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Chega de matar os pretos e pobres no Brasil

Por Walter Miranda

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Militei no MNU-Movimento Negro Unificado nos anos de 1986 a 1990, convidado por um dos seus principais fundadores, o meu amigo Milton Barbosa, popularmente conhecido como Miltão, pelo avantajado tamanho e porte físico. O MNU foi fundado no dia 18 de junho de 1978, para denunciar e combater o racismo e a discriminação racial, assassinatos e violência policial no município de São Paulo, e em todo país, tendo a população negra e pobre como as principais vítimas.

Em menos de um mês da maior chacina de jovens pobres e pretos da história do Rio de Janeiro, que foi o assassinato na Favela do Jacarezinho, a jovem preta Kathlen Romeu, de apenas 24 anos, que estava grávida de apenas 14 semanas, foi vítima de um tiro de fuzil enquanto caminhava com a sua avó na comunidade de Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Não foi um caso isolado porque, de acordo com o Instituto Fogo Cruzado, a Kathlen foi a oitava gestante morta na região metropolitana do Rio de Janeiro no ano de 2020.

A população que mora nas periferias das grandes cidades em todo país, a maioria integrada por negros, sofrem com a escassez de equipamentos públicos de saúde, e a falta a vacinas para todos. Enfrentam os reflexos da crise econômica brasileira, se aglomeram em transportes públicos de baixa qualidade com tarifas altas, falta de água tratada e encanada, e saneamento básico. Não bastando tudo isso, no Rio de Janeiro os moradores têm sido vítimas de tiroteios violentos vindos da Polícia Militar, da milícia,  e do crime organizado.

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indica que em 2019 a PM do Rio de Janeiro matou 1.814 pessoas em operações policiais, sendo que 84% eram negras. No mesmo ano, no Ceará, o percentual de negros mortos pela PM alcançou 87%, e no Estado de São Paulo alcançou 63%. A nível nacional o Fórum informou que 74% dos homicídios no Brasil tiveram como vítimas pessoas pobres e pretas, sendo que 79% das pessoas mortas pela PM também eram pretas.

A criminosa morte da jovem Kathlen, bem como a chacina na operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro, no Jacarezinho, a operação mais letal da história do Rio, com 29 mortos, se somou às 944 mortes em ações policiais, desde quando o Supremo Tribunal Federal, após a morte do menino João Pedro com apenas 14 anos, restringiu operações policiais em comunidades no Rio de Janeiro.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) informam que, somente nos três primeiros meses deste ano de 2021, o número de mortos por policiais no Rio de Janeiro  foi maior do que no mesmo período no ano de 2020. Foram 151 em 2021, contra 145 em 2020. Está evidente que este crescimento de mortes tem a ver com os desgovernos do Estado.

O então governador corrupto Wilson Witzel, destituído por improbidade administrativa, já em campanha política dizia que ia exterminar o crime organizado no Rio de Janeiro “atirando bem na cabecinha” dos supostos bandidos. Logicamente aprendeu a tática eleitoral com o então candidato ao governo do Estado de São Paulo, Paulo Maluf, que dizia que ia equipar a Rota da PM para matar bandidos. Na verdade, o bandido e corrupto foi o próprio Wilson Witzel.

Ainda analisando os dados do Instituto de Segurança Pública, é possível ressaltar que, no período de junho a setembro de 2020, quando as operações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro foram restringidas pelo STF, o número de mortes violentas em decorrência de operações policiais teve uma queda radical de 195 mortes para 52.

Não se trata aqui, de defender o crime organizado e os envolvidos nele. Diante dos números apresentados, está evidente o excesso de violência cometida pela Polícia Militar contra pobres e pretos em todo país, demonstrando o efeito da discriminação e do racismo estrutural no meio policial. A consigna “preto parado é suspeito, e correndo é bandido”, infelizmente ainda está na subconsciência da população, e na cabeça de boa parte dos policiais.

Diante de tanta violência contra a população afrodescendente, o MNU-Movimento Negro Unificado tem se manifestado em todo país protestando e dizendo: Vidas negra importam! Chega de matar os pretos e pobres no Brasil!

(*) Walter Miranda é presidente do Sindifisco-Nacional/Delegacia Sindical de Araraquara, diretor do SINSPREV-Sindicato dos Trabalhadores nos Serviços Públicos de Saúde, Previdência e Assistência Social do Estado de São Paulo, e militante da CSP Conlutas – Central Sindical e Popular.

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