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O outro lado da Corrida de Santo Onofre

Por Ivan Roberto Peroni

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Da Corrida de Santo Onofre, pelo menos da primeira e segunda, particularmente lembro com carinho. Afinal, se passaram 40 anos e muita coisa mudou, ou tudo mudou. Já não temos mais as figuras emblemáticas que eram os frequentadores do Bar do Zinho, na Rua 01, onde o pessoal se encontrava religiosamente todos os dias para os aperitivos, a maioria, gente que participava do Estrela Futebol Clube, time de futebol extremamente querido na cidade.

Eram eles, diretores, jogadores e simpatizantes do Estrela que faziam a alegria de Daniel Marcos Rodrigues, o Zinho, 1,90m de altura e que embora sendo de estatura avantajada se fazia menor dentro do mundo igualitário que ele mesmo criou para que professores, advogados, dentistas e até jornalistas se mantivessem no mesmo nível de conversas com os outros servos de Santo Onofre.

Zinho se enchia de orgulho e emoção. Estava ali a nata de pessoas queridas dentro de uma cidade emergente no finalzinho dos anos 70, pronta para dar um salto em outra década. Fructuoso Patrício de Almeida Santos, Patema, Coletti, Nilson que trabalhava no Banespa, Colininho, Faixa, o doutor Elcio Marcantônio, o vereador Flávio Ferraz de Carvalho e tantos outros que faziam Araraquara acontecer ali. Aos sabádos, domingos e feriados eram tantos os amigos que se tornava impossível conversar dentro do bar.

Ali eram eleitos fatalmente prefeito, vereador e até presidente de ‘clube de mãe’, contava Zinho a nós jornalistas em meio a tanto barulho. Zé Conde, Rubinho Volpe e eu por algum tempo vivemos esse modismo, pois com o tempo cada qual apanha um novo caminho.

Foi neste clima esportivo e tom alto de voz e disputa que surgiria a Corrida de Santo Onofre que agora – em nova virada de década – completa 40 anos. Entre conversas do tipo – eu corro mais que você, te dou dois quarteirões de lambuja, vou chamar o Pinguim (guincho) pra te levantar do chão – nascia a Corrida de Santo Onofre, por gratidão ao protetor dos ‘bebuns’.

A sugestão imediata de Santo Onofre veio por conta de alguém que já tinha decor e salteada a oração e a todos foi apresentada como convite ao reino dos bons:

“Ó Santo Onofre, que pela fé, penitência e força de vontade vencestes o vício do álcool, concedei-me a força e a graça de resistir à tentação da bebida. Livrai do vício, que é uma verdadeira doença, também os meus familiares e os meus amigos.

Abençoai os alcoólicos anônimos para que conservem firme o seu propósito de viver afastados da bebida e de ajudar os seus semelhantes a fazer o mesmo.

— Virgem Maria, mãe compassiva dos pecadores, socorrei-nos!

— Santo Onofre, rogai por nós. Amém.”

A bem da verdade, comentou mais tarde o Zinho em nome do estabelecimento: “Não gostei do nome da corrida e muito menos da oração… querem acabar comigo”

A primeira corrida foi então neste cenário em pelo menos 500 metros, o suficiente para criar expectativa ao ano de 1980, quando algumas alterações aconteceram. O trajeto por exemplo foi ampliado: largada em frente ao bar, subida até o Jardim Primavera, dobrando-se a direita na rua do Corpo de Bombeiros e novamente descendo a Rua 01 até a chegada no próprio Bar do Zinho.

Deste roteiro alguns fugiam, cortando caminho, mas logo eram desclassificados pois chegavam bem antes; outros abandonavam e apareciam mais tarde. Outros, envergonhados iam direto pra casa. Eu tive a minha experiência correndo na Santo Onofre ao lado de Jorge Hitsasuga, o japonês representante da colônia nipônica e tendo como treinador o ex-jogador do Palmeiras e Ferroviária, Paulinho Camargo, hoje residindo em Piracicaba. “Vocês correm sempre no bolo, não abandonem o bolo, pra deslanchar nos últimos 100 metros”. Até hoje o japonês e eu estamos procurando o bolo, pra ser mais sincero…

A alegria de todos contudo estava na descida da Rua 1 (Gonçalves Dias) pois passando pela casa do engenheiro Wilson Léo, ele com a mangueira, a esposa Célia (já falecida), o advogado Zé Geraldo Velocce com baldes jogavam água nos atletas. Tudo era muito divertido em um tempo que não volta mais.

Assim se comemorava a chegada de um novo ano por graça de Santo Onofre e do amigo Zinho que partiu em julho deste ano deixando seu nome imortalizado na lembrança do nosso povo e de um santo tão protetor.

*Ivan Roberto Peroni, jornalista e membro da ABI (Associação Brasileira de Imprensa)

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