivemos de forma tão intensa, dá saudade, um frescor na alma e a sensação de que tudo valeu muito a pena.

Velhos Tempos, Belos Dias