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Atraso de safra, cana bis e morte súbita de usinas, tudo pode acontecer

Além disso, a gasolina ainda não teve repasse completo da queda de preço do petróleo, o que pressiona o preço do etanol para baixo

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De acordo com levantamento inédito do Pecege, a situação é extremamente delicada, especialmente no início desta safra

Redução máxima do capex, atraso de safra, cana bis e morte súbita de destilarias ou usinas com dificuldades financeiras. Essas são algumas das consequências que poderão ocorrer ainda na safra 2020/21.

O conflito entre Arábia Saudita e Rússia e a queda expressiva da demanda do etanol hidratado dada a situação provocada pelo Coronavírus, vem imponto uma realidade desafiadora para as usinas sucroenergéticas brasileiras. Hoje, os preços praticados não vêm sendo suficientes para cobrir o custo caixa da produção do etanol hidratado.

De acordo com levantamento inédito do Pecege, a situação é extremamente delicada, especialmente no início desta safra, quando a necessidade de liquidez se torna ainda mais forte para fazer jus às obrigações das usinas. Dentre elas, a folha de pagamento e da remuneração de fornecedores.

Ainda sem a exata previsão sobre em quanto deverá estacionar o preço do etanol, Beatriz Ferreira, pesquisadora do Pecege Projetos afirmou, em entrevista à RPAnews, que a prorrogação do isolamento social não fornece boas perspectivas no que se refere à retomada da demanda por combustíveis nas próximas duas semanas, pelo menos.

Além disso, a gasolina ainda não teve repasse completo da queda de preço do petróleo, o que pressiona o preço do etanol para baixo e, por essa razão, nesse momento, não há muito espaço para a retomada dos preços.

USINAS PODEM ATRASSAR A SAFRA

As usinas com bom planejamento financeiro estão com uma posição de caixa favorável, oriunda dos bons preços de comercialização da safra 2019/20 e do custo de produção reduzido – motivado, principalmente, pelo aumento da produtividade em relação à safra anterior.

A estratégia dessas usinas, segundo Beatriz, tem sido maximizar a produção de açúcar no início da safra e carregar o etanol para o segundo semestre, quando a perspectiva é de melhores preços. Esse é o caso da São Martinho, que com alta liquidez, espera alta da demanda para o terceiro ou quatro trimestre deste ano.

Já as usinas com liquidez comprometida passam por um momento complicado. O etanol, ativo que apresentaria maior liquidez para as usinas, tem sido comercializado a patamares que não remuneram o custo-caixa de produção.

“Nestes casos, as usinas que não têm caixa para honrar esses custos de início de safra devem recorrer a linhas de crédito para manutenção das atividades operacionais. A consequência, entretanto, é a elevação do nível de endividamento (já bastante alto) para essas usinas. A expectativa é a de que o governo atue no sentido de fornecer linha de crédito subsidiado,.de forma a minimizar o impacto do aumento do endividamento nas despesas financeiras das usinas”, salienta Beatriz.

Algumas unidades podem optar por atrasar a moagem, de forma a aguardar a elevação dos preços (especialmente do etanol) para dar o fôlego inicial da safra. No entanto, esse comportamento, de acordo com a pesquisadora do Pecege, atrapalha o cronograma de moagem. Sendo assim, pode implicar no aumento de custo de produção, já que a colheita/moagem ficaria concentrada em um período menor.

“O que se tem visto no mercado, especialmente para as usinas com problema de liquidez, é a comercialização do etanol mesmo abaixo do custo de produção. Isso porque as mesmas precisam honrar os compromissos de curto prazo”, adiciona.

CORTE DE CAPEX E CANA BIS

Outra opção que poderá ocorrer no mercado é o corte completo do capex no canavial. Neste caso, as usinas realizam apenas as operações de CTT para que ao menos consigam moer a cana que está no campo. “Essa estratégia, entretanto, já compromete a produtividade e rentabilidade da presente safra e, de forma mais importante, da safra 2021/22”, destaca Beatriz.

A terceira opção das unidades com maior dificuldade, seria bisar a cana. Tal ato pode ser fatal para as usinas que estão em situação financeira complicada. Neste caso, além de não gerarem receita na safra 2020/21, a produtividade da safra 2021/22 seria fortemente impactada. Desse modo, essas usinas entrariam em um ciclo de difícil de reversão.

“Essas usinas com baixa liquidez, alta alavancagem e inflexibilidade no mix podem sofrer o golpe de misericórdia nesse cenário de preços da safra 2020/21. Destacam-se, aqui, as pequenas destilarias com situação financeira precária”, observa a pesquisadora.

MUDANÇA DE MIX AJUDA NO MÉDIO PRAZO?

Várias usinas já fixaram os preços em reais para o açúcar nas safras 2020/21 e 2021/22. Então, já aproveitaram janelas de preços favoráveis e de câmbio elevado. Nestes casos, o impacto na rentabilidade dos grupos vai ser atenuado, segundo os analistas do Pecege.

A alteração do mix para uma safra mais açucareira pode ser benéfica.no sentido de aproveitar o câmbio elevado e de minimizar o excesso de oferta do etanol hidratado. Se feito, trará consequência no preço de comercialização.

“É esperado que ao longo da safra, os preços do etanol se recuperem gradativamente. Esta recuperação está atrelada à retomada do consumo após o fim do isolamento social e à possível trégua na guerra de preços entre Arábia Saudita e Rússia”, conclui a pesquisadora.