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Atenção, Araraquara: Os Intocáveis estão no palco!

Os Intocáveis foi um dos primeiros grupos de baile de Araraquara, que chamou atenção entre os anos de 1964 e 1967 por sua formação de instrumentos de sopro (metais).  Quem nos conta essa história, que está interligada ao The Jungles (banda da mesma época), é o fundador Sabaúna e seu companheiro de palco, Celso Aparecido dos Santos.

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Meninos mostram, com orgulho, seus equipamentos em show no asilo: Percy, Celso, Bila, Sabaúna, Carlinhos, Getúlio e Tony Pent; a arma de plástico é alusão ao seriado americano de mesmo nome, pendurada no amplificador, foi ideia de Celso para a abertura do show

Por Matheus Vieira

Qual seria o verdadeiro significado da marca Os Intocáveis? Simplesmente, um seriado de televisão americano exibido de 1959 a 1963 na TV Tupi e baseado no livro de Eliot Ness  e Oscar Fraley, Os Intocáveis mostrava a luta de Ness e equipe contra o “Império de Crimes”, de Chicago, montado pelo gângster Al Capone, além de vários casos de crimes e criminosos da época da Lei Seca implantada pelo governo americano, que tinha fechado todos os bares e botecos.

Aqui em Araraquara, a produção serviu de inspiração para um conjunto musical, que adotou o mesmo nome, seguindo também o sucesso da música de Moreira da Silva, “Os Intocáveis”. A escolha cinematográfica em nada surpreende quando conhecemos quem é o mentor deste projeto: Américo Borges, pianista responsável pela trilha sonora dos filmes “Santo Antônio e a Vaca”, “Férias no Arraial”, “A Vida Quis Assim”, mais significativas obras rodadas em Araraquara nas décadas de 50 e 60.

Na verdade, em seus primórdios, lá pelos idos de 1964, Os Intocáveis iniciava sua trajetória como Intocáveis Bossa Trio e com a seguinte formação: Sabaúna (bateria), Fiico – irmão de Américo Borges – (piano) e Edmur (baixo). “Fomos o primeiro trio da cidade a apostar nessa sonoridade. O Fiico e eu éramos vizinhos, na Avenida Prudente de Moraes. O Américo nos uniu e chamou o Edmur”, revela Sabaúna, 67, à nossa reportagem.

Show no Clube 22 de Agosto: Getúlio, Percy, Tony Pent, Celso e Bila

O baterista arremata. “Fizemos apresentações memoráveis, como no avant premiere do filme Santo Antônio e a Vaca, além de um inesquecível show ao lado do renomado Zimbo Trio, no Teatro Municipal”, recorda.

Pouco tempo depois, em virtude do crescimento da Jovem Guarda no Brasil, uma nova diretriz artística foi pensada por Sabaúna. Para tal, foram recrutados Celso Aparecido dos Santos (guitarra base), Getúlio (guitarra solo) e Bila (baixo), que substituiu Edmur, quando este se mudou com seu pai para outra cidade. Agora o trio viraria um grupo, sendo chamado apenas por Os Intocáveis.

”Fui convidado por Sabaúna e aceitei logo de cara, pois conhecia o grupo e suas músicas. Pedi que chamassem um guitarrista solista e assim o Getúlio, um grande instrumentista, entrou para a turma”, lembra Celso, hoje com 72 anos.

Sabaúna, Fiico, Edmur, Getúlio e Celso, recrutaram os outros músicos através das Domingueiras Alegres ou Brincadeiras Dançantes, eventos que aconteciam pelos clubes da cidade.  “O pessoal se reunia nesses eventos e íamos conhecendo quem realmente tocava bem ou não. Fomos selecionando os melhores, pois éramos exigentes”, pontua Celso.

