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Ferroviária 70 anos: O milagre da Páscoa

No último capítulo desta série, destacamos a década atual do clube. O "Milagre da Páscoa", apelidado pelo torcedor afeano, mudou os rumos da Locomotiva para chegar novamente a primeira divisão estadual. O futebol feminino também mostrou a sua força, se consolidando como o principal time do país, além das categorias de base mostrar a sua força. Tem também a chegada da MS Sports, a nova investidora da sociedade anônima

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Jogadores abraçam o camisa 18, Jonatas Obina, autor do gol que deu a vitória para a Ferroviária: um verdadeiro milagre - Crédito: Leonardo Fermiano

Encerrando o giro pelas sete décadas de vida da Ferroviária, chegamos até ao atual momento do clube, que chegou novamente a Série A1 do Paulistão e hoje possuí um dos grandes investidores do futebol brasileiro, a MS Sports, liderada por Saul Klein, ex-dono das Casas Bahia.

Mas, para chegar até este momento, o clube lutou muito no início desta década, principalmente no ano de 2013, onde tudo poderia estar perdido e nem mesmo com a S/A resistiria a um tamanho baque.

A campanha do Paulista da Série A2 daquele ano foi muito abaixo do esperado e com acúmulo de derrotas, a equipe lutou contra a zona do rebaixamento até a última rodada, precisando de um verdadeiro milagre para escapar.

No domingo de Páscoa, o seu adversário na rodada derradeira foi o Santo André. A Ferroviária, sob o comando de Jorge Saran, precisaria vencer o confronto na Fonte Luminosa, torcer para as derrotas do São Carlos para a Portuguesa e do Noroeste para o Capivariano para não cair. O santo grená é forte e foi o que aconteceu.

Com gol de Jonatas Obina, a Locomotiva bateu o Ramalhão pelo placar mínimo, enquanto o São Carlos foi derrotado pela Portuguesa por 1 a 0 e o Norusca perdem em pleno Alfredo de Castilho para o Capivariano por 2 a 0. As duas equipes foram rebaixadas. Parte da torcida invadiu o gramado da Fonte para saudar o artilheiro do dia.

Ferroviária e Noroeste terminaram empatado com o mesmo número de pontos e vitórias. A diferença é que o time araraquarense marcou mais gols (18 contra 15), por isso ficou na 16ª colocação entre os 20 clubes.

Isso serviu para uma grande remontada do clube. Em 2014, com campanha regular, ficou na 9ª colocação e manteve uma base para a Copa Paulista, além da chegada de outros jogadores. O resultado viria no ano seguinte.

O FIM DO MALDITO TABU

2015 foi o ano mágico para a Ferroviária. Sob o comando do técnico Milton Mendes e de muitos jogadores que pertenciam ao Athletico Paranaense, a equipe fez uma campanha história na Série A2 e conquistou o seu terceiro título da competição, retornando assim a Série A1 depois de 19 anos.

No sistema de pontos corridos, em 19 jogos, a equipe conquistou 14 vitórias, dois empates e três derrotas. O jogo que culminou no acesso e título foi na antepenúltima rodada, quando encarou no dia 18 de abril o Guaratinguetá, fora de casa, e venceu por 1 a 0, em pênalti convertido por Tiago Adan.

As ruas de Araraquara foram tomadas por carros, torcedores e moradores que comemoraram um feito que jamais será esquecido.

O jogo da entrega da taça aconteceu na última rodada, na Fonte Luminosa. Com mais de 13 mil pessoas, Ferroviária e Guarani ficaram no 0 a 0, mas o que importou foi o final com a grande festa feita pela equipe diante do seu torcedor.

Na campanha, destaque também para a grande goleada sobre o Monte Azul por 7 a 1, em plena Fonte Luminosa.

Por ter feito um investimento muito alto, o clube abdicou da disputa da Copa Paulista daquele ano e ficou sem competir no segundo semestre, já planejando o ano de 2016 com a disputa do Paulistão.

