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Coronavírus: Rodovias Anhanguera e Washington Luis, a rota do nosso medo

Estudo da Unesp divulgado em março já alertava os municípios para a necessidade de regras rigorosas de isolamento; a lista incluía então a capital, Campinas e Santos. Mas, Araraquara aparecia entre as 13 consideradas de risco para a propagação.

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Estudo da Unesp publicado quatro meses atrás mostrava as rodovias como o caminho para atingir cidades margeadas como Campinas, Rio Claro, São Carlos, Araraquara e São José do Rio Preto

Quatro meses atrás pelo menos 13 cidades paulistas eram consideradas centros de maior risco para a propagação do coronavírus pelo interior do estado. O estudo tinha acabado de ser feito pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). O levantamento indicava a necessidade de medidas mais rígidas de isolamento nesses locais pois eram rotas de passagem por rodovias que cortavam praticamente o Estado de São Paulo, tendo como ponto de partida a capital.

A análise, feita por pesquisadores que integram o Centro de Contingenciamento do Coronavírus no estado, foi uma das que embasou a decisão do governador João Doria (PSDB) de ampliar em mais 15 dias na época a quarentena em todos os 645 municípios de São Paulo.

Para isso, o levantamento levou em conta não apenas o número de casos confirmados de Covid 19 mas também os suspeitos, o número de internações por síndrome respiratória grave e a importância regional dos municípios.

“A análise de tendência precisa considerar os dados objetivos, que são os casos confirmados e a influência regional. Mas também informações que nos dão outras pistas já que sabemos existir uma demora na confirmação”, disse o professor Raul Guimarães, que coordena o Laboratório de Geografia da Saúde na Unesp. A declaração de Guimarães chegou a ser publicada pelo RCIA no começo da pandemia em solo paulista.

Araraquara servida pela Washington Luiz atingida por mais de mil casos da doença

Havia o apontamento de que além de São Paulo, os municípios considerados de maior risco para a propagação seriam: Araçatuba, Araraquara, Bauru, Campinas, Marília, Piracicaba, Santos, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Sorocaba e Votuporanga.

Entre as 13 cidades identificadas pelo estudo estavam, por exemplo, municípios com número pequeno de casos confirmados. Era o caso de Votuporanga, encostada com São José do Rio Preto, que na oportunidade, tinha apenas três confirmações de Covid-19. No entanto, eram municípios considerados de alto risco de dispersão pela influência regional que exerce no noroeste do estado, além da identificação de outros dados que indicam a possibilidade de subnotificação.

Meses depois as cidades juntas somam quase 5 mil casos para Covid-19 e são cerca de 150 mortes causadas pela doença. “Existe uma difusão hierárquica do vírus, indo de cidades maiores para menores. Não adianta olhar só para o tamanho da população, mas também a influência econômica e social das cidades na região em que estão”, explicou Guimarães. Por isso, há a necessidade de isolamento em todo em estado, já que a mobilidade entre os municípios é intensa.

AS RODOVIAS

Estudo publicado no começo da primeira quarentena decretada pelo governo do Estado

O estudo também identificava rotas de dispersão do vírus, que se concentram especialmente entre as cidades na extensão das rodovias Anhanguera e Presidente Dutra. Nessas regiões de maior circulação, mesmo municípios menores estão mais vulneráveis ao aumento da dispersão do vírus.

“Quem está mais próximo da borda de influência da macrometrópole de São Paulo fica mais suscetível. Por isso temos situações como a de Rio Claro, um município muito pequeno com um caso já confirmado, enquanto Presidente Prudente, mais afastado, está sem nenhum (considerando os dados da Secretaria Estadual de Saúde até segunda)”. Por estar mais próxima da capital, Rio Claro foi atingida em maior escala por estar num entroncamento perigoso da Anhanguera e Washington Luiz, com a primeira indo em direção a Ribeirão Preto e a outra vindo em direção a Araraquara para seguir até São José do Rio Preto. A Washington Luiz corta o meio do Estado de São Paulo, partindo do entroncamento rodoviário com a Anhanguera.

Os pesquisadores, com base nestes estudos diziam que o sucesso das ações de bloqueio do avanço do vírus especialmente nesses 13 municípios entre os quais está Araraquara é que poderia garantir a proteção de cidades menores, em que a população é muito mais vulnerável ao coronavírus.

“A chegada da Covid-19 em municípios rurais e pequenos pode ser ainda mais dramática do que nos grandes centros. Nesses locais, a população é majoritariamente de idosos, e a rede hospitalar é muito menor”, comentava o infectologista Carlos Fortaleza, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp.

Os pesquisadores afirmam que o estudo reforça a importância do isolamento em todo o estado, com regras mais rígidas para as 13 cidades destacadas, mas sem afrouxar a quarentena nas demais. “É mais um indicativo de onde reforçar os recursos para garantir o isolamento. Por exemplo, se eu tenho que direcionar policiais para orientar a população e coibir a aglomeração, é mais eficaz concentrá-los nas cidades polo”. Na verdade, isso não aconteceu: Araraquara (37%), Presidente Prudente (37%), Araçatuba (39%) são exemplos de descuidos com o isolamento social e outros municípios ao sentirem esta necessidade aplicaram regras mais pesadas para fuga do coronavírus. Ainda agora elas apresentam taxa de isolamento que não agrada: São José do Rio Preto (42%), Rio Claro (42%), Ribeirão Preto (44%), Santos (43%) e Campinas (45%).

Isso mostra que as grandes rodovias que têm como ponto de partida a capital – a mais atingida no início da pandemia – serviram de escoamento para a pandemia no sentido interior com focos maiores em trechos de 100/150 quilômetros, por exemplo: São Paulo, Campinas, Rio Claro, Araraquara e São José do Rio Preto, margeadas neste caso por Anhanguera, Bandeirantes e Washington Luiz que atravessam o Estado de São Paulo.