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Morre o médico Leonardo Cunha que dividiu sua vida em trabalhar de graça na Ferroviária por 20 anos

Embora natural de Itápolis, o doutor Leonardo Cunha tinha a cara de Araraquara e o jeito da Ferroviária. Perdemos uma pessoa extremamente carismática que só sabia fazer o bem e não importava a quem. Partindo aos 92 anos deixa uma importante folha de serviços prestados à cidade e principalmente à medicina e seus passos vemos como o caminho para novas gerações.

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Leonardo Cunha, uma vida voltada para a medicina e também para sua adorada Ferroviária

Faleceu por volta das 13 horas desta quarta-feira (28), o médico oncologista Leonardo Cunha, talvez a maior expressão da medicina em nossa cidade e região. O seu carisma era o ponto alto de tantas amizades, conquista que veio do seu relacionamento social e esportivo, contam os seus amigos.

Leonardo era casado com Maria Isabel, deixa três filhos: Fernando, Fernanda e Maria Júlia, além de netos.

Leonardo Alberto Cunha, formado em medicina, sempre teve uma grande ligação com a Ferroviária. Atuou como médico do clube por mais de 20 anos, sendo também o primeiro médico do time feminino da Locomotiva no início dos anos 2000.

Ele nasceu em Itápolis, interior de São Paulo, no ano de 1931, mas já no final dos anos 40, Leonardo foi para a cidade de São João da Boa vista estudar, objetivando aprovação no vestibular de medicina. Ele morava numa pensão que era repartida entre estudantes e jogadores do time de futebol da cidade, a Sociedade Esportiva Sãojoanense.

Dr Leonardo Cunha durante a disputa da Libertadores da América em 2015. (Foto: Tetê Viviani)

Entre os jogadores que moravam com ele estava o zagueiro Bellini, que imortalizaria o gesto de levantar a taça da Copa do Mundo em 1958, na Suécia. “A pensão era apelidada de Mané Unha. Só tinha estudantes e jogadores de futebol. O Bellini tinha acabado de chegar de Itapira, e aí moramos juntos. Ficamos muito amigos”, relembra.

Quando não estava estudando, Leonardo estava jogando bola. “Sempre gostei de futebol. Cheguei até a jogar num time de São João da Boa Vista, no Palmeirinha”.

Leonardo foi aprovado no vestibular de medicina no Rio de Janeiro. Em solos cariocas, reencontrou Bellini, que estava atuando pelo Vasco. “Lembro que Bellini teve uma lesão no joelho, teve que operar o menisco. Eu estava no segundo ano de medicina, acho que era 1954. Ia sempre visitar ele”.

Na primeira partida após a reinauguração da Fonte Luminosa, contra o Ituano, em 2009. (Foto: ferroviariaemcampo.blogspot.com)

Depois de formado em medicina, Leonardo voltou para São Paulo. Desta vez foi morar na capital. “Fui trabalhar no Hospital Santa Catarina, em São Paulo. Muitos jogadores de futebol iam fazer revisão lá no hospital, na área de ortopedia principalmente. Acabei conhecendo vários atletas, inclusive o Pelé”, recorda.

No início dos anos 70, Leonardo voltou para o interior paulista. Primeiro para a cidade de São Carlos e, depois, para Araraquara. Ele era corinthiano mas, quando chegou em Araraquara, despertou outra paixão no futebol: a Ferroviária.

Time da Ferroviária em 2005. (Foto: ferroviariaemcampo.blogspot.com)

“Eu tinha até uma cadeira cativa no estádio, ia a todos os jogos da Ferroviária. Eu gostava muito da Boca do Lixo. Ficava lá torcendo. Xingava tudo, era pressão no adversário (risos)”.

 Ele relembra de uma partida que, quando estava no alambrado, foi entrevistado por um repórter. “Um dia o Sócrates esteve aqui na Fonte Luminosa numa partida contra o Botafogo de Ribeirão, e eu estava na grade. O repórter perguntou pra mim o que eu achava. Eu falei que o jogo era nosso, o Botafogo era freguês nosso. Com o Sócrates ou sem Sócrates, venceríamos! E não deu outra, ganhamos aquela partida”, conta.

Time da Ferroviária posado antes de partida na Índia. Dr Leonardo é o segundo da esquerda para direita. (Foto: Acervo pessoal Edu Rosa)

Já nos anos 90, o então presidente da Ferroviária, Antônio Parelli Filho, convidou Leonardo Cunha para ser o médico da Ferroviária. “O Parelli me chamou, mas eu falei que só iria depois que eu me aposentasse. E não deu outra: me aposentei e comecei na Ferroviária no dia seguinte. Era 1994”, fala.

