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Paulista era o galo que cantava, imponente e todo poderoso

A história do Paulista narrada pelas famílias Bersanetti, Da Valle, Arruda Camargo, Alonso Martinez a Souza e Silva, e tantas outras importantes da comunidade. A vida do Paulista Futebol Clube é uma só: de amor à camisa, fidelidade aos seus princípios e de glórias no campo de luta.

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Em pé: Carioca, Duda, Adérico, Nengo, Robertão, Camilo e Nelson Agachados: Armando, Bicudo, Zequinha (goleiro), Clarim e Ministrinho

Foi assim a existência do Paulista por mais de 70 anos. O que se mantém acesa é essa chama de esperança de que algum dia poderá voltar. Sonho que da mesma forma acalenta a ADA que o sucedeu. O clube nascido em 1930 possuía um invejável time de futebol, de onde saiu Maurinho, que jogou pela seleção brasileira na Copa do Mundo de 1954, na Suíça.

ESTÁ EM CAMPO O GALO

“Da fusão realizada nos clubes Gaúcho e 24 de Outubro de nossa cidade, é que resultou numa continuação feliz, a organização do selecionado Paulista Futebol Clube, cuja diretoria eleita em assembleia, na sede do Centro Hespanhol há poucos dias, foi constituída tendo Felix Lopes de Castro como seu primeiro presidente”.

Através de uma nota publicada no jornal O Diário, em dezembro de 1930, Araraquara tomou conhecimento que estava oficializado o nascimento de um dos times pioneiros no futebol da cidade. A nota deixava de contar a importância que a família Bersanetti teve no esporte amador e com os heróis da Revolução de 32. O time chamado de Paulista foi precursor do nascimento da Associação Desportiva Araraquara (ADA), até a chegada da Associação Ferroviária de Esportes. De tudo isso o Paulista fez parte.

Carlos Bersanetti, fundador e primeiro
presidente do Paulista. A família deu continuidade ao seu trabalho

Fundado em 3 de dezembro de 1930, o “Galo” realizou no dia 28 seu primeiro jogo diante do Ruy Barbosa Futebol Clube, de São Carlos. A histórica peleja (*) no Estádio Municipal terminou em 2×2, tendo Lolo, atacante do Paulista, como destaque com dois gols. O Paulista jogou com Tucci, Monte e Cocodé; Branco, Armando e Romeu; Bonucci, Carioca, Dictinho, Júlio e Lolo Arena. Muitos desses atletas vieram da extinta Associação Atlética Araraquara, com o objetivo de representar Araraquara no Estado de São Paulo.

O tricolor (branco, vermelho e preto) tinha uma rotina de treinos quase como time profissional no Estádio Municipal as terças, quintas e sextas-feiras, pois a diretoria preocupava-se em acertar amistosos com equipes fortes, buscando notoriedade na cidade e região. Assim, em 1931, surge a primeira diretoria do Paulista, formada por Félix Lopes de Castro (presidente honorário), Carlos Bersanetti (presidente), José Gomes Nunes (vice), Joaquim S. Marques (1º secretário), Quirino Queiroz (2º secretário), Manoel Joaquim Pacheco (1º tesoureiro), Luiz Soller (2º tesoureiro), Triphônio Guimarães (orador), Antônio de Checci (1º diretor esportivo) e Orlando Cunha Monte (2º diretor esportivo).

O primeiro time do Paulista, no amistoso realizado contra o Ruy Barbosa, de São Carlos, em 28 de dezembro de 1931: Em pé: Bento Cemitério, Carioca, Baid, Turquesa, Gouvêa, Lolo Arena e Tucci. Agachados: Freitas, Monte, Armandinho, Romeu Cefaly e Cocodé. Deitado: Alfredo Tucci (goleiro)

Isso fez com que os amantes do futebol na cidade reacendessem velhas paixões pelo futebol e a rivalidade acirrada com a criação de outros times, dispostos a enfrentar o Paulista, como aconteceu em 1º de fevereiro de 1931, quando o Paulista jogou com o Sul América da Vila Xavier, vencendo por 2×0, gols de Nico e Lolo.

Com o Paulista em alta, outras facções do futebol local foram se encorajando para constituir novas equipes com o objetivo de desafiar o tricolor. Uma antiga agremiação, inativa há alguns anos, ressurgiria para testar a força do time do “seo” Bersanetti – o Palestra Itália.

