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Morre no Paraná, Marinho Gallera que em 1968 ganhou no IEBA o Festival Araraquarense da Canção

Nascido em Araraquara, o compositor e arranjador levou as raízes culturais da cidade para o Paraná, onde construiu uma trajetória marcada por parcerias com Paulo Vitola e Paulo Leminski, unindo música, poesia e teatro ao longo de mais de cinco décadas de produção artística.

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Mario Amadeu Gallera, que faleceu nessa segunda-feira (9), fez história e deixou um forte legado para MPB

A música popular brasileira se despediu nesta segunda-feira (9) de um artista que nasceu em Araraquara e levou o nome da cidade para além das fronteiras paulistas. Mario Amadeu Gallera, o Marinho Gallera, faleceu aos 78 anos, em Ponta Grossa (PR), deixando um legado marcado pela sensibilidade artística e pelo diálogo entre música, poesia e teatro.

Filho de Amadeu e Adelina Dorsa Gallera, Marinho teve seus primeiros contatos com a música ainda na infância, acompanhando o Coral Araraquarense e a Rádio Cultura. Já no ensino médio, em São Paulo, ampliou seu horizonte cultural e construiu amizades que o acompanhariam por toda a vida, como a do escritor Ignácio de Loyola Brandão, também araraquarense.

Marinho Gallera, na sua adolescência participou de um dos mais famosos festivais de música popular brasileira realizado no auditório do IEBA, na época o ainda – Instituto Bento de Abreu de Araraquara. Marinho, se inscreveu com a música “Viola” de ritmo forte e que ganhou a simpatia do público. Seu jeito de cantar levou o público ao delírio e ele comemorou como ninguém, ao lado dos universitários da Faculdade de Filosofia, a grande conquista.

“Viola minha companheira
chama tua gente vem cantar,
fulora, fulora roseira,
que a vida é um eterno rodar”
(Marinho Gallera)

Mas, naquela oportunidade para ser o vencedor, Marinho Gallera teve que concorrer com Sérgio Eduardo de Carvalho Costa (Lagartixa) que praticamente representava a elite e a sociedade que frequentava o Clube Araraquarense. Lagartixa que reside em Araraquara, concorreu com a música chamada A Tela, alcançando o segundo lugar.

“Quero vender uma lembrança do passado,
um sorriso enfeitado,
com mil cores de um pincel,
quem vai levar a minha tela colorida,
que eu guardei por toda a vida
na moldura lá do céu”
Sérgio Eduardo de Carvalho Costa (Lagartixa)

Também não foi fácil para Marinho Gallera vencer o festival, pois teria que derrubar uma torcida vinda da Vila Xavier, insuflada pelo talento e o gosto popular provocado por José Roberto Tellaroli que também circulava pelos corredores da Filosofia. Zé Roberto concorreu com a música “A Vila” e chegou em terceiro lugar.

“Vila, onde estão suas pastoras,
Vila onde estão seus tamborins.
Vila, berçário de gente bamba,
Acorda Escola de Samba
que o desfile está no fim!”
José Roberto Tellaroli

Aos 20 anos, mudou-se para Curitiba para cursar Ciências Sociais na UFPR e ali consolidou sua trajetória musical. Firmou parceria com o compositor Paulo Vitola e desenvolveu trabalhos que marcaram a cena cultural paranaense, além de colaborar com o poeta Paulo Leminski. Sua produção atravessou décadas, com discos, trilhas, jingles e projetos que reforçam sua versatilidade como compositor, arranjador e letrista.

Mesmo vivendo os últimos anos no Paraná, Marinho nunca deixou de carregar as referências de sua cidade natal. Araraquara se despede de um de seus filhos que transformou vivências locais em arte de alcance nacional, construindo pontes entre diferentes expressões culturais e gerações.