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O time do Acco, com Laurindo Cardoso, seu patriarca

A Série Os Grandes Clubes da Nossa Terra apresenta a história do Acco, que pertencia a Anderson Clayton, uma das mais importantes equipes do nosso futebol amador. Vale a pena você matar saudades.

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Uma das primeiras formações do Acco

Naquele final de tarde o apito da fábrica soou mais cedo; era possível ouví-lo à distância ecoando pela Vila Xavier afora e parecia até uma coisa combinada do Laurindo com o gerente da Anderson Clayton, o bom alemão que todos chamavam de Sachs.

As passadas mais rápidas eram dos que tinham sido chamados para o primeiro treino do ACCO, o time de futebol montado dentro da companhia. Não era nem quatro e meia. Laurindo como sempre, vestia a camisa branca; era ele o presidente do time; do lado o vice Ballestero, e no centro das atenções, para primeira preleção, o Doca, escurinho respeitado nas rodas de samba que o “Santo Antônio” organizava como chefe da escola “Anjos da Vila”.

E Doca, com a voz sufocada pela rouquidão da garganta, simplesmente dizia: “Butinada não, vai pegá mal e no primeiro ato de expulsão, oh o patrão ne nóis”. O alerta era geral para os colegas.

Laurindo Cardozo, presidente do Acco

E no grande círculo se fez então uma pausa para a oração ao Senhor, onde se pedia a graça pelo amor entre todos, ato de respeito ao inimigo, pois vencer seria bom, mas nem de todo o necessário, pois acima de tudo, estava a honra de servir a fábrica que em Araraquara era um orgulho e onde grande parte dos homens sonhava trabalhar.

ERA A INDÚSTRIA DO FUTEBOL

O Acco possuía uma estrutura invejável mantida pela Anderson Clayton & Company, que marcou a vida das pessoas, tanto na fábrica ou representando sua trajetória em campeonatos de futebol. A atividade esportiva envolvia ainda suas famosas “olimpíadas”.

Diretores Mr. McClure e Eng. Leonardo Gandolfi, da Anderson Clayton (São Paulo), Henrique Sachs (gerente da Anderson Clayton em Araraquara) e de costas o Dr. Willy Ghiraldini, médico que trabalhava na companhia local, acompanham a entrevista que o então prefeito Rômulo Lupo dava ao repórter Ivan Roberto, da Rádio “A Voz da Araraquarense” em 1967, por ocasião dos Jogos Accolinos realizados em nossa cidade

A empresa tem uma grande passagem na vida do brasileiro. Em 1948, a fábrica de óleo vegetal norte-americana foi a primeira indústria a introduzir a margarina no país, sendo detentora da marca Claybom e de outras na época. Além do produto, comercializava também livros de receita e um manual agrícola. Em 1970, quando o Brasil foi tricampeão mundial de futebol, o ACCO desenvolveu um cartão postal com a foto do time canarinho, algo marcante naquele ano.

Doca, o primeiro técnico do ACCO
em 1951, um ano depois da Ferroviária ser fundada. Moço simples, fala mansa e que pregava o respeito e a união entre todos os companheiros de fábrica e o clube. Morador da Vila Xavier, tinha um perfil conciliador, lembram alguns dos poucos amigos que ainda restam, afinal são passados mais de 60 anos. Tempos depois, Laurindo Cardoso assumiu a função de treinador, ele que fora o primeiro presidente do ACCO

A partir de 1950 é que a empresa começou a investir no futebol amador, projetando seus times para as disputas dos campeonatos da LAF e os internos, reunindo unidades da Anderson Clayton espalhadas pelo Brasil.

O time de futebol era formado pelos funcionários, mesclado por alguns jogadores convidados. Os treinos aconteciam as terças e quintas, às 16h15, no campo ao lado da empresa. O terreno era localizado na Avenida Industrial com a Rua Professor Dorival Alves, onde fica hoje o residencial Central Park Morada do Sol, na Vila Xavier.

De lá saíram trabalhadores e jogadores que conseguiram colher seus frutos, seja no interior ou na capital, ou os que apenas usaram o ACCO como ponte para seguir outras inspirações ao longo da vida.

LÁ VAI FURQUILHA O NOSSO PONTA DIREITA

O passado e as histórias se misturam no presente.  Hoje, o tempo é quem dita o ritmo. Uns continuam, outros se foram há muito tempo. Pegando a foto clássica do time do ACCO, olhando-a, vemos que meio time está na Terra e o restante aguarda a chegada dos outros para matar a saudade daquelas manhãs de domingo.