1931. Laerte foi considerado por seus gols, o ídolo do Paulista e um dos responsáveis pela transformação do Galo no time mais popular da cidade, segundo a pesquisa feita na barraca de festa da União Syria; na foto ao lado, Maurinho, na seleção brasileira em 1954, disputando o Mundial na Suíça

A SORTE DE UM LADO SÓ

A União Syria de Araraquara mantinha em frente à Praça da Matriz um dos poucos salões sociais da cidade. E foi lá, em 1931, que aconteceu uma pesquisa para se apurar qual era o clube mais popular em Araraquara. O Paulista teve mais de 250 votos. Três anos depois também na União Syria, era fundada a Associação Comercial e Industrial de Araraquara.

O Paulista já nos anos 40, foi se tornando no celeiro de craques que abasteceria a futura Ferroviária; em pé: Monte, Madalena, Cascão, Humaitá, Tiana e Rafael. Agachados: Souza, Lexe, Elvo, Zeferino e Milton

Em 13 de dezembro de 1931, a cidade com pouco mais de 20 mil habitantes fervilhava graças ao futebol amador. Era no centro velho que se formavam as “rodinhas” e nelas a conversa tinha um foco: a fundação do Paulista Futebol Clube.

No final de setembro, o comerciante Henrique Lupo, que mantinha uma relojoaria nas proximidades da Santa Cruz, garantia que se fosse organizado um Campeonato Amador e ele daria o troféu. Seria oficialmente a disputa do primeiro torneio realizado pela Federação Esportiva de Araraquara, contando com quatro equipes: Paulista, Palestra Itália, Brasil e Usina Tamoio. Henrique Lupo apressou-se em encomendar o troféu em São Paulo, visando homenagear o irmão João.

Bentão, Batata, Décio, Bulair, Nicão, Kardec, Tadeu, Eca_ Salame, Lelei, Lito, Dudu e Caximbo, uma das formações históricas

Na partida inaugural disputada entre Palestra e Brasil, ocorreu uma peculiaridade. Foi necessária a troca de árbitro por duas vezes, ou seja, três juízes apitaram o mesmo jogo diante dos ânimos exaltados. A partida terminou empatada em 1×1.

Chegava então a vez do Paulista estrear diante do Tamoio no dia 20 de dezembro. Com uma sonora goleada de 10×1, gols marcados por Laerte (6), Fibiela (3) e Lolo, o tricolor precisava de um empate para se garantir na decisão do torneio da cidade. No dia 30 de dezembro, a barraca da União Syria (festa realizada na cidade), organizou um concurso popular para saber qual era o clube mais simpático de Araraquara. O Paulista ganhou com 284 votos. O carinho que o time recebia era inimaginável.

Chegou o dia do derby entre Paulista e Palestra Itália, a quarta partida do torneio. O Paulista conseguiu o empate que precisava para chegar à decisão: 1×1. O gol saiu dos pés de Laerte. Já Abílio fez para a equipe alviverde. O Galo, como passou a ser chamado, jogou com Tucci, Monte e Cocodé; Armando, Ramona e Zico; Lolo, Adérico, Fibiela, Laerte e Gouveia.

No dia 17 de janeiro de 1932, Paulista e Brasil decidiram o campeonato. Com dois gols de Laerte, o grande nome da equipe na competição com 9 gols, o Paulista conquistava o primeiro título de sua história e da cidade, levantando a “Taça João Lupo”, que por quase um mês ficou exposta na loja do comerciante Henrique para mostrar que a promessa fora cumprida.

Eca, Orídio, Preta, Ibaté, Dinho, Begão, Má, Bentão e Lelei, Desastre, Nino, Dudu e Tonhé

MAURINHO, DO PAULISTA PARA A SELEÇÃO BRASILEIRA

6 de julho de 1933 nascia, em Araraquara, Mauro Raphael, o Maurinho, que quando ainda cursava a escola primária, já esbanjava habilidade com a bola no pé. Não deu outra. Pequenino e rápido, começou sua carreira no Paulistinha, infantil do Paulista, em 1948, com 15 anos de idade. Chamando atenção de dirigentes, foi integrado ao elenco principal no mesmo ano e disputou sua primeira partida contra o Amparo (SP), no Estádio Municipal. O tricolor venceu por 5×3, com Maurinho substituindo o ponta-esquerda Ivan.

