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Em entrevista inédita concedida em 1974, ex-prefeito Rubens Cruz fala das obras realizadas em sua gestão

Material traz detalhes da construção do Gigantão e do Paço Municipal

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Rubens Cruz, prefeito de Araraquara entre 1969 e 1973

Rubens Cruz, prefeito de Araraquara entre 1969 e 1973, foi um dos entrevistados em trabalho de alunos da 8ª série do 1º grau do IEEBA em 1974. O projeto dos estudantes Adil Fernandes Canicoba, Florisval Rodrigues Jr., Geanna Maria Hernandez e Vanessa Serra Bueno, feito para a disciplina OSPB (Organização Social e Política Brasileira), teve a orientação da professora Emery do Carmo Granja Azzoni. 

A entrevista, feita em 5 de junho de 1974, pouco tempo depois de ser prefeito, foi recuperada pelo historiador Alcyr Azzoni. Rubens Cruz faleceu no dia 29 de junho de 1994, aos 75 anos de idade. Confira a entrevista, publicada pela primeira vez na íntegra pelo Portal RCIA.

1). Dados biográficos:

Nascido em Bueno de Andrada, filho de italianos que vieram para o Brasil e se instalaram em Araraquara, Matão e depois tiveram seus filhos.

2). Quais as obras que durante o seu mandato foram mais difíceis de realizar?

Todas as nossas obras não tiveram dificuldades porque sempre trabalhamos com entusiasmo, com ânimo e de forma que toda pessoa que trabalha com entusiasmo e ânimo não encontra dificuldade para realizar aquilo que se intenciona e, tudo aquilo que fizemos foi em benefício do Município e da coletividade. Trabalhamos com gosto, empregamos quatro anos para o desenvolvimento de nossa terra. Era uma tarefa que nós tínhamos empenhado e hipotecado a nossa pessoa com o Município, com os políticos e com o povo principalmente na educação, vocês são do IEEBA, eu me recordo muito bem que quando eu entrei na prefeitura, houve um caso de saúde pública no IEEBA, que é uma questão dos sanitários da escola. Construímos a separação dos sanitários masculinos e femininos.  Não pudemos fazer uma reforma que foi pleiteada, mas o prefeito seguinte, que colocamos, foi quem terminou o ginásio de esportes . Assim fizemos uma porção de coisas em benefício da cidade.

3). Como o Sr. viu a construção do Gigantão?

Nós recebemos a construção do Ginásio de Esportes nos alicerces e a  firma empreiteira que tinha pego a obra não tinha condições para que fosse até o término, principalmente com aquilo que estava contratado, de forma que nós fomos obrigados a tomar a obra, ameaçar judicialmente e partimos para aí, e quando foi no dia 11 de abril de 1969 nós tivemos a felicidade de que eles entregaram a obra e nós, com apenas seis meses, recebemos a obra, com 86 empregados, com  8 horas por dia, mais dez ou quinze dias, tínhamos 350 trabalhando em regime de 24 horas. Assim a obra foi entregue no prazo.

4).Esta construção preencheu os requisitos almejados?

Sim, porque estávamos com os Jogos Abertos marcados pelo meu antecessor na prefeitura, aqui em Araraquara e já não tínhamos outra forma porque o local era aquele e Araraquara não teria condições para receber os jogos sem o ginásio. Nosso trabalho foi intensificado e nós demos o possível, sendo o prédio entregue em 11 de outubro de 1969 e dali parti para o hospital, onde fiquei 21 dias internado, pois tive uma ameaça de infarto, causado pela fadiga e cansaço, porque nós (eu estava com o Roberto Massafera, Luís, Bruno e mais outros engenheiros) estávamos trabalhando em regime de 24 horas, então era às 2 horas da manhã, às 3 horas, enfim, sem horário a nossa tarefa. Tínhamos uma obrigação que era entregar o prédio para os Jogos Abertos e conseguimos cumprir.

5). O Sr. gostaria de novamente se candidatar a prefeito?

Nem quando eu fui prefeito, eu até acho graça na pergunta e acho também muito gostoso porque eu fui prefeito por 4 anos e até no momento que eu me decidi a ser candidato a prefeito, eu não sabia que eu seria candidato e nem convite eu tinha tido anteriormente, mas sim, naquela noite, porque minha família não estava (estavam viajando) eu recebi na minha casa- a campainha tocou, um grupo de amigos me convidando para uma reunião. Como tenho uma doença hereditária que me faz acordar várias vezes durante a noite, brinquei ao responder, marcando a reunião para as 23 h30 e em seguida protelei para as 2h30 ou 3 h da madrugada, porque me levanto mesmo… Acabei indo para a reunião, que era para me convidar para que eu despertasse a prefeitura de Araraquara e eu nunca sonhei em ser prefeito da minha terra natal. Naquele momento eu não sei se fui mandado ou tocado por uma força espiritual, um dom de Deus e sei que aceitei.  No dia seguinte eu comuniquei à minha família, disputamos as eleições, ganhamos e trabalhamos quatro anos e eu penso que estamos andando de cabeça erguida na cidade e vejo todos contentes com aquilo que nós fizemos.

