
“Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber… Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?” (Mateus 25:35-37)
É sabido que os Estados Unidos são o país com o maior Produto Interno Bruto (PIB) do planeta Terra, alcançando cerca de US$ 32 trilhões (aproximadamente R$ 174 trilhões na conversão atual). O PIB representa a soma de todos os bens e serviços finais produzidos em uma nação. Ele abrange desde a venda de veículos ao consumidor final até consultas médicas, mensalidades escolares e a produção agrícola destinada à exportação — refletindo, em suma, o volume de riquezas gerado pelos setores de Serviços, Indústria e Agropecuária.
Além disso, o país figura entre os maiores produtores globais de grãos e carnes (como milho, soja, trigo, carne bovina e de aves), além de ser líder isolado na fabricação de aeronaves comerciais e militares, mísseis, veículos blindados, submarinos nucleares e tecnologia espacial. É também um dos maiores produtores e refinadores de gasolina, diesel, combustível de aviação e produtos petroquímicos. Considerando esse PIB equivalente a R$ 174 trilhões e uma população de aproximadamente 342 milhões de habitantes, chega-se a uma renda per capita média expressiva: cerca de R$ 509 mil por ano, o que corresponderia a mais de R$ 42.000,00 por mês por habitante.
Analisando esse cenário de abundância, torna-se difícil aceitar que uma das maiores potências produtoras de alimentos do mundo não consiga alimentar adequadamente milhões de suas próprias famílias. Muitos cidadãos não têm acesso a refeições em quantidade e qualidade suficientes para manter uma vida saudável — por vezes almoçam, mas pulam o café da manhã ou o jantar, ou dependem exclusivamente de alimentos de baixo valor nutricional. A insegurança alimentar grave se caracteriza exatamente assim, afetando cerca de 7,1 milhões de lares onde seres humanos passam fome por pura falta de recursos financeiros.
Diferentemente de regiões onde a fome decorre primariamente de secas severas ou colapsos na produção agrícola, como no Brasil, nos Estados Unidos a vulnerabilidade alimentar é um problema de acesso econômico. A população de baixa renda não consegue se alimentar adequadamente porque precisa priorizar o pagamento de aluguéis, despesas com saúde, transporte e vestuário, ficando sem margem no orçamento para a compra de comida.
Outro fator alarmante é a existência dos chamados “desertos alimentares” (food deserts) — áreas urbanas periféricas ou zonas rurais isoladas onde não existem supermercados ou feiras livres em um raio acessível. Nesses locais, os moradores ficam reféns de lojas de conveniência e redes de fast-food, que vendem produtos ultraprocessados e pobres em nutrientes essenciais. Estamos falando do país mais rico do mundo, onde cerca de 751 mil crianças vivem em moradias nas quais a quantidade de comida é frequentemente reduzida ou simplesmente inexistente. O que causa profunda reflexão é saber que a maioria da população americana se identifica como cristã, mas a sociedade como um todo falha em praticar os ensinamentos de Jesus Cristo no que tange ao combate à fome, seja internamente ou no restante do planeta. Somente no primeiro mandato do presidente Donald Trump (2017 a 2021), os gastos do governo com operações de guerra e contingências no exterior somaram cerca de US$ 280 bilhões — o equivalente a mais de R$ 1,5 trilhão. É um volume gigantesco de recursos públicos que, se redirecionado para a assistência social e nutricional, seria suficiente para garantir dezenas de bilhões de refeições, colocando em prática o princípio de compaixão descrito em Mateus 25:35-37, citado no início deste artigo.
(*) Walter Miranda, Auditor Fiscal da Receita Federal, aposentado, mestre em Ciências Contábeis pela PUC/SP, pós-graduado em Gestão Pública pela UNESP/Araraquara, militante da CSP CONLUTAS-Central Sindical e Popular e do PSTU-Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados
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