AS DECEPÇÕES NO PAULISTÃO

Com investimento ainda maior, a Ferroviária montou um time muito competitivo e teve como treinador o português Sérgio Vieira, que treinou o time Sub-23 do Athletico Paranaense, que mais uma vez cedeu 12 jogadores para a disputa do Paulistão.

De início, a campanha surpreendeu, engatando quatro vitórias e um empate em seis jogos, entre elas a monumental vitória sobre o Palmeiras no Allianz Parque e sonhou com uma possível classificação.

Porém, não foi o que aconteceu. O rendimento do time caiu no decorrer da competição e na última rodada brigou para não cair. Precisou de um simples empate contra o Linense, fora de casa, e um tropeço do Água Santa sobre o São Bernardo para permanecer na primeira divisão.

Lembrando que foram seis rebaixados, já que a FPF decidiu diminuir para 16 clubes participantes nas três principais divisões do estado.

Mas nada foi parecido como o ano de 2017. Lutando contra o rebaixamento do início ao fim, a Locomotiva trocou de treinador: saiu Antônio Picoli e entrou PC de Oliveira, saindo do futsal e tendo sua primeira experiência como treinador de campo.

O time engrenou faltando apenas quatro rodadas para o término da primeira fase. Com vitória sobre o Corinthians na Fonte Luminosa e com atuação iluminada do goleiro Tadeu, a Locomotiva venceu por 1 a 0 e depois ganhou mais um e empatou dois, terminando assim na 14ª colocação com 13 pontos e fora da zona do descenso.

Em 2018, uma campanha mais segura fez a Ferroviária respirar tranquila no decorrer da competição. Foram apenas duas vitórias ao longo do campeonato que ficou marcado por muitos empates, sete ao todo, e três derrotas, terminando na 13ª posição. Confirmou a sua permanência na penúltima rodada, contra o Bragantino, na Fonte, por… 0 a 0.

A RECOMPENSA VEIO EM 2019

Sob a batuta de Vinícius Munhoz e com um elenco modesto, a Ferroviária surpreendeu com um futebol elegante em campo e fez a alegria do torcedor que esperou muito tempo para ver o time em uma fase decisiva do Paulistão.

Na primeira fase, terminou com 18 pontos, sendo quatro vitórias, seis empates e apenas duas derrotas em 12 jogos, terminando na segunda colocação do Grupo C, encarando assim o Corinthians, que terminou na primeira colocação de sua chave, nas quartas de final.

Em dois jogos de tirar o fôlego, as equipes terminaram empatadas por 1 a 1, tanto em Araraquara como em Itaquera. Sendo assim, a decisão se encaminhou para as penalidades e o Corinthians acabou levando a melhor por 4 a 2.

Ferroviária de 2019 – Em pé: Luiz Fernando (preparador de goleiros), Leonardo Fagundes (preparador físico), Rafael Teixeira (fisiologista), Gabriel Leite, Gualberto, Maurinho, Jorge Eduardo, Uilliam, Rodrigo Celeste, Rayan, Julinho, Rodrigão, Elton, Tadeu, Thiago Santos, Fábio Porto (médico), João Paulo (fisioterapeuta) e Vinícius Munhoz (treinador) – Agachados: Alisson, Arthur, Diogo Mateus, Anderson Uchôa, Tony, Felipe Ferreira, Lúcio Flávio, Léo Artur, Diego Gonçalves, Higor Meritão, Fellipe Mateus, Marquinhos (massagista) e Baianinho (roupeiro) – Crédito: Divulgação / Ferroviária S/A

TRÊS VEZES NA DECISÃO DA COPA PAULISTA

Depois do acesso no Paulistão, a Ferroviária fez brilhantes campanhas na Copa Paulista. Por três vezes seguidas, a equipe chegou na decisão do torneio, mas o saldo não foi positivo, uma conquista e dois vice-campeonatos, para XV de Piracicaba (2016) e Votuporanguense (2018), triunfando apenas contra a Inter de Limeira, em 2017. Os jogos de volta das três decisões aconteceram na Fonte Luminosa.

