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Tal como Sucupira atrás de defunto, Araraquara corre para acabar com a maldição no aeroporto

Por Ivan Roberto Peroni

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A reinauguração do Aeroporto Bartholomeu de Gusmão, num rápido período de reflexão, parecia mostrar que o histórico filme do campo de aviação já havia passado pelas nossas vidas por conta da novela Sucupira, da Rede Globo, em que o prefeito da cidade buscava um defunto para inaugurar o cemitério da pequena cidade.

Araraquara, em 17 de dezembro teve seu ‘Dia de Sucupira’. Ali estava a classe política representada pelo prefeito, vereadores e se a Banda da Polícia Militar se ausentou, logo se imagina que foi substituída pelos brigadistas que deram banho com jato d’água no avião. Era então a benção para acabar com a maldição do aeroporto que apesar de ter sido criado nos anos 30, nunca em sua história conseguiu auto se sustentar por falta de passageiros.

Já a outra Sucupira, do prefeito Odorico Paraguaçu, personagem ficcional cômico criado pelo dramaturgo Dias Gomes e vivido pelo ator Paulo Gracindo, precisava de um defunto para reinaugurar o cemitério. Situação semelhante vivi como repórter da Folha de São Paulo nos anos 70: o prefeito de uma pequena cidade do Litoral Sul de São Paulo ficou desesperado para encontrar um idoso pois precisava inaugurar o Asilo de Mendicidade antes das eleições. Só depois da eleição é que o Asilo foi inaugurado com direito à benção, banda, fogos e discursos. Um dia inesquecível para os moradores.

Voltando à Sucupira, Odorico era dono de uma fazenda produtora de azeite de dendê, neto de Firmino Paraguaçu e filho do coronel Eleutério Paraguaçu. Candidato a prefeito da fictícia Sucupira, elegeu-se com a promessa de construir o cemitério da cidade. Apesar de corrupto e demagogo, era adorado pelos eleitores e exercia fascínio sobre as mulheres. Era pai de Telma (Sandra Bréa) e Cecéu (João Paulo Adour). Dono de retórica vazia, citava filósofos e políticos, como Platão e Rui Barbosa, ou criava frases que atribuía a personalidades.

O problema de Odorico é que, após a inauguração do cemitério, ninguém mais morreu. Desesperado com a situação, tomou iniciativas macabras para concretizar sua promessa, provocando situações cômicas. No final, Odorico Paraguaçu foi assassinado por Zeca Diabo (Lima Duarte/José Wilker) e inaugurou, finalmente, o cemitério, sendo que, de vilão, passou a mártir (Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre)

A nossa Araraquara neste momento para não chegar a ser Sucupira, precisa apenas de passageiro: nem de defunto, nem de idoso, bastando o que temos de cemitérios e casas de repouso. Assim, o aeroporto fará crescer a economia local que vem se arrastando aos trancos e barrancos nestes últimos tempos, salva basicamente pela expansão imobiliária.

Por enquanto, Araraquara com seus 202 anos e 240 mil habitantes, não adquiriu a cultura aviatória, quer dizer – se a viagem for daqui até São Paulo, com parada em Campinas, o viajante faz a opção da rodovia com tour nos postos de serviços como Figueira Branca, Frango Assado e Lago Azul, glamour das estradas desde os anos 70 e hoje com o Graal. Nesta mesma década,1970, o aeroporto ganhou um terminal de passageiros e a pista foi pavimentada e ampliada pelo Daesp. O último período em que o aeroporto recebeu voos comerciais foi entre 2013 e 2014, também com viagens pela Azul Linhas Aéreas entre Araraquara e Campinas, após uma ampla reforma que expandiu o terminal de passageiros de 210 m² para 1,6 mil.

Tomara que em 2020 a maldição aérea da nossa Sucupira tenha ido embora com o jato d’água no avião…

*Ivan Roberto Peroni, jornalista e membro da ABI (Associação Brasileira de Imprensa)

** As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem,necessariamente, com as do RCIARARAQUARA.COM.BR