Os Jogos Accolinos eram uma olímpiada em miniatura, reunindo mais de 3 mil funcionários que a Anderson Clayton possuía no Estado de São Paulo. Eram quatro dias de competição com várias modalidades em diversas categorias. Em 1967, Araraquara foi sede das disputas

O ex-ponta-direita e esquerda, Edvard dos Santos, o Furquilha, proprietário do bar Zinho da Sete, fez parte do ACCO e do futebol amador da cidade. Ele também trabalhava no escritório da Anderson Clayton.

“Naquele tempo a gente se inspirava nos grandes craques como Garrincha e Pelé. Ainda pequeno, dizíamos: “Lá vem Garrincha! Passou por um, por dois…”, pensando em ser o mesmo craque que ele era”.

Furquilha como ponta direita do ACCO; hoje, dono de um bar na Rua Itália com a Portugal

Além do futebol, a amizade ainda perdura. Dos que já se foram, prezamos o respeito. Apesar das idas e vindas, Furquilha recorda um fato inusitado daqueles tempos. “Odairzinho e mais três morreram em um acidente de carro a caminho de Matão. O nosso time não tinha numeração e posição fixa. Então, o Laurindo (técnico) me deu o número que o Odair usava no ataque. Tive que jogar com o número do falecido; fiquei com muito medo naquele dia (risos)”.

Dos jogos memoráveis, Furquilha recorda dois que fizeram a sua alegria, em especial, um que valeu um título para o ACCO. “Não esqueço dos 3×1 sobre o Tamoio, no campo da Usina. Lá era difícil de jogar, a torcida empurrava muito o time deles. Porém, naquele dia desencantei e marquei dois gols. Mas nada se compara ao título que conquistamos em 1971 pelos Jogos Accolinos, contra o time da Lapa, em São Paulo. O time deles era formado, a maioria, por jogadores do Corinthians e Palmeiras. Eram muito fortes. Ganhamos de 1×0 e fomos campeões”.

Nos anos 70, o imbatível time do ACCO com Ibaté, Português, Bolão, Jaime, Piranha, Téo e Luizinho; Nica, Bial, Lia, Fininho e Tato

Durante os Jogos Accolinos, o time de Araraquara ficou instalado no Pacaembú. Como Furquilha fazia parte da diretoria da fábrica, ficou no mesmo cômodo que outros diretores. Certa vez, Furquilha saiu com o restante dos jogadores e eles voltaram além do previsto. “Entrei devagar no quarto e os diretores já estavam dormindo. Fui ao banheiro, escovei os dentes e retornei ao quarto. Quando deitei no colchão, o técnico Laurindo acendeu a luz e falou “Amanhã você vai ser titular e terá que jogar muita bola!” e logo em seguida apagou a luz (risos)”.

HUDSON ROSALINO, O MACACO

Outro que participou dessa aventura foi Hudson Rosalino, mais conhecido como “Macaco”, dentro e fora dos gramados. “Ganhei esse apelido porque, quando era pequeno, subia nas árvores. Um dia minha avó gritou “desce logo daí, seu macaco!” e meus amigos estavam perto.  Aí o apelido pegou”.

Hudson Rosalino, um dos nossos talentos dentro do esporte amador

Hudson jogou apenas as partidas dos Accolinos pelo clube e foi pé quente. “Fui convidado pelos diretores da fábrica para participar daquela edição em São Paulo. Por incrível que pareça, logo de cara fomos campeões. Era algo que a gente não esperava, pois havíamos enfrentado a equipe da Lapa. Tínhamos um excelente time, um dos melhores que a cidade já teve”.

Além de ter representado o Acco, Hudson marcou época em times como o Quitandinha, Americano, Estrela e, principalmente, pelo Paulista, chegando a ser campeão amador. Mas Hudson não era apenas um craque. Mais que isso. Menino de periferia, filho de família humilde, dessas que praticamente não existem mais, pela presteza e atenciosidade com o ser humano. Os valores que hoje são sua marca, expressam a herança deixada pelo seu pai Salviano, que lhe ensinou a trabalhar em meio a ferramentas e graxa, num canto escondido do Quitandinha quando a cidade ainda engatinhava para o desenvolvimento nos anos 60.

Seu futebol vistoso e cheio de alegria, está registrado por todos aqueles que tiveram a felicidade de conviver com um dos momentos mais significativos do nosso esporte amador. Pena que tudo isso acabou, parece ser o fim de um sonho.

