
Há uma palavra que se tornou o mantra dos porta-vozes do mercado financeiro, repetida à exaustão pelos editoriais da grande imprensa: ajuste fiscal. A cada dia, a cada entrevista, a cada comentário econômico, a mesma cantilena é despejada sobre a população como se o Brasil estivesse condenado à insolvência e a única salvação possível fosse cortar investimentos, restringir direitos e sacrificar o desenvolvimento. Não importa quem pague a conta, não importa quantos brasileiros sejam empurrados para a precariedade. O que importa é tranquilizar o mercado. A propósito, desde quando os interesses de uma minoria de especuladores passaram a valer mais do que as necessidades de um país inteiro?
O mais escandaloso é que essa narrativa pretende transformar uma escolha política em uma verdade econômica incontestável. O mercado e seus representantes na imprensa querem nos convencer de que o Estado gasta demais, de que o investimento público é um problema e de que o desenvolvimento deve esperar até que os credores estejam satisfeitos. Mas a realidade é outra. O Brasil não está sufocado apenas pelo gasto público: está sufocado por uma política monetária que mantém os juros em níveis extraordinários, encarece o crédito, paralisa a produção e transfere uma parcela gigantesca da riqueza nacional para os detentores da dívida pública. O ajuste que nos apresentam como solução é, na verdade, uma armadilha.
A contribuição de André Lara Resende é fundamental justamente porque enfrenta o problema onde ele realmente está. A conta de juros não é uma abstração contábil: é uma transferência concreta de recursos públicos para os credores financeiros. Quando o Banco Central mantém a Selic em patamares exorbitantes, aumenta o custo de financiamento do Estado, dificulta o investimento das empresas, sufoca o consumo das famílias e compromete a capacidade de crescimento da economia. Depois, os mesmos setores que aplaudem essa política apontam o crescimento da dívida como prova de que o governo precisa cortar despesas. É uma lógica perversa: primeiro, alimentam o incêndio; depois, exigem que o povo pague pela água.
A política de juros elevados não é neutra. Ela escolhe vencedores e perdedores. De um lado, beneficia os que vivem da renda financeira, os grandes detentores de títulos públicos e os agentes que encontram no dinheiro caro uma oportunidade de multiplicar seus ganhos. De outro, penaliza trabalhadores, pequenos empresários, agricultores, comerciantes e toda a economia produtiva. Enquanto o capital especulativo encontra remuneração extraordinária sem precisar produzir um parafuso, a indústria enfrenta crédito proibitivo, o comércio perde clientes e milhões de brasileiros adiam seus sonhos porque não conseguem financiar sequer uma casa ou um automóvel. Eis a contradição que a propaganda econômica tenta esconder: o país que precisa produzir mais está sendo obrigado a remunerar mais generosamente quem não produz.
E há uma questão política que não pode ser ignorada. Nas urnas, a população rejeitou o projeto representado pelo mercado financeiro e por seus aliados políticos e midiáticos. A democracia não pode se resumir ao voto, seguido da submissão do governo eleito aos interesses daqueles que perderam a disputa eleitoral. Não cabe à imprensa transformar a pressão dos investidores em uma espécie de mandato superior ao mandato popular. O Banco Central, por sua vez, não pode tratar suas decisões como se estivessem acima de qualquer debate democrático. A autonomia institucional não significa imunidade política, muito menos autorização para impor ao país uma estratégia que compromete seu futuro.
A cantilena do ajuste fiscal serve, portanto, para deslocar o debate. Em vez de discutir por que o Brasil paga juros tão elevados, discute-se quanto deve cortar em saúde, educação, infraestrutura e políticas sociais. Em vez de questionar o custo da dívida, questiona-se o investimento que gera empregos e amplia a capacidade produtiva. Em vez de enfrentar os privilégios financeiros, exige-se sacrifício dos trabalhadores. Não se trata de negar a necessidade de responsabilidade fiscal, de combater desperdícios ou de racionalizar despesas. Trata-se de rejeitar a falsa responsabilidade que protege a renda financeira e condena o desenvolvimento. Responsabilidade fiscal sem responsabilidade social é apenas austeridade a serviço dos privilegiados.
Precisamos de uma mudança profunda de orientação econômica. A proposta de Lara Resende aponta um caminho: reduzir gradualmente os juros, coordenar de maneira transparente as políticas monetária e fiscal, estabelecer metas compatíveis com o crescimento e utilizar os instrumentos disponíveis para evitar movimentos cambiais desordenados. É necessário discutir uma nova institucionalidade que subordine a política monetária aos objetivos nacionais de estabilidade, emprego e desenvolvimento. A redução dos juros não pode ser tratada como uma aventura irresponsável, mas como parte de uma estratégia planejada, capaz de diminuir o custo da dívida e abrir espaço para investimentos públicos e privados. O Brasil dispõe de instrumentos e recursos para construir uma alternativa. O que falta é romper com a submissão intelectual e política ao dogma financeiro.
O desenvolvimento exige investimento. Exige ferrovias, portos, energia, saneamento, moradia, ciência, tecnologia e reindustrialização. Exige crédito acessível, planejamento de longo prazo e um Estado capaz de coordenar os esforços nacionais. Cada obra pública, cada escola construída, cada fábrica modernizada e cada pesquisa financiada representam capacidade produtiva, emprego e renda. Não existe país desenvolvido que tenha alcançado sua condição renunciando ao investimento para satisfazer indefinidamente os credores. A austeridade permanente não constrói o futuro: destrói as condições para que ele exista. O Brasil precisa investir para crescer, e crescer para distribuir melhor sua riqueza.
Também é preciso enfrentar a concentração de renda e riqueza que sustenta essa ordem econômica. Uma política tributária mais justa, que faça os setores de maior capacidade econômica contribuírem proporcionalmente mais, deve caminhar ao lado da redução dos juros e da ampliação dos investimentos. O crédito precisa deixar de ser um instrumento de exclusão e voltar a cumprir sua função de financiar a produção, a inovação e o consumo responsável. O mercado financeiro não pode continuar reivindicando liberdade absoluta para acumular ganhos enquanto exige do Estado contenção absoluta quando se trata de atender às necessidades populares. A economia deve servir à sociedade, não a sociedade servir à rentabilidade de uma minoria.
A propósito, o Brasil não precisa escolher entre estabilidade e desenvolvimento, entre responsabilidade e justiça social, entre equilíbrio econômico e dignidade humana. Essa falsa escolha é o principal instrumento de chantagem daqueles que desejam perpetuar uma política que beneficia poucos e custa muito a todos. O que precisamos é de coragem para enfrentar os juros absurdos, desmontar a armadilha do ajuste fiscal e colocar a produção, o trabalho e o investimento no centro do projeto nacional. Que a imprensa abandone a condição de porta-voz do mercado; que o Banco Central responda aos interesses do país; que o governo não se curve à pressão dos que perderam nas urnas. O Brasil não nasceu para ser uma aplicação financeira. Nasceu para ser uma nação soberana, justa e desenvolvida. E é por isso que precisamos romper, de uma vez por todas, com a política nefasta dos juros altos.
*Jairo Júnior (JJ), Sociólogo, Jornalista, Escritor, Patriota e colaborador do RCIA.
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