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Na Fonte, um símbolo revive a memória da Revolução Constitucionalista de 1932 em Araraquara

Um mausoléu na Praça do Soldado faz homenagem aos seis combatentes da cidade que morreram no conflito; saiba esta e outras histórias que ligam a Morada do Sol ao acontecimento lembrado em todo o estado de São Paulo nesta sexta, 9 de julho

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A transferência do mausoléu do Cemitério São Bento para o local atual ocorreu em 1972. (Foto: Matheus Vieira)

A 1ª rotatória da Avenida Bento de Abreu, no bairro da Fonte, é muito mais que ‘apenas o Balão do Soldado’. Ali, em uma das principais e mais charmosas vias da cidade, está localizado um mausoléu em homenagem aos seis combatentes de Araraquara que morreram na Revolução Constitucionalista de 1932, data lembrada em esfera estadual com um feriado nesta sexta-feira, 09/07.

O conflito, que ocorreu entre julho e outubro daquele ano, é considerado pelos paulistas como o maior movimento cívico de sua história. Nele, os araraquarenses que perderam a vida em combate foram: Bento de Barros, Diógenes Muniz Barreto, o tenente Joaquim Nunes Cabral, Waldomiro Machado, José Cesarini e Joaquim Alves.

O nome de todos estão gravados em uma placa abaixo do mausoléu, que foi inaugurado no dia 9 de julho de 1934. A transferência dele do Cemitério São Bento para o local atual ocorreu em 1972.

Os moradores da cidade interessados em se alistar, compareciam ao Clube Araraquarense (prédio onde funciona hoje a Secretaria de Cultura). (Foto: Divulgação)

VOLTANDO NO TEMPO

Compreendida de maneira resumida como uma reação armada imediata do Estado de São Paulo, a Revolução Constitucionalista de 1932 questionou os novos rumos tomados pelo cenário político nacional sob o comando de Getúlio Vargas. Seu marco zero vai ao encontro da morte dos manifestantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (M.M.D.C.) pelas tropas federais.

Em pesquisas feitas a partir reportagens de jornais da época disponíveis no Arquivo Muncipal, o portal RCIA notou que Araraquara teve uma forte participação na Revolução. Mesmo sendo,à época, uma pequena cidade, ela enviou para as frentes de batalha 541 de seus filhos.

Os moradores da cidade interessados em se alistar, compareciam ao Clube Araraquarense (prédio onde funciona hoje a Secretaria de Cultura). Lá, uma enorme faixa foi instalada convocando homens (independente da idade ou condição social) a prestarem serviços como voluntários à causa paulista.

“A comoção era geral. Grandes fazendeiros e pequenos agricultores colaboraram com alimentos e outros artigos para sustentar as forças de São Paulo nas frentes de combate. A população também fazia suas doações por meio de uma enorme bandeira de São Paulo que era carregada pelas ruas da cidade aos gritos “Ouro para São Paulo”, conta o jornalista e historiador Hamilton Mendes.

Bandeira de São Paulo que era carregada pelas ruas da cidade aos gritos “Ouro para São Paulo”. (Foto: Arquivo)

Nessa faixa, as pessoas depositavam alianças, anéis, relógios, pratarias, dinheiro, roupas, entre outros itens. Ao fim, ela era levada dobrada até a Casa Barbieri para contabilização (Rua 9 de Julho esquina com Avenida Duque de Caxias).

“Lá, um emissário despachava as arrecadações em trem da Companhia Paulista de Estradas de Ferro rumo ao Governo Revolucionário, em São Paulo, sediado no bairro dos Campos Elísios, proximidades da Estação da Sorocabana, na Avenida Rio Branco”, completa Mendes.

Também deve se registrar a criação dos batalhões infantis, com crianças da cidade vestidas em roupas militares que andavam pelas ruas invocando a colaboração de todos para o sucesso do movimento.

Na foto, o primeiro expedicionário a chegar da “frente de batalha”; ele teve apoteótica consagração, revelam os jornais da época. A esperá-lo também estava José do Amaral Gurgel que lhe fez uma saudação emocionante. (Foto: Arquivo)

Naquela época, a Rádio Cultura Araraquara, recém inaugurada, operando em Ondas Médias (AM) e sintonizada na frequência de 1.370 kilohertz (prefixo de PRD-4), realizava suas transmissões dentro das lojas Barbieri.

A emissora instalou diversos alto-falantes fora do local e transmitia, diariamente, para toda cidade, o programa “Notícias do Front” e lia “As Cartas do Front”, que eram as cartas enviadas pelos araraquarenses que se encontravam nas frentes de batalha.

FORÇA FEMININA

Uma das características marcantes da Revolução de 32 foi a intensa participação feminina. Naquela época, as damas ocupavam um papel secundário no cenário político brasileiro, porém as paulistas se envolveram, diretamente, na causa de seu Estado. Além de costurar, elas também ficavam responsáveis pelo auxílio em enfermarias e também em refeitórios.

Só no primeiro mês do conflito, 7,2 mil mulheres confeccionaram 440 mil peças de farda destinadas aos soldados. Refeições eram servidas pelas mulheres nas Casas de Soldado, localizadas por todo o Estado. Só em uma delas, foram servidos 149 mil almoços nos dois primeiros meses de atividades.

As mulheres araraquarenses tiveram uma intensa participação no conflito. (Foto: ARquivo)

Em Araraquara, essa realidade não foi diferente. À época, muitas moças ocupavam as escolas da cidade remendando meias, calças, blusas, além do monitoramento da arrecadação de alimentos.

Os principais pontos de trabalho eram nas seguintes instituições escolares: Antônio Joaquim de Carvalho, Colégio Progresso e o Grupo “Carlos Batista Magalhães”. O trabalho era difícil, ocupava o dia todo. Muitos estudantes, principalmente os mais velhos, também participavam, ajudando em variadas situações.

“Mas, entre as araraquarenses, ninguém teve a coragem de Dona May de Souza Neves, esposa do médico Camillo Gavião de Souza Neves. Ela deixou a cidade e rumou para a Capital, onde prestou serviço hospitalar para Assistência ao Soldado Constitucionalista. May não era formada em Enfermagem, mas tinha certa experiência no ramo, pois no consultório atuava como auxiliar do marido”, finaliza Hamilton Mendes.

Desfile cívico na Rua São Bento, na altura do Hotel Municipal. (Foto: Arquivo)

(Por Matheus Vieira)