O MUNICIPAL FICOU CALADO

Os irmãos Faccio um dia foram ajudar o ACCO a ser um grande time: Tonhão, Torero, Ibaté, Mário e Bial. Mas foi o Mário que deu um susto em todos eles.

Em uma família de cinco jogadores, Mário foi um dos nomes de destaque

Um grande personagem futebolístico da cidade pontuou seu nome na Ferroviária e no Botafogo de Ribeirão: Mário Nelson Faccio. Apesar de ter marcado época nestes times, Mário começou a carreira jogando pelo Expresso em São Carlos. Aos 15 anos, já conquistava o Campeonato Paulista da Série A3 da categoria profissional. Depois disso, a Ferroviária despertou o desejo de contar com ele. Mário não titubeou e aceitou na hora. Atuando com o uniforme grená, teve uma trajetória rápida na zaga afeana, chegando a jogar com os irmãos Bial e Tonhão, coisa rara no futebol. Os outros – Torero e Ibaté – também eram craques. Com uma carreira consolidada, partiu para Ribeirão rumo ao Botafogo, onde foi bem. Mas a sua carreira chegava ao fim precocemente, aos 30 anos.

“Estava em um bom momento, porém, tive uma contusão séria no joelho, um pesadelo na época. O próprio médico do Botafogo me operou e demorei muito para ficar bom. Não sentia mais aquela confiança e decidi retornar para Araraquara. Foi aí que o Acco abriu as portas para mim”.

Proprietário na época do Palácio das Tintas, a amizade conquistada com o pessoal do ACCO fez com que fosse convidado pelos diretores. Aceitou na hora, pois sua paixão era o futebol.

Uma das melhores formações do ACCO em todos os tempos: Bial, Candinho, Coca, Brandão, Bauer e Carioca; Furquilha, Alemão (São Geraldo), Touceira, Estilingue, Pilin e Zé Preto

“Foi no ACCO que eu joguei mais tempo na minha vida e só tenho saudades daquela época. Foi uma honra jogar com Candinho (goleiro), Estilingue (ponta-esquerda), Leonel (meia-direita), Coca (lateral-direito) e com os meus irmãos. Na Ferroviária jogamos em três (Tonhão, Bial e eu). No ACCO jogavam os cinco”.

Mário recorda quando eram realizados os jogos da Ferroviária e do amador no mesmo dia. “A cidade ficava dividida. O amador era forte e muita gente acompanhava os jogos. Aos domingos se via o Estádio Municipal mais cheio que a Fonte Luminosa”.

E foi em um domingo desses que algo chocante aconteceu durante a partida em que Mário estava em campo. Em uma dividida de bola, tentou segurar o adversário e, desajeitado, caiu rodopiando, batendo a cabeça muito forte no chão. “Apenas lembro de ter virado pro chão. Acordei no hospital”.

Jogadores foram chegando perto de Mário, que ficou ali, deitado no gramado, inconsciente. O desespero começou a tomar conta dos outros jogadores e a torcida ficou apreensiva, muda. A emoção foi tão forte, que Furquilha e os irmãos de Mário acharam que ele tinha morrido. “Me falaram que o Ibaté ficou me empurrando e caiu no choro pois eu não me mexia”.

Na época não havia preparo com o bem-estar dos jogadores como vemos hoje, ao ponto de ter uma ambulância em campo. As pessoas e os dirigentes não se prepararam e nem esperavam por isso. Pessoas que ali estavam tiveram que quebrar parte do alambrado do estádio para que a ambulância pudesse entrar e levar Mário para o hospital.

“Eu bati a cabeça forte e fiquei desmaiado. Graças a Deus estou bem quanto a isso. Foi um episódio que assustou muito quem estava presente naquele dia no Municipal”.

Hoje, com um futebol mais estruturado e com um poderio financeiro bem maior, o charme ficou perdido no tempo. A amizade hoje gira em torno de negócios. E os negócios vão bem apenas para agentes e empresários. O jogador é pobre de sentimentos. O amor pode acontecer, mas é apenas pelo sucesso e a fama, não pela amizade e o prazer. Hoje, jogador de futebol é uma marca que pode valer milhões. Os que fizeram valer a amizade e o companheirismo as preferem e com toda a razão.

A nossa singela homenagem a estes históricos atletas do Acco que encantaram o futebol amador em 1951: Manga, Dicão, Carlão, Ivo Jarina, Toreiro, Tidão, Nenê, Carnaval, Amaral, Cardoso, Otacílio e Laurindo Cardozo (presidente)