Leonardo Cunha acompanhou de perto a boa campanha da locomotiva no vice-campeonato do Brasileiro da Série C, em 1994, e também no Brasileiro da Série B, em 1995.

Troféu conquistado na Índia e Dr Leonardo com a Taça da Libertadores conquistada pelas Guerreiras Grenás na Colômbia. (Fotos: Acervo Museu da Ferroviária e Tetê Viviani)

Ele também falou sobre o carinho que tem pelo maior ídolo Afeano. “Eu gostava muito do Bazani, era um amigo muito especial. O que eu podia fazer pra ele eu fazia, família muito boa também. Chegamos até a dividir quarto em hotel. Lembro de um dia que fomos jogar perto da capital, e ficamos num hotel em São Paulo. E estava frio. Cheguei no quarto e ele já estava deitado encolhidinho passando frio. No quarto só tinha um cobertor, mas ele deixou o único cobertor pra mim. Ele era excepcionalmente bom”, relembra.

Leonardo também recorda de uma vez que se empolgou durante uma palestra quando Bazani era técnico. “Ele dava palestra e eu ficava do lado dele escutando. Teve um jogo que ele começou a falar, falar, e eu comecei a dar palpite. Pensei que todo mundo falasse nessas palestras né. Aí ele olhou pra mim e falou: ‘fique firme aí e deixa pra mim’. Depois disso, nunca mais abri a boca (risos). Durante os 20 anos eu nunca mais abri a boca na palestra (risos). Mas o Bazani era uma pessoa excepcional”.

Elenco das Guerreiras no passeio de bondinho por Medelín. (Foto: Tetê Viviani)

No início dos anos 2000, começou o futebol feminino na Ferroviária. “Fui o primeiro médico do time feminino lá nos anos 2000. Eu era médico, cuidava delas, fazíamos preparo físico…”.

Em 2008, o time da base masculina da Ferroviária fez uma excursão para a Índia, disputar um torneio amistoso. Leonardo recorda com carinho desta viagem. “Ficamos quase um mês na Índia, o time ganhou quase todas as partidas. Chegamos a vencer até a Seleção da Argentina. E a Ferroviária jogou a decisão com um uniforme amarelo, pois estava representando o Brasil. Disputamos a final conta um time deles, e ficamos com o vice-campeonato. Sofremos só um gol, que foi esse que perdemos”, fala.

Leonardo também presenciou de perto as conquistas do time feminino. Uma delas foi marcante: a Libertadores de 2015. Ele viajou junto com a delegação para a Colômbia, numa campanha que resultou no título continental das Guerreiras Grenás.

Dentro do bondinho. (Foto: Tetê Viviani)

“O time era muito bom, mas ele foi reformulado durante aquele ano, muitas jogadoras saíram. E foi muito esforço de todo mundo, porque enfrentamos algumas dificuldades, desde a embarcação no aeroporto. Mas aí teve a primeira fase, classificamos e fomos para a semifinal. Ficamos um dia de folga e eu falei para as meninas: ‘vamos passear, é uma folga nossa, a cidade (Medelín) é muito bonita’. Sugeri de eu pagar metade do passeio e elas, através de uma vaquinha, a outra. Mas não tinham dinheiro pra isso. No final das contas, comprei passagem pra todo mundo e ficamos um dia inteiro passeando de bondinho, rodamos a cidade inteira!”, relembra.

Desde 2000, Dr. Leonardo Cunha dividia as atenções entre o time masculino e feminino da Ferroviária. Ficou na função de médico do clube até 2016, único clube em que trabalhou.

Dois momentos na vida de Leonardo Cunha: a conquista pelas Guerreiras da Libertadores da América e sua vida como profissional da medicina (Fotos: Tetê Viviani/Portal RCIA)

Na época com 89 anos, sobre sua passagem pelo time, Leonardo afirmou: “Foi uma época muito gostosa, gosto muito da Ferroviária. Eu nunca recebi nada para trabalhar lá, fazia de coração mesmo. Uma honra trabalhar no time que eu também torço. Não sou mais médico do clube, mas torcedor vou ser pra sempre (risos)!”.

Agradecimentos: Texto: Tiago Pavini/Ferroviária com fotos de Tetê Viviani, mais o Acervo Pessoal de Edu Rosa e Acervo Museu da Ferroviária

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