Diferentemente dos outros grupos da época, Os Intocáveis se diferenciavam por usar metais no palco, como trompetes, trombone de vara e saxofones

Com ensaios na casa de Sabaúna, o repertório básico do grupo reunia samba, MPB, jovem guarda e até música internacional. As apresentações eram constantes, normalmente de quarta a domingo. Clubes como 22 de Agosto, 27 de Outubro e Araraquarense eram os principais palcos.

Quermesses também estavam na pauta. Inclusive, foi num evento na Igreja Nossa Senhora das Graças (importante e disputada festa da época) a pitoresca estreia do baixista Bila, que substituiu Edmur.

“O Bila estava muito nervoso. Então sugeri que ele tomasse um pouco de uísque, que o Vilcides tinha trazido. Ele foi lá e tomou, só que, na verdade, aquilo era um líquido para limpar o instrumento dele. Brincadeiras à parte, ele gostou de tocar e perdeu o medo”, ri Celso.

Outra pessoa muito importante na trajetória do grupo foi Benedito Selante, que virou empresário do grupo na sua formação completa, viabilizando roteiros e logísticas para que os meninos se apresentassem em outras cidades da região. O pai de Sabaúna, senhor Chrispim Servino, também fez parte da produção do grupo, acompanhando shows e ensaios sempre que possível. Os Intocáveis tinham roupas impecavelmente confeccionadas por Sérgio Milanez, ótimo e concorrido alfaiate local da época.

Banda Moog Boys (esquerda) e Os Intocáveis (direita) com o pai de Sabaúna, Chrispim Servino, ao lado de Pedro Rodrigues, que foi empresário dos Jungles; os grupos, na ocasião, se preparavam para se exibir no Clube 22 de Agosto, uma das principais casas de show da época, ponto de encontro de toda a juventude. A apresentação seria de Osvaldo Zaniollo (Rádio Voz), primeiro à direita

Assim, com essa nova formação, o grupo abriu as portas para outros músicos e possibilidades sonoras, com bateria (Sabaúna), guitarra base (Celso), guitarra base 1/8 acima (Percy), guitarra solo (Getúlio), teclado (Fiico), baixo (Bila), trompetes (Giba e Carlinhos), trombone de vara e saxofone (Vilcides e Waltinho) e voz com Tony Pent, transformando-se assim, em um dos primeiros grupos de baile de Araraquara, segundo Celso.

O vocalista Dimas e Carlão (saxofone) também passaram pelo grupo. “Tínhamos muita gente no palco, mas nem sempre conseguíamos reunir todo mundo nas fotos. A maioria era adolescente, entre 14 e 20 anos de idade”, pontua o guitarrista Celso.

Um ponto importante a ser lembrado é que a banda não vivia dos cachês, direcionando o dinheiro para investimentos em instrumentos e equipamentos. “Assim, tínhamos ótimos equipamentos para a época e isso nos ajudava a condicionar excelentes shows e chamar o público, que sempre nos acompanhava. Muitos instrumentistas entusiastas apareciam em nossas apresentações para aprender as músicas. Hoje, conseguir uma cifra é muito fácil, pois tem tudo na internet. Naquela época não tínhamos este recurso. Neste quesito, o Vilcides tinha um papel muito importante, pois sabia fazer bem a leitura de partituras e transcrevia para os outros metais”, lembra Celso.

Tony Pent e Celso dos Santos: amigos desde adolescência na Vila Xavier; hoje, os dois se falam eventualmente

O ponto alto da carreira dos araraquarenses foi a aparição na TV Tupi (Canal 4),  no programa “J R e a Juventude”, do conhecido Júlio Rosemberg, em 1965. Os Intocáveis também faziam shows beneficentes no Asilo de Mendicidade de Araraquara. Em 1966, Os Intocáveis ficaram em 3º lugar no 1º Festival de Conjuntos no IEBA, vencido pelos Condor Boys.

THE JUNGLES, O FIM DA AMIZADE

O guitarrista Celso conhecia o vocalista Tony Pent desde a infância, na época, chamado apenas de Toninho, quando eram vizinhos e estudaram juntos na Vila Xavier. Inclusive, os sinos da Igreja Santo Antônio embalaram uma das composições de Pent, chamada “Soninha”.