Mas, a principal partida de Maurinho com a camisa do Paulista seria em 23 de julho de 1950, diante do Palmeiras, de Oberdan Cattani (falecido em 20 de junho de 2015), no Estádio Municipal. Todos acreditavam que o Palmeiras venceria facilmente. Mas não foi da maneira que se imaginava.

O goleiro era Nelson Mariottini, fundador da Lotérica A Favorita, uma das pioneiras em Araraquara

O Palmeiras venceu por 5×3 e Maurinho, com 17 anos, fêz os três gols do tricolor. Os dirigentes do alviverde ficaram interessados em seu futebol rápido e alegre, porém, por ser menor de idade, o Palmeiras desistiu de levá-lo para São Paulo. No final de 1950, o Guarani de Campinas, que acabara de subir para a divisão especial do Campeonato Paulista, acertou a sua contratação.

MAURINHO, A PRIMEIRA REVELAÇÃO

Os personagens: Maurinho era ainda um garoto de 16 para 17 anos e vivia para sua Araraquara. Amadeu Ceregatti, diretor e “olheiro” do Guarani, viajava muito na época pelo interior de São Paulo vendendo a cerveja “Mossoró, produzida em Campinas. Como homem de vendas bem sucedido, Amadeu era elegante e sempre ia aos engraxates para deixar impecável seus sapatos.

Certo dia em Araraquara, “papeando” com os engraxates no Salão d’Onofre (Hotel Municipal) e falando de futebol, foi alertado que um deles era “bom de bola”; e foi então que resolveu assistir um jogo de fim de semana na cidade, e deslumbrado com o garoto Maurinho, o levou para Campinas, ficando ele hospedado na casa da família de Amadeu que cobriu os gastos.

Via de regra os jogos do Paulista eram realizados no Estádio Municipal

Maurinho sentia falta de seus familiares e amigos. Nos treinamentos no campo velho do Guarani na Rua Barão Geraldo de Rezende, “o Pastinho”, havia momentos em que China, o centro avante que viera do São Paulo para se consagrar no Guarani, gritava com Maurinho que chegava a chorar, sendo consolado por Otto Vieira, técnico naquela época. Logo Maurinho se tornou titular e nunca mais deixou o time.

Certa vez, no Pacaembu, jogavam às 11 horas da manhã Corinthians 0 x Guarani 1, gol do avante Romeu. Após o jogo um torcedor do Corinthians falou: “Eu vim aqui para ver este ponta-esquerda jogar”. Realmente Maurinho foi um sucesso e a primeira revelação do Guarani para o futebol brasileiro acabou sendo vendido ao São Paulo.

No São Paulo, Maurinho – jogador bi-destro foi para a ponta direita porque Canhoteiro era absoluto na ponta esquerda. Daí pra frente, Maurinho brilhou com a camisa do São Paulo: em 7 anos entrou em campo 347 vezes e marcou 136 gols, o nono maior artilheiro da história do clube. Ganhou os títulos paulistas de 1953 e 57.

Neste último, na final contra o Corinthians, ele marcou o terceiro gol na vitória de 3 a 1. No lance, antes de chutar a bola, perguntou ao goleiro adversário Gilmar dos Santos Neves, em qual canto queria o drible: deu uma finta desconcertante e fez um golaço.

Time formado nos anos 40 para disputas do Campeonato Amador da cidade

Consolidado no futebol, Maurinho chegou à seleção brasileira disputando a Copa do Mundo de 1954, na Suíça, se tornando o primeiro jogador da cidade a participar do torneio. Ele jogou contra a Hungria, episódio que ficou conhecido como a “Batalha de Berna”. Os húngaros eliminaram a seleção nas quartas de final por 4×2. Maurinho disputou 14 jogos pela seleção e marcou 4 gols.

Depois do São Paulo, Maurinho foi contratado pelo Fluminense, onde seguiu brilhando e conquistou o Campeonato Carioca de 1959. Após três anos nas Laranjeiras, de 1958 a 1961, Maurinho se transferiu para o Boca Juniors. Lá, ajudou o time mais popular da Argentina a ser campeão em 1962. Voltou ao Brasil em 1964, teve uma rápida passagem pelo Vasco da Gama e encerrou a carreira no Fluminense. Maurinho tinha apenas 31 anos quando pendurou as chuteiras. Ele faleceu em São Paulo em 28 de junho de 1995.

