Início Destaques

Coca Ferraz: “Só um choque político pode mudar os rumos da cidade”

Apresentando números durante entrevista à RCIA, o engenheiro Coca Ferraz mostra que a qualidade de vida piorou em Araraquara no atual governo e que se torna imprescindível mudanças para a cidade voltar a crescer nos campos econômico e social, incluindo-se para isso alianças com os governos Federal e Estadual.

267
Coca Ferraz

Por mais de duas horas, no final de fevereiro, o engenheiro Coca Ferraz, vice-prefeito no governo Barbieri, coordenador de Trânsito na cidade e ex-presidente da Companhia Troleibus Araraquara, concedeu entrevista à Revista Comércio, Indústria e Agronegócio. O nosso objetivo era ter uma análise técnica e política sobre o atual cenário de desenvolvimento do município. Também professor da USP (Universidade de São Paulo), Coca Ferraz, aceitou o desafio.

RCIA: Você tem afirmado que a qualidade de vida caiu muito nos últimos anos em Araraquara; é possível mostrar isso de forma objetiva?

Coca: Sim, isso pode ser constatado em nível macro no estudo realizado por um grupo de professores da USP, UFSCAR e FATEC, que foi disponibilizado na Internet no ano passado. Nesse estudo, Araraquara aparece em 13º lugar, com um nível de desenvolvimento classificado como “Regular” entre os 25 maiores municípios paulistas (com mais de 200 mil habitantes), não considerando os municípios da região metropolitana de São Paulo.

O ruim e triste para nós araraquarenses, é que até há alguns anos Araraquara estava entre as cidades classificadas como “Ótima” no tocante à qualidade de vida.

RCIA: Você disse em recente entrevista que tem números da situação difícil de Araraquara. Por exemplo, na área da Saúde como está a situação?

Coca: Vamos ver alguns dados. Em 2016, o índice de mortalidade infantil era de 8,0 mortes por mil habitantes, em 2018 foi de 12,5 (aumento de 56,25%). Em Rio Claro, por exemplo, este indicador caiu de 12,0 em 2016 para 5,7 em 2018 (queda de 52,50%). Isso significa que morreram em 2018 cerca de 40 crianças nascidas vivas em Araraquara. Se aqui o índice fosse igual ao de Rio Claro (2,19 vezes menor), teriam morrido apenas 18 crianças (22 mortes a menos). Em quatro anos de governo seriam cerca de 90 mortes a menos.

Outro ponto extremamente negativo na Saúde em Araraquara foi o surto de dengue no ano passado. Foram quase 25 mil pessoas infectadas, um índice da ordem de 100 casos por mil habitantes – muito acima do observado em outros municípios da região: 6 em Rio Claro, 7 em São Carlos, 12 em Jaú e 20 em Ribeirão Preto. Não sei a dimensão, mas o fato é que isso provocou muitas mortes e muito sofrimento em nossa população.

RCIA: E na área de Educação, você tem números? 

Coca: Um bom número para se avaliar o desempenho da área da Educação é o IDEB. Considerando a nota média das provas aplicadas no 5º e 9º anos, Araraquara está em 15º lugar entre os 25 maiores municípios no estudo USP/UFSCAR/FATEC. É a pior entre as classificadas com “Regular”, quase indo para o grupo das classificadas como “Ruim”. Cabe deixar claro, no entanto, que esses números referem-se a 2017 (último dado disponível) e a Educação é de responsabilidade compartilhada entre os governos Municipal e Estadual.

RCIA: Com relação à Segurança, qual a análise que você faz?

Coca: Considerando o Índice de Exposição a Crimes Violentos do Instituto Sou da Paz, calculado com base em dados da Polícia Militar, o valor médio em Araraquara em 2015-2016 foi de 16,9; em 2017-2018, de 18,3 (crescimento de 17,98%). Entre esses mesmos períodos, em Rio Claro houve uma redução de 18,25% e, em São Carlos, de 21,26%. No ano de 2018, São Calos está classificada na 20ª posição no ranking das cidades paulistas menos violentas, enquanto Araraquara está em 89ª – a probabilidade de uma pessoa sofrer um ato de violência aqui é 1,58 maior que em São Carlos.

RCIA: E quanto ao tema Meio Ambiente?

Coca: No ranking do Programa Município Verde Azul do Governo do Estado de São Paulo, Araraquara estava na posição 51º em 2016 e caiu para a posição 126º em 2019, atrás de praticamente todas as cidades maiores da nossa região (São Carlos: 121º, Ribeirão Preto: 20º, Bauru: 43º).

RCIA: No que se relaciona à Mobilidade Urbana?

Coca: Neste caso vamos comparar com a vizinha São Carlos, utilizando três indicadores. Valor da tarifa do transporte coletivo em 2019: 3,90 em São Carlos e 4,10 em Araraquara. Mortalidade no trânsito em 2019: Araraquara em 25% (penúltimo lugar) e São Carlos em 4º; no período 2017-2020 (4 anos), a previsão é que Araraquara terá 40 mortos e 900 feridos no trânsito a mais que em São Carlos. Previsão de recape de vias no período 2017-2020: 8 vezes maior em São Carlos em relação a Araraquara.

RCIA: Na questão econômica, há números a respeito?

Coca: Vou citar alguns números para mostrar a situação aflitiva de Araraquara. O PIB per capita entre 2016 e 2017 (último ano em que o dado está disponível) apresentou a seguinte variação: Araraquara:              – 0,95%, Rio Claro: + 4,81%, Bauru: + 3,15%, Rio Preto = + 4,65%, São Carlos = +3,85%, Ribeirão Preto = + 16,22%. Em termos de salário médio, Araraquara está classificada em 19º lugar (situação classificada como “Ruim”, quase “Péssima”) entre os 25 maiores municípios de São Paulo no estudo USP/UFSCAR/FATEC; para exemplificar, o salário médio em São Carlos é 19% maior que em Araraquara, em São José dos Campos, 37% maior. De 2016 para 2018, a frota média de veículos cresceu 33% a mais em São Carlos que em Araraquara (4.290 veículos a mais), trazendo um grande impulso para os setores de venda de veículos, de peças, combustível, de pneus, etc.

RCIA: A que você atribui essa “decadência” de Araraquara?

Há uma série de fatos que levaram a isso. Certamente, o mais relevante é o péssimo desempenho do governo municipal atual. Erros graves vêm sendo cometidos na condução do governo, envolvendo práticas administrativas inadequadas, estratégias de desenvolvimento equivocadas e isolamento político. Araraquara, para sair desse processo de “decadência” e garantir um futuro promissor para a sua população, precisa de um “choque político” envolvendo mudanças radicais na forma de administrar e nas estratégias de desenvolvimento e, o que é vital, bom relacionamento político com os governos Estadual e Federal (o que envolve, inclusive, a eleição de deputados alinhados com os governos Estadual e Federal). É preciso buscar a todo custo, com o apoio dos governos Federal e Estadual, emprego e renda para a nossa população. Como disse Voltaire (famoso filósofo francês): “O trabalho afasta dos seres humanos três grandes males: a pobreza, o ócio e o vício” – três pilares da infelicidade humana.

Para Coca Ferraz, erros graves vêm sendo cometidos na condução do governo, envolvendo práticas administrativas inadequadas, estratégias de desenvolvimento equivocadas e isolamento político