PARTICIPAÇÕES NA COPA DO BRASIL E NA SÉRIE D

A Locomotiva participou por duas vezes consecutivas da Copa do Brasil, em 2016 e 17. Na primeira, chegou na segunda fase, quando precisou eliminar o Salgueiro-PE (1 a 0, em Araraquara, e 1 a 1, no Pernambuco) para enfrentar o Fluminense.

Em um jogo épico em Araraquara, as equipes empataram por 3 a 3. O Fluminense chegou a abrir 2 a 0, com dois gols de Fred. A Ferrinha chegou a ficar com um homem a menos, quando perdeu o goleiro Rodolfo, expulso. Pra piorar, acabou tendo um pênalti desperdiçado por Thallyson.

Mesmo assim, foi atrás do resultado no primeiro tempo e empatou com Luan e Tiago Marques. Na segunda etapa, virou, novamente com Tiago Marques, mas acabou levando empate com Magno Alves.

No jogo da volta, derrota por 3 a 0, encerrando a sua participação na competição nacional.

Já em 2017, a Ferrinha acabou caindo logo no primeiro jogo para o ASA-AL, na Fonte Luminosa, perdendo por 1 a 0, saindo de forma precoce da competição.

Na Série D de 2018 e 19, participações que não deixarão saudades para o torcedor. Em sua primeira participação, a Locomotiva pouco fez e ficou ainda na primeira fase. Já em 2019, passou na segunda colocação de seu grupo e caiu na segunda fase para o Cianorte, nos pênaltis.

A DÉCADA TAMBÉM FOI DO FUTEBOL FEMININO

Quem trouxe muitas alegras também foi o futebol das Guerreiras Grenás com muitos títulos e consolidando como o principal clube da modalidade no país.

Em 2013, sob comando de Douglas Onça, conquistou o Campeonato Paulista quando encarou o São José na decisão. Os dois jogos terminaram empatados por 1 a 1. Por ter feito a melhor campanha de todo o torneio, as Guerreiras ficaram com o título. Raquel foi artilheira da competição com 22 gols.

Guerreiras Grenás comemoraram o título Paulista de 2013

No ano seguinte, dois títulos nacionais. A equipe decidiu a Copa do Brasil novamente diante do São José e foi da forma mais dramática: nos pênaltis. Na primeira partida, vitória grená por 1 a 0, na Fonte, e no jogo da volta, vitória do Águia por 1 a 0.

Já nas cobranças de penalidade, após 16 cobranças onde as goleiras brilharam, a Ferroviária sagrou-se campeã ao vencer por 5 a 4.

Outro título no ano foi o Brasileirão. Em dois jogos contra o Kindermann, vitórias por 3 a 0, em Santa Catarina, e por 5 a 3, na Fonte Luminosa, ganhando o seu primeiro título da competição.

Para coroar a grande momento vivido pela modalidade, as Guerreiras disputaram a Libertadores Feminina de 2015. Em sua primeira participação na história do torneio, as comandadas de Leonardo Mendes (hoje treinador do Sub-20 masculino) sagrou-se campeã ao derrotar o Colo-Colo-CHI por 3 a 1, fazendo a América ficar grená.

Daiane levantou a Taça Libertadores, em 2015 – Crédito: Tetê Viviani

A outra consagração viria em 2019 no Brasileiro, já no comando da gaúcha Tatiele Silveira. Depois de passar apertos na fase de classificação, a equipe conseguiu ficar entre as oito primeiras e fez história ao passar por adversários que eram considerados candidatos ao título, como Santos e Avaí/Kindermann, brilhando a estrela da goleira Luciana, pegando diversas cobranças.

Na grande decisão, encarou o Corinthians, tido como postulante ao título e que vinha de uma sequência de 34 vitórias seguidas, interrompida logo no primeiro jogo, quando empatou por 1 a 1, na Fonte Luminosa.