“Eu acabei dando uma ajuda pra ele entrar para Os Intocáveis. Na audição, eu cantei o tom da música no ouvido dele, para ele não errar. Ele tinha uma ótima presença de palco, que seguia a postura de grandes estrelas da época, como Roberto Carlos”, diz Celso.

Certa vez, Celso e Tony viajaram até Santos para buscar uma guitarra Fender e um amplificador Valiant, que Celso tinha ganho do seu irmão pois, até então, usava um instrumento feito por seu tio, Elídio da Cunha (Celso a tem guardada até hoje, com muito carinho). E nesta viagem, um episódio chamou atenção: os dois foram convidados para uma festa por algumas meninas que conheceram na praia. Neste dia, Tony se apresentou a uma delas, como Tony Pent Lupo, fazendo referência a uma família tradicional de Araraquara. “Após essa jogadinha dele, pensamos que nos daríamos bem. O que não esperávamos era que uma das meninas que estava na festa fosse sobrinha da inspetora da escola em que Tony e eu estudávamos (Francisco Pedro Monteiro da Silva, mais conhecido como Chicão). Imagine a confusão na qual nos metemos”, brinca Celso.

Celso e o amigo Airton, à esquerda. Na outra foto Celso, 50 anos depois

E justamente Tony Pent foi o primeiro a deixar Os Intocáveis, seduzido por uma proposta do grupo The Jungles e ter um microfone sem fio. Sendo assim, Sabaúna encontrou o novo vocalista Dimas, que era um excelente cantor de uma orquestra em São Carlos. “A estreia de Dimas foi fantástica. Sua semelhança com Simonal, tanto em timbre quanto em aparência, deixou todos boquiabertos. Ele era extremamente afinado e eu tive e certeza que fiz a escolha certa”, lembra Sabaúna.

Tudo parecia tranquilo na carreira do grupo Os Intocáveis, mas um show cancelado às pressas na Universidade Federal de Curitiba/PR (onde tiveram que vender todos os instrumentos para pagar a multa rescisória por não terem comparecido ao evento) mexeu com a união dos meninos. Esse cancelamento culminou em uma discussão acalorada entre Sabaúna e Getúlio que, por pouco, não terminou em pancadaria.

Sabaúna também fez carreira na capital

“Sabaúna e Getúlio se ameaçaram. Um não ficaria na banda com a presença do outro. Com isso, somando o fato da perda da nossa aparelhagem de som, senti que era o começo do fim. E foi! Eu fiquei tão triste, que nunca mais toquei profissionalmente”, conta Celso. “Não tinha mais clima. Então aceitei o convite e também fui para os The Jungles. Como eu era o único membro fundador ainda no time, Os Intocáveis acabaram encerrando as atividades, em meados de 1967. Continuei na música, mas guardo um carinho especial pelo grupo Os Intocáveis”, diz Sabaúna.

Depois de anos, alguns integrantes ainda mantém contato, lembrando com saudades os bons tempos em que faziam sucesso na cidade e na Região. Carlão e Tony Pent moram em Ribeirão Preto, Edmur vive em São Paulo, Waltinho em Botucatu, Vilcides em Boa Esperança do Sul. Em Araraquara, ainda vivem Sabaúna, Celso, Fiico (faleceu recentemente), Carlinhos e Bila. Dimas nunca mais foi visto. Giba e Percy já faleceram. E para fechar esta reportagem, fica aqui um sentimento mútuo, transmitido a nós por Sabaúna e Celso dos Santos: o maior orgulho de ambos é ver o amor da música dos dois, transmitido a outras gerações da família. No caso do guitarrista, seu filho Daniel Bernardo é guitarrista solo na Banda Bruce Brothers.  O neto de Sabaúna, Werley, é percussionista.