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O sentimento de preconceito pela cor e pobreza

Por Ivan Roberto Peroni

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Grandes amigos, nascidos na pobreza tanto quanto eu, eram negros. Foram amigos de verdade na minha infância, na escola – o Grupo Escolar Pedro José. Pouco antes também tinham sido amigos em escola rural na pequena Tabatinga, onde estudei pelo menos por dois anos. No IEBA, na Escola Industrial, Colégio Duque de Caxias, na Faculdade de Direito onde não terminei o curso, os negros estavam presentes, não muitos é verdade, mas os poucos que lá estavam – eram amigos de fato.

Cresci neste ambiente e muitos deles me fizeram compreender o que era preconceito e se a discriminação os abatia, os revoltava por causa da cor, também eu sentia a forma preconceituosa com que os ricos, pessoas abastadas, tratavam os pobres. Daí talvez essa minha admiração e o reconhecimento da importância da raça negra em minha vida. Dividíamos nossos medos, traumas, e víamos só na troca de olhar – a dor da rejeição brotada em nossa infância.

Se olho para trás hoje algo me parece dizer que o preconceituoso, aquele mesmo que desdenhava para a cor da pele dos meus amigos ou para a pobreza externa que me cercava, tinha uma forma de agir. Era na formação de grupos, na ação de grupos, que vinha o desdenho e assim, embora criança sabia que o preconceituoso mostrava o ódio em grupos, buscando tornar suas vítimas ainda mais frágeis.

Agora também vejo que a vítima escolhida pelo preconceituoso não precisa ser sempre a mesma.

Mas, hoje, o ódio é direcionado aos negros, amanhã a outro grupo. Poderá ser o morador de rua, o andarilho a quem ateiam fogo de vez em quando. Penso então que não se trata do grupo apenas, mas da forma como o preconceituoso vive a irracionalidade da ordem.

O ato covarde do policial norte-americano contra George Floyd com o joelho forçando seu pescoço é de uma bestialidade que não tem tamanho, traz evidentemente a repulsa, pontua o ódio e pode nos conduzir a tragédias com resultados inimagináveis.

A nota de repúdio, pesar e justificativa feita por Luiz Fernando Costa de Andrade, do Centro de Referência Afro – “Mestre Jorge” de Araraquara, sinceramente me fez voltar ao passado nesta segunda-feira e a ele sou grato.

Luiz Fernando tornou público esse nosso sentimento de preconceito pela cor e também nível sócio-econômico, o que jamais poderia ocorrer em qualquer nível ou dimensão da vida, em qualquer lugar do mundo, por qualquer circunstância ou motivo, perpetrada por agentes públicos ou civis, contra qualquer ser humano que seja, não só por ferir os princípios que norteiam a construção da Declaração Universal dos Direitos Humanos e as Constituições Democráticas e Republicanas Modernas, como a brasileira, mas, fundamentalmente, por ferir o respeito básico à vida, à existência segura e a dignidade, disse ele.

Se somos todos filhos do mesmo Pai como a igreja católica assegura, irmãos de quem me fez sonhar um dia, Jesus, então mais que nunca, reconheço a importância do que me disse Maria sua mãe: “Custa acreditar o que fizeram com meu filho, pois tirando-o de mim, o tornaram cidadão do mundo”. Assim a pobreza de uma manjedoura tornou-se mais poderosa que o preconceito da riqueza.

*Ivan Roberto Peroni, jornalista e membro  da ABI, Associação Brasileira de Imprensa

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