Já na volta, em um Parque São Jorge com mais de 6 mil corinthianos, novo empata por 0 a 0 e a decisão foi para as penalidades. Mais uma vez, coube a Luciana fazer defesa em chute de Tamires, enquanto Ingrid chutou para fora, para que Géssica convertesse a última cobrança para decretar o bicampeonato grená. De quebra, Tatiele Silveira foi a primeira mulher a conquistar o título de campeã brasileira.

Guerreiras bateram o invicto Corinthians na grande final – Crédito: Jonatan Dutra / Ferroviária S/A

A BASE VEM FORTE

Outra categoria que vem se destacando atualmente é a base, tanto do masculino quanto do feminino. Muitos atletas vem despontando e sendo aproveitados na equipe principal, assim como muitos clubes do futebol brasileiro e até mesmo europeu observam com carinho o trabalho que vem se desenvolvendo em Araraquara.

Em 2019, as categorias de base do masculino (sub-15, 17 e 20) chegaram nas três fases finais do Campeonato Paulista, com destaque para o time sub-15 que foi até as quartas de final, ficando entre os oito melhores do estado, caindo para o Santos em um jogo épico na Fonte Luminosa.

Já o feminino, também chegou nas semifinais do Paulista Sub-17, caindo para o São Paulo. A categoria também chegou na terceira colocação do Brasileiro Feminino.

A categoria sub-14 foi campeão do Festival Sub-14 de Futebol Feminino, promovido pela Federação Paulista de Futebol, derrotando na decisão o Meninas em Campo, projeto idealizado pelo Santos.

Ferroviária comemora título do Festival Sub-14 na Rua Javari – Crédito: Rodrigo Corsi / FPF

CHEGADA DO NOVO INVESTIDOR

Em novembro de 2019, a Ferroviária confirmou a saída da Know-How e a chegada da MS Sports como a mais nova acionista da sociedade anônima, que tem como principal investidor o bilionário Saul Klein, ex-dono das Casas Bahia.

Com projeto focado nas categorias de base, é estudado a construção de um moderno Centro de Treinamento para que possa abranger toda a estrutura afeana nos próximos anos. Por enquanto, está no papel.

Mudanças aconteceram com esta mudança, como a saída do treinador Vinícius Munhoz e do diretor de futebol, Roque Júnior. Marcelo Vilar foi o preterido para comandar o time no Paulistão e Pedro Martins voltou a ocupar o cargo de CEO no clube, tendo Rodrigo Possebon como gerente de futebol.

Porém, a passagem de Vilar durou apenas até a pré-temporada. A diretoria optou pela mudança e trouxe Sérgio Soares para comandar o time no Paulistão.

O presidente da Câmara dos Vereadores, Tenente Santana (esq.), o acionista Saul Klein, o prefeito Edinho Silva, o presidente da Ferroviária, Carlos Salmazo e o empresário Julio Taran, em visita à Fonte Luminosa – Crédito: Rafael Zocco / RCIA Araraquara

2020

O ano de 2020 continua sendo escrito pelas duas modalidades. Com paralisação do futebol brasileiro por contada pandemia do Coronavírus, o time masculino ocupa a quarta colocação do Grupo D do Paulistão com 11 pontos e luta por classificação à próxima fase.

Na Copa do Brasil, fez história e está na terceira fase da competição. No primeiro jogo diante do América-MG, empate por 0 a 0. O jogo de volta ainda não tem data definida.

Durante a paralisação, a diretoria optou por demitir Sérgio Soares e agora segue a procura de um novo treinador para a disputa da Série D.

Já as Guerreiras Grenás iniciaram com campanha arrasadora no Brasileirão Feminino e ocupa a liderança da competição com 12 pontos em quatro jogos. Enfrentaria o Corinthians pela 5ª rodada, mas o jogo foi adiado por conta do COVID-19.