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A grande imprensa e o déficit público

Por Walter Miranda

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Tenho ficado muito incomodado com o método usado pela grande imprensa para analisar o déficit nas finanças do Tesouro Nacional, abordando também seus impactos sobre o Banco Central e comparando-o sempre com o PIB (Produto Interno Bruto). Quase sempre, os veículos deixam de divulgar o peso absurdo dos juros e das amortizações da dívida pública, concentrando as críticas apenas nos gastos sociais.

Na condição de contador, economista e mestre em Ciência Contábil pela PUC-SP, irrita-me ouvir apresentadores e comentaristas de TV afirmarem que o equilíbrio fiscal só ocorrerá com a redução de despesas obrigatórias estruturais — como saúde e educação —, ao mesmo tempo que criticam qualquer tentativa de aumentar a arrecadação por meio de tributos. Parece haver um esforço deliberado para asfixiar financeiramente o Estado.

Os comentários habituais defendem um monitoramento rigoroso dos gastos que afetam o cumprimento das metas do arcabouço fiscal — aprovado pelo Congresso e aceito pelo Executivo —, sob o argumento de evitar pressões sobre a inflação e a taxa Selic.

Alinhadas a uma visão segundo a qual governos voltados para pautas sociais seriam “gastões”, as emissoras de TV — como a Rede Globo e outras grandes redes — focam implacavelmente as administrações progressistas. Na gestão atual, batem forte na cobrança pelo cumprimento das metas do resultado primário e criticam a suposta lentidão no corte de despesas.

No entanto, quando cobram rigor fiscal, quase nunca dão a mesma visibilidade aos gastos com juros e amortizações da dívida pública. Para ilustrar: entre 01/01/2019 e 31/08/2022 durante o governo Bolsonaro, os juros totalizaram R$ 1,6 trilhão, indexados à Selic. A título de comparação, no período de 01/01/2023 a 31/08/2026, no governo Lula, o montante alcançou R$ 3,5 trilhões.

É claro que é preciso ponderar o crescimento da Dívida Pública Federal, que passou de R$ 5,75 trilhões em 31/08/2022, no governo Bolsonaro, para R$ 9,28 trilhões em 31/08/2023, no governo Lula. De fato, o governo Lula acumulou um pagamento de juros superior. Deixo claro que, ciente da legislação eleitoral, não estou aqui fazendo campanha para ninguém.  Minha reflexão não é de caráter político-partidário.

Os dados oficiais ajudam a dimensionar esse cenário. O governo Bolsonaro encerrou a gestão com uma dívida pública de aproximadamente R$ 7,3 trilhões, tendo a relação dívida/PIB recuado de 75% para 71,7%. Por outro lado, até agosto de 2026, no governo Lula, esse indicador saltou de 71,7% para 82,5%, com o montante aproximado da dívida chegando a R$ 10,9 trilhões.

É diante desse quadro financeiro e econômico desafiador que, no próximo dia 4 de outubro de 2026, milhões de brasileiros irão às urnas em uma eleição superpolarizada para escolher o presidente que governará o país de 01/01/2027 a 31/12/2030. Seja quem for o eleito, tenho convicção de que, sem uma redução drástica no pagamento de juros — o que passa necessariamente por derrubar a taxa Selic de patamares elevados para algo em torno de 6% —, o país continuará estrangulado. Falo em 6% porque, atualmente, um juro real de 8% — Selic de 13,5% menos inflação de 4,47% nos últimos 12 meses— é um absurdo, sem falar nos altos spreads bancários, que contribuem para torna o Brasil um dos líderes mundiais na especulação financeira.

Voltando às análises da grande imprensa, nota-se que a culpa pelo alto endividamento e pelos juros recai exclusivamente sobre o Poder Executivo. Nada se fala, por exemplo, sobre os R$ 61 bilhões reservados pela LOA (Lei Orçamentária Anual) para 2026, alvo de suspeitas de desvios e outras irregularidades praticadas pelos deputados.

Da mesma forma, calam-se sobre os altos gastos com renúncias fiscais, que devem atingir cerca de R$ 903 bilhões até o final do ano — um valor que empequenece os gastos com o Bolsa Família, previstos em R$ 159 bilhões. Fica a pergunta: qual é o interesse da grande imprensa em não colocar, efetivamente, o dedo na ferida?

(*) Walter Miranda, Auditor Fiscal da Receita Federal, aposentado, mestre em Ciências Contábeis pela PUC/SP, pós-graduado em Gestão Pública pela UNESP/Araraquara, militante da CSP CONLUTAS-Central Sindical e Popular e do PSTU-Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados

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