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Bela, astuta e esperta, a raposa aparece nos muros da cidade

Artista de rua araraquarense (‘quase anônimo’) pinta esses bichinhos pelas paredes da cidade a fim de externar a ambivalência da consciência humana. O animal da família Canidae está em vários pontos estratégicos de Araraquara.

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Araraquarense inspira-se em nomes como o inglês Banksy e o brasileiro Alex Vallauri

Quem observa com calma cada canto do centro de Araraquara, com certeza vai se lembrar de ter visto, alguma vez, a figura de uma raposa pintada em muros aleatórios.  Este que vos escreve confessa ter topado com o simpático bichinho em três ocasiões, sendo a última vez num cantinho de uma das paredes que circundam aquela Igreja Evangélica localizada no galpão do antigo Supermercados Sé, em plena Rua Nove de Julho.

E outros cinco desenhos também estão espalhados por aí. Uso um tom de dúvida pois a arte de rua é feita sem autorização prévia. Assim, algumas pessoas optam por apagar o animalzinho de sua propriedade.

Icônico e anônimo, o inglês Banksy tem uma grande variedade de obras de arte poderosas e polêmicas. Seus primeiros desenhos foram feitos em Londres. Hoje, eles estão espalhados pelo mundo todo. Seus temas preferidos são política, filosofia, socialismo, terrorismo, sexualidade e outros derivados. Este rebelde jogando um ramalhete de flores é, talvez, seu trabalho mais famoso

Quem nos garante é o responsável por tudo isso, um artista plástico da cidade que aqui chamaremos de MateusOf. Na verdade, o mesmo se auto denomina desta maneira.

 Seu nome de pia (como diria João Cabral de Melo Neto), o primeiro, ao menos, fica fácil de deduzir. O sobrenome será mantido em sigilo. Ele prefere assim.

Em suas obras, MateusOf faz uso da técnica de arte no estêncil, um tipo de grafite

O que podemos dizer é que o rapaz tem hoje 38 anos e não é formado em artes plásticas. Todo o seu conhecimento vem da vivência com amigos, tutoriais na internet, além do velho e conhecido mecanismo da “tentativa e erro”.

Pois bem, em entrevista ao RCIA, o “arteiro” confessa ter pintado raposas também na Rua 5 (Voluntários da Pátria), na Rua 16 (Castro Alves), e na Via Expressa. Para tal, MateusOf utiliza a técnica de arte no estêncil, uma forma  de grafite mais rápida e simples. “Um amigo, em São Paulo, me apresentou a arte do estêncil e de existencialistas como o inglês Banksy, o francês Blek le Rat e o brasileiro Alex Vallauri. Este resolveu colocar suas ideias na rua e formou o “Poestencil”, onde pinta imagens e poesias. Gostei muito da ideia e comecei a participar do projeto. Voltei pra Araraquara e resolvi desenvolver meus próprios desenhos. Mas a parceria com o Poestencil continua”, conta.

CONCEITO

Fã de caminhadas pelas ruas da cidade, MateusOF revela que não há um manual a ser seguido na hora de escolher o espaço no qual vai desenhar. Ele apenas observa, pensa e depois coloca a mão na massa, sempre em horários alternativos.

Esta foi uma das últimas raposas flagradas pelo RCIA; ela está pintada em uma parede na Rua Nove de Julho, cruzamento com a Avenida Barroso

Mas por que uma raposa? Para o artista, o animal é bonito e solitário, resumindo a ambivalência da consciência humana: bela, astuta e esperta, mas também traiçoeira. “A figura dela desperta, nas pessoas, admiração (por ela ser bela) ou desprezo (por ela ser símbolo de traição e também por matar animais domesticados). É como o grafite no muro, despertando admiração ou desprezo”, analisa.

Sem limites artísticos, o araraquarense quer continuar seu projeto, porém pretende avançar e fazer outros trabalhos. “Já estou preparando outros rabiscos. Recentemente, fiz o ‘Vidas Secas’ (desenhado por um amigo ilustrador), que foi pintado no pontilhão da Barroso, mas ele já foi apagado. Enquanto houver possibilidade de colocar a minha arte na rua para que todo mundo tenha acesso, eu colocarei”, finaliza o artista MateusOf.

Por Matheus Vieira