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À beira de qual abismo?

Por Rafael Zocco

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Nelson Rodrigues tinha razão. Vivemos sempre em uma complexidade do vira-latismo e nunca buscamos compreender o quão bom tem sido as coisas mesmo em meio ao caos, mas uma parte sempre tenta achar pelo em ovo, sem mesmo tê-lo na palma da mão para procurá-lo.

Sempre quando a Ferroviária está prestes a iniciar a sua caminhada em uma competição, aparece um grupo torcendo para o pior. Creio que não seja exclusivo aqui. 30 dias para o iniciar o Paulistão e esse pessoal rebaixou o clube, bem maior que uma sentença do STJD.

“Ó, céus! Ó, vida! Oh azar!”. Azar de quem para quem? A Ferroviária está em seu sexto ano consecutivo na primeira divisão e toda a temporada o planejamento tem sido a prospecção de jogadores que disputam a Série B do Brasileiro, com o calendário carregado até o mês de dezembro, com um mês de férias, e que o futuro seja trilhado em janeiro do ano seguinte, para iniciar o estadual no fim do mês ou no começo de fevereiro.

É praxe de qualquer clube do interior seguir essa cartilha, rara exceção daqueles que possuem divisões superiores e conseguem sustentar um elenco para o ano todo. Agora, eu queria entender, o que foi que deu nessas pessoas de dizerem abobrinhas que o clube está à beira do abismo? De qual abismo?

O abismo eu vi lá no começo dos anos 2000 quando o alojamento do São Geraldo começou a definhar, com torcedor (o verdadeiro) doando comida pro próprio jogador cozinhar um para ou outro, com o muro se desfazer, a casa não existir mais e depois virar apenas mato.

Respeito e muito aqueles que viram anos 50 e 60 da Ferroviária, o amistoso contra o Nápoli na Fonte Luminosa, a Copa de Ouro de 1983, semifinais do Paulista em 1985. Vivenciaram a história e ela precisa ser contada para sempre. Mas, eu tenho a minha também.

Eu vi a Ferroviária sendo derrotada para a Ponte Preta em 8 de junho de 1997 e rebaixada para a Série A3 no jogo seguinte. Eu vi o clube sendo rebaixado para Série B1 (a Bzinha ou a vitaminada como os antigos gostam de falar) e até mesmo a Fonte virar palco para festa peão pra pagar dívidas. E vou te falar uma coisa: ainda bem que vi aquilo tudo.

Agora, vocês afirmarem que vai cair sem ter começado o campeonato é algo difícil de digerir. 21 pontos, seis vitórias, três empates e três derrotas nos 12 jogos disputados (58,3% de aproveitamento), 20 gols marcados, 13 sofridos, terminou na quarta colocação da classificação geral, acima do milionário Palmeiras e do gigantesco Santos que nem se classificou. A melhor campanha desde 2016. Cadê o abismo?

Gente feliz não enche o saco!

*Rafael Zocco é formando em Comunicação Social – Jornalismo pela UNIARA e editor de Esportes do Portal RCIA Araraquara

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR