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Arcângelo Nigro: ítalo-brasileiro criou maior indústria de alumínios do Brasil

Família Nigro veio da Itália para o interior de São Paulo e revolucionou a fabricação de utensílios de cozinha no país

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Arcângelo Nigro

O ítalo-brasileiro Arcângelo Nigro fundou em 1943 a Indústria Nigro no interior de São Paulo. A empresa se tornou a maior em seu segmento no Brasil.

A história começa em Viggiano, uma pequena cidade italiana da província de Potenza, na região da Basilicata, onde o patriarca da família, Giuseppe Nigro, teve os filhos Francisco Antonio, Vicente e Nicola.

Na grande onda de imigração de italianos para o Brasil, em busca de melhores condições de trabalho, Nicola Nigro e família chegaram ao país em 1896.

No Brasil, Nicola foi morar em Bocaina, interior de São Paulo, onde conheceu a também italiana Beatrice Di Rienzo, nascida em Caserta, na região da Campagna, com quem se casou em 12 de outubro de 1901.

Numa localidade próxima, São Domingos, em sociedade com dois irmãos, Nicola tinha um armazém de secos e molhados. Foi nessa época que nasceram os dois primeiros filhos: Vicente, em 19 de julho de 1902, e Arcângelo, em 11 de março de 1904. O terceiro filho do casal, Antonio, nasceu em Pederneiras, em 1908.

VOCAÇÃO DE ARCÂNGELO NIGRO

Desde muito novo, Arcângelo já demonstrava vocação para os negócios. Por volta dos sete anos, ganhava algum dinheiro carregando as malas dos viajantes da estação ferroviária até o hotel que seu pai adquiriu em Bariri, para onde foi após desfazer a sociedade do armazém com os irmãos.

Nicola

Nicola foi dono deste hotel por alguns anos, até juntar dinheiro para retornar com a família para a Itália, onde tinha negócios com um moinho, em Caserta. No entanto, devido à escassez de trigo e à crise europeia às vésperas da 1ª Guerra Mundial, retornou ao Brasil, novamente para Bariri, onde adquiriu uma chácara. Deixou na Itália com os seus pais, a esposa grávida e os filhos Vicente e Arcângelo.

A convivência com os avós, o trabalho de pastoreio do rebanho de carneiros da família e os cenários de infância dos pais seriam marcantes para os meninos. Assim que conseguiu juntar dinheiro, Nicola mandou buscar a família na Europa, agora com Paschoal nascido na Itália. O casal teve ainda mais um filho nascido no Brasil: Roque.

HABILIDADE DE FERREIRO

De volta ao Brasil, a família vendeu a chácara para arrendar a produção leiteira de uma fazenda próxima a Itapuí, para onde se mudaram. Na época, o filho mais velho, Vicente, começou a aprender o ofício de funileiro. Logo o pai abriu uma funilaria em Pedro Alexandrino, localidade próxima, e começou a produzir torradores de café, bules, cafeteiras, regadores e outros utensílios. Pouco tempo depois, transferiu a empresa para Itápolis.

Em Itápolis, Arcângelo começou a aprender a profissão de ferreiro e a fazer aros de carroças, peças de arados e até implementos agrícolas. Assim que consolidou algum rendimento, propôs casamento à namorada, Maria Cavichioli, e os dois se casaram em 12 de julho de 1924, ele com 20 anos, ela com 19 anos, indo morar em Borborema, mas logo retornaram a Itápolis, já com um filho: Francisco Humberto.

Sem abandonar a profissão, Arcângelo montou em Itápolis um posto de gasolina e depois, em 1932, se tornou revendedor Ford para a região. No entanto, com a 2ª Guerra Mundial e o racionamento de combustíveis, o fechamento do posto e da revenda Ford foram inevitáveis.

Com os tempos difíceis, Arcângelo já estava decidido a se mudar para Londrina, no Paraná, onde tentaria melhor sorte nos negócios. Mas, na última hora, ficou sabendo que a Prefeitura de Araraquara estava vendendo 300 toneladas de ferro-velho.

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Dessa forma, no início da década de 1940, Arcângelo Nigro, já com quatro filhos, Francisco, Pedro, Hugo e Beatriz, mudou-se para Araraquara, a apenas 86 quilômetros de Itápolis, onde resolveu aproveitar a grande quantidade de metais que adquiriu para fabricar utensílios domésticos.

No início, ele fabricava utensílios reutilizando latas de óleo, de massa de tomate, entre outras embalagens. Com as latas cortadas, Arcângelo produzia canecas e soldava as alças. Com o tempo, veio a produção de regadores e baldes.

NASCE A FÁBRICA

Vista aérea da fábrica, no interior de São Paulo

Com a ajuda dos filhos, instalou uma oficina em 1943, onde permaneceu por alguns anos, até se transferir para um local maior e iniciar efetivamente a produção de artefatos de alumínio e cobre.

O patriarca Nicola Nigro morreu em fevereiro de 1946, aos 78 anos, em Araraquara, ainda a tempo de testemunhar a capacidade de geração de frutos de sua família por meio da força empreendedora dos filhos e netos.

No início da década de 1950, Arcângelo Nigro partiu para a expansão da fábrica, com o desenvolvimento da tecnologia que possibilitou a confecção da Panela de Pressão Eterna, que se tornou o carro chefe da linha de produção.

AJUDA DOS FILHOS

Em 1956, tendo como sócios os filhos, a empresa passou a se chamar Arcângelo Nigro e Filhos Ltda. Os grandes investimentos começaram a surgir, a produção expandiu junto com as primeiras exportações, a Nigro ganhou reconhecimento internacional e fortaleceu sua estrutura, consolidando-se no mercado.

Em 1958, a atual sede da Nigro, junto com a moderna fábrica, começou a ser construída, em um terreno adquirido no início da década de 1950 por Arcângelo Nigro. O local incluía um espaço para a família e funcionários, chamado de “paradiso dopo il lavoro”, ou paraíso após o trabalho.

Entrada da fábrica, em Araraquara

O local tinha um campo de bocha, construído embaixo de jabuticabeiras, mesas para baralho e balanços para as crianças. Além disso, contava com um pomar repleto de laranjeiras, pés de mexericas, melancias, abóboras e mandiocas e até uma plantação de arroz. Toda a colheita era dividida pelo patrono com familiares e funcionários.

LEGADO DE ARCÂNGELO NIGRO

Hoje, com quase 80 anos de história, a Nigro Alumínio Ltda segue na família e continua líder em seu segmento na indústria brasileira, comercializando mais de 600 itens para o Brasil e diversos países.

Arcângelo Nigro se envolveu com a cidade de Araraquara ajudando a comunidade de muitas formas. Foi presidente do Lar Juvenil durante 20 anos, ajudando a cuidar de 200 menores assistidos pela entidade beneficente, ajudou a construir a Casa do Cursilho de Cristandade, a Casa de Emaús, e ajudou na construção da Igreja Nossa Senhora das Graças, por exemplo.

Em paralelo ao sucesso dessa indústria fundada por italianos no Brasil e no mundo, a maneira como os filhos, netos e toda a família Nigro se envolveu na comunidade de Araraquara é um exemplo não somente da força do trabalho para um país, mas do que os laços de amizade e amor podem fazer por uma cidade e uma região.

Por Roberto Schiavon / Italianismo