A INFLUÊNCIA DA FAMÍLIA BERSANETTI

Dona Tita com os filhos Lelei e Mirandinha, na festa de formatura (Direito, em 1977); ao lado, Wilson Carlos Albino, o Mirandinha

A Família Bersanetti ainda hoje tem o Paulista como peça de família. Carlos foi um dos fundadores e mesmo acometido da cegueira, ia ao Estádio Municipal acompanhar os jogos do time nos anos 40.

Todo grande clube tem o seu apaixonado, aquele que é devoto e que quer o melhor para ele. Este foi Carlos Bersanetti o primeiro presidente do Paulista Futebol Clube, homem dedicado e que transmitia aos seus descendentes todo o amor que dispensava ao tricolor.

Proprietário na época de um armazém de secos e molhados, na Av. Sete de Setembro com a Rua Humaitá, acomodava pessoas da zona rural, além de ser o ponto de encontro dos jogadores. “Seo” Carlos auxiliava economicamente a equipe de futebol, juntamente com os doutores Octávio de Arruda Camargo e Antônio Alonso Martinez. Nas décadas de 30 e 40, o Paulista reinava absoluto em Araraquara.

Porém, algo acontece na vida de seu presidente. Em 1941, Carlos Bersanetti é acometido por uma cegueira repentina. Poderia ser o fim da linha para o pai acompanhar o filho (Paulista FC) nos jogos. Poderia se não fosse sua adorável filha, Rosa Bersanetti, a Tita.

“Mesmo com o meu avô cego, minha mãe Tita o levava em todos os jogos do Paulista no Estádio Municipal. Eles chegavam e já havia um espaço reservado atrás do gol de entrada para que pudessem acompanhar o jogo. Minha mãe era uma espécie de rádio para ele. Narrava os lances que aconteciam no campo e, dependendo de como estava o jogo, meu avô aplaudia ou xingava os jogadores (risos)”, conta Wilson Carlos Albino, o Mirandinha, filho de Rosa e ex-conselheiro do clube.

Na montagem feita pelo Foto Tucci em 1938, temos Orlando Da Valle (antigo FQF que existiu até 1970), junto com outros campeões do futebol amador daquele ano. Também aparece o Carioca, diretor esportivo do clube mais querido da cidade

Rosa casou-se com Waldemar Albino, o Ministrinho, que na época jogava pelo Paulista. Além de Wilson, criou os filhos Wanderley e Wladimir. Sua paixão pelo Paulista sempre foi muito grande e os seus quatro filhos homens foram jogadores do Paulista: Ninin, Heitor (Bicudo), Dindão e Desastre.

“De todos os familiares, minha mãe teve papel importantíssimo, pois era os olhos do meu avô. Ela é quem bordava os distintivos nas camisas do Paulista e posteriormente da ADA, tanto que sempre foi considerada a “madrinha” do Paulista e também da ADA”.

E de toda a história, a Família Bersanetti lembra bem: o clube participou em cinco ocasiões das divisões de acesso do Campeonato Paulista, entre os anos de 1948 e 1954, ausentando-se nos anos de 1952 e 1953.

Lelei, filho de Tita e Ministrinho, junto com Dinho, filho de Ninim, e Desastre, filho de
Carlos Bersanetti; no lado direito, Omar de Souza e Silva foi vereador e presidente da Câmara Municipal em nossa cidade, presidente e um dos principais dirigentes do Paulista, durante décadas, depois do Dr. Antônio Alonso Martinez

Era considerado o Galo da Cidade pelos campeonatos consecutivos conquistados no Amador de 1930 a 1944, e também foi possuidor de um grande patrimônio, conforme consta no livro nº 59,  folhas 33 e 35 no Registro de Imóveis de Araraquara: área de 183m de frente por 145m de fundo (quase 27mil m², a Chácara do Paulista, dividida posteriormente entre 34 associados que mantinham o título patrimonial).

Sendo a primeira equipe profissional da cidade, o Paulista teve anos de glória, protagonizando alguns dos maiores jogos nos anos 40 e 50. Com o surgimento da Ferroviária e ADA, o Paulista acabou ficando em terceiro plano, entrando em decadência.