6). Se fosse o atual prefeito, que medida tomaria com urgência?

 No momento as medidas urgentes seriam, em primeiro lugar, concluir as obras iniciadas, como foi na minha gestão. O Sr. Rômulo Lupo, deixou duas obras para se acabar: o Ginásio de Esportes e o Paço Municipal, do qual eu modifiquei o projeto, porque seria um prédio de condomínio e fizemos a prefeitura no lugar e terminamos. Toda e qualquer obra que apareceu em benefício da coletividade eu vejo uma necessidade maior e atualmente, uma precisão única, da Biblioteca Municipal, porque os gastos com livros são grandes, há uma equipe de funcionários e tudo isso vale muito e não está valendo tudo porque não temos o prédio adequado para o que está funcionando.

7). Quando começou sua carreira política?

Começou três meses antes de ser eleito em 1964, logo  após a ditadura, quando iniciou a democracia, eu fuji convidado para entrar na política, de forma que eu sai de um lado, entrei de outro, por fim aceitei em disputar uma cadeira de vereador no município de Tabatinga e nessa época morava em Nova Europa, fui e então fiquei 4 anos na política, trabalhando lá mesmo, para o Município. O mesmo fiz em Araraquara, trabalhando sempre. Mas não sou um político ferrenho, que leva a política a sério, mas quando a gente abraça a situação, procura dar conta.

8).Como ocorreu a mudança de planos em relação ao prédio que se construiria em lugar da prefeitura?

O Sr. Rômulo Lupo, então prefeito, pretendia fazer ali um prédio de 22 andares, que seria algo magnífico para a cidade, que embelezaria a cidade. Mas, a firma empreiteira que tomou a construção, parou a obra, quando os condôminos em certo momento, faltaram com os pagamentos. Parando a obra, tornou-se mais cara, chegando a tal ponto que não havia meios de que fosse em frente e acabou desistindo. Não havia meios para mudar a situação e, eu já estava na prefeitura, era preciso enfrentar uma disputa judicial e desapropriar os condôminos, como nós fizemos. Mas aconteceu o seguinte: nós ameaçávamos, vinha o condômino, a gente entrava na parte amigavelmente e  liquidava com eles; eu só sei que, se não me falha a memória, eu paguei de indenização para os condôminos, um valor de 550 a 650 mil e então partimos para a modificação do prédio, modificando o projeto, porque aí precisou de engenheiro projetista e então pedimos autorização para modificar a orientação do prédio, e o engenheiro deu (senão seria outra briga) e nós partimos para fazer a prefeitura e ficamos felizes porque o povo também ficou contente com a construção feita.

9).Houve alguma coisa que gostaria de ter realizado como prefeito, pela cidade?

Sim, a reforma do IEEBA, do outro grupo escolar da Vila Xavier, iniciar a Biblioteca, e dar um adianto bem melhor no Cemitério das Cruzes.

10). A que coisa se dedica agora, não sendo prefeito?

Mesmo como prefeito eu era Presidente da Empresa Cruz S.A. e como acionista que sou, continuo na diretoria, como diretor presidente . Minha atividade não falhou na época e a minha parte, que é de mecânica, ainda eu estou nela e na financeira também.

Nós estamos construindo uma garagem na saída da Rua 7 com o trevo, numa área de 100 mil m2. Separamos 25 mil m2 para a construção, que é grande como o Gigantão, não menos de 5 mil m2 cobertos que eu construí, só que a do Ginásio de Esportes era menos incessante por ser para o Município, para a cidade e a garagem é particular. Tem que se ter muito cuidado em administrar o dinheiro público e, quando particular, mais ainda.

11). o Sr. Já pensou ou desejou voltar a exercer alguma função política?

Não, não! Eu não intenciono, por exemplo, eu sou delegado do partido e faço parte do diretório da ARENA, aqui na cidade e de forma que constantemente eu sou visitado PR políticos: agora pouco eu recebi telefonema do nosso Senador Carvalho Pinto e do futuro Senador que vai para a eleição, Sr. Paulo Egydio Martins e outros políticos da alta esfera federal ou estadual, a gente tem tido contato e muito respeito. Eles também tem por nós o mesmo sentido, veem na nossa pessoa, honestidade, trabalho, de forma que a gente fica satisfeita, na parte política, o que eu almejo é isto.

12). O Sr. Se sente um homem realizado?

Ninguém se sente, porque toda pessoa que sente realizada é um fracassado, pois a vida não para, é uma máquina, uma rotina, uma engrenagem. A engrenagem quando começa a trepidar, é porque os dentes estão gastos, então , quando eu me sentir um homem realizado, é porque os anos já estarão bem avançados e o caixão de defunto já está bem perto de mim, de forma que eu preferia nunca me sentir realizado na vida, sempre trabalhando, lutando e fazendo mais.