
Aurora,
Hoje você ainda é um bebê. Cabe inteira nos meus braços e sorri quando me reconhece. Enquanto escrevo estas palavras, você tem apenas alguns meses de vida e ainda não imagina o tamanho da mudança que trouxe ao meu mundo.
Talvez quando você leia esta carta já seja uma mulher adulta. Talvez já tenha seus próprios sonhos, suas escolhas, sua profissão e suas batalhas. Escrevo para você no futuro, mas sei que muitas mulheres do presente também poderão ler estas palavras.
Você nasceu em um mundo extraordinário em muitas coisas, mas ainda profundamente injusto socialmente, economicamente e massacrante para o gênero feminino. Ao longo da história, mulheres tiveram que lutar para existir plenamente — para estudar, para trabalhar, para falar, para ocupar espaços que hoje parecem naturais, mas que foram conquistados com muita coragem, sangue e suor.
Mesmo hoje, em pleno século XXI, mulheres ainda enfrentam desigualdade, violência e medo. Em muitos lugares do mundo, guerras, opressões e estruturas sociais continuam tentando limitar aquilo que elas podem ser, às matando simplesmente por serem mulheres.
Por isso escrevo algo que espero que você nunca esqueça: você não nasceu para viver com medo.
Quero que você seja uma mulher livre. Livre para pensar, para estudar, para questionar e para construir o seu próprio caminho. Que ninguém nunca consiga diminuir sua voz ou convencer você de que deve ser menor do que realmente é.
Se um dia você escolher o caminho da ciência, da pesquisa ou da vida acadêmica, ficarei imensamente feliz. Quem sabe até com um currículo Lattes daqueles que fazem os olhos de um pesquisador brilhar — não por vaidade, mas porque significaria que você estudou, produziu conhecimento e deixou sua contribuição para o mundo.
Mas mais importante do que qualquer título será sempre aquilo que você carrega dentro de si: sua dignidade, sua autonomia, sua capacidade de decidir sobre a própria vida e jamais esquecer da luta cotidiana de existir e ser mulher.
Nunca aceite violência. Nunca aceite desrespeito. Nunca aceite que alguém tente reduzir o tamanho da sua existência.
Que você tenha coragem para ocupar espaços, para liderar, para pensar criticamente e para construir uma vida que seja realmente sua.
Ao mesmo tempo, espero que você nunca perca algo que também transforma o mundo: a capacidade de ser gentil, de se solidarizar com outras pessoas e de compreender que nenhuma conquista individual faz sentido se não ajudar a construir uma sociedade mais justa.
Aurora, quando você nasceu, você ainda não sabia de nada disso. Você apenas sorria quando me via.
Mas naquele sorriso já existia algo muito poderoso: a esperança de que a próxima geração de mulheres possa viver em um mundo mais livre, digno e saudável do que aquele que encontramos hoje.
E antes mesmo de você entender qualquer uma dessas palavras, já existia alguém acreditando profundamente no seu potencial, na sua força e na sua existência.
Eu.
Seu pai.
(*) Paulo de Tarso, Enfermeiro com passagem pelo NGA-3 por 13 anos, líder de setor e gestor da unidade. Trabalhou na saúde ocupacional da Electrolux e Raízen. Atualmente é Auditor da Unimed Araraquara no Hospital São Paulo e escreve para o RCIA.
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