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O militar que trouxe o Corpo de Bombeiros para a nossa cidade

Em 1965 a Prefeitura Municipal cobrava uma Taxa de Extinção de Incêndio e Salvamento sem contudo ter uma unidade do Corpo de Bombeiros. Ao assumir a Prefeitura, Rômulo Lupo decidiu reparar a situação, aproveitando a reestruturação da corporação em São Paulo e o empenho de um militar chamado Adalberto Lucatelli.

1938
Adalberto Lucatelli em dois momentos da sua vida: São Paulo e Araraquara

Conhecido antigamente como destacamento do Corpo de Bombeiros, pequena parte do CB centralizado na Capital, surgiu em Araraquara em 1951, porém foi às ruínas, por falta de equipe. Durante 15 anos a própria prefeitura buscou solucionar as situações menos perigosas, daí a cobrança de uma taxa que envolvia extinção de incêndio e salvamento, sem contudo ter qualificação técnica para dar cobertura a uma cidade de pouco mais de 48 mil habitantes. Lupo procurou tornar justa a cobrança. Na época o Corpo de Bombeiros em São Paulo buscava descentralizar suas ações.

Em meio a este processo surge o nome de Adalberto Lucatelli, formado na Força Pública (antiga Polícia Militar), em 1957. No ano seguinte, Lucatelli entrou para o Corpo de Bombeiros em São Paulo. Lá permaneceu durante muitos anos, até que em 1966, em uma ação da extinta Força Pública, as corporações dos Bombeiros foram divididas, ficando três companhias em São Paulo, formando o CCB (Comando Central dos Bombeiros), uma Companhia independente em Santos, comandando todo o litoral paulista e a de Campinas, que liderava todos os Destacamentos do interior.

Lucatelli (direita) em apuração da eleição de 1960, quando Jânio Quadro foi eleito Presidente do Brasil. As urnas eram levadas para os pavilhões do Parque Ibirapuera, na Capital, e protegidas pela antiga Força Pública do Estado de São Paulo. Os oficiais ficavam acampados por 20 dias, até a apuração de todos os votos, que eram feitos por cédulas na época, ser concluída. Os dois vestem roupas oficiais de passeio. A foto à direita mostra Lucatelli em reinamento na escada Magirus.

Ainda em 66, pela falta de uma equipe do bombeiro em Araraquara, o Comandante Geral em Campinas enviou Adalberto Lucatelli para a cidade. “O prefeito da época, Rômulo Lupo, quis reconstruir a corporação por aqui, por conta de uma taxa de extinção de incêndio e salvamento que era cobrado da população. Ele me disse que queria um Corpo de Bombeiros que funcionasse de fato, já que era cobrada a referida taxa”, explica Lucatelli.

Antes disso, tinha um CB em Araraquara, mas apenas no papel. “Havia um carro que era usado pelo CB aqui, mas como não tinha mecânica especializada, por ser importado, e muito menos equipe para usar, ele estava em cima de dois cavaletes, em estado deplorável. No fim, tivemos que descartá-lo”, revela.

À esquerda, Lucatelli e um amigo que se formara com ele, durante trabalho efetivo no Parque do Ibirapuera.

As dificuldades eram muitas para se instalar (novamente, mas do zero) uma unidade do CB. “No início, a corporação ficava no Centralizado da prefeitura, na Rua Nove de Julho, em meio aos caminhões de lixo e também aos carros oficiais do município. Precisávamos de um local adequado, que comportasse o material que tínhamos e por ser tudo importado, o cuidado devia ser redobrado. A mangueira usada tinha 15 metros e só podia secar na sombra, senão rachava. Além disso, éramos uma unidade 24 horas por dia, precisávamos de um espaço independente”, conta Lucatelli.

Em Araraquara com o time de Futsal do Corpo de Bombeiros: Sidnei de Oliveira Sena, Adalberto Lucatelli, Juraci Borges de Carvalho, Vanderlei dos Santos Silva e Júlio do Carmo Ramos

De acordo com ele, depois de algum tempo e conversas com o prefeito Rômulo, mudaram-se para um espaço improvisado na Rua São Bento. “Conseguimos alugar uma casa na Rua São Bento, próximo à Avenida 36, mas era improvisado, principalmente por conta dos materiais”.

Lucatelli explica como é ser parte da equipe. “Trabalhávamos em turnos de 24 horas e era necessário algo que distraísse a cabeça dos soldados, cabos, etc. Atividades físicas, televisores, não, deixar a pessoa parada, senão qualquer um enlouqueceria. A prefeitura na época nos forneceu tudo. Alguns anos depois, o ex-prefeito Lupo construiu o CB onde é atualmente, na Francisco Aranha do Amaral”.

HISTÓRIAS

Adalberto contou várias histórias durante a visita da RCIA em sua casa, tempos atrás. Dentre tantas, uma delas com certeza chamou atenção. “Certo dia em São Paulo, fomos chamados para combater um incêndio pavoroso – nome dado por conta do tamanho ou destruição das chamas – em uma fábrica de produtos químicos. Depois de apagar as chamas, entramos no barracão e, por ser durante a noite, pisávamos no chão de terra batido, onde havia empoçado muita água. Quando voltamos para a companhia, só tinha sobrado o elástico da meia. Algum produto químico corroeu todo o tecido. A sorte é que não fez nada no pé”, conta aos risos.

A MORTE DE CARLOS ALBERTO

Carlos Alberto, goleiro da Ferroviária que morreu afogado no Rio Mogi

Há 48 anos, outubro de 1971, a Ferroviária era tri-campeã do interior (Campeonato Paulista). Na ocasião, os jogadores foram comemorar a conquista em um pesqueiro às margens do Rio Mogi, em Araraquara. Um fato marcou muito, lembra Lucatelli. Em um incidente até hoje não explicado, o goleiro Carlos Alberto Alimari cai na água e, por não saber nadar, morre afogado. “Chegamos ao local e já havia muita gente. O time e o goleiro eram muito conhecidos. Passamos o resto do domingo, a segunda e a terça-feira procurando pelo corpo. Na madrugada de quarta, o sol nem tinha nascido ainda, três cabos e eu saímos de barco dando sequência a procura do corpo. Na quinta curva (na época, o Corpo de Bombeiros media o rio em curvas, o que daria aproximadamente 4 quilômetros do pesqueiro), encontramos Carlos Alberto enroscado pelas axilas em um galho. Amarramos ele pela cintura e levamos até onde estávamos acampados. Foi um fato que chamou a atenção de toda a imprensa nacional”, recorda Lucatelli.

Lucatelli com a esposa Olinda e a filha Vera em sua casa

Adalberto Lucatelli, junto da equipe formada por Sidnei de Oliveira Sena, Juraci Borges de Carvalho, Vanderlei dos Santos Silva e Júlio do Carmo Ramos, dentre tantos outros soldados, cabos, sargentos e comandantes que passaram pelo Corpo de Bombeiros de, profissão tão prestigiada pelo povo araraquarense, são homenageados por toda a equipe da Revista Comércio, Indústria e Agronegócio, além do RCIARARAQUARA.