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A morte do ‘seo’ Eudes da antiga Kibelanche, vítima da Covid-19

Eudes foi um personagem na história de Araraquara, primeiro por participar de todo processo de crescimento da Kibelanche criada por Apparecido Dahab nos anos 60, depois em possuir por mais de 30 anos o seu próprio bar ainda na região central da cidade.

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Eudes Fernandes, um dos símbolos do nosso comércio

Inúmeras foram as manifestações de tristeza pelo falecimento de Eudes Fernandes, o seu Eudes da Kibelanche, ocorrido na noite deste domingo (11), aos 95 anos de idade, vítima da Covid-19. Amigos e familiares deixaram mensagens lamentando sua morte e uma delas foi do prefeito Edinho Silva que em nota destacou que – Eudes sempre foi um personagem muito importante na história de Araraquara.

UMA HISTÓRIA DE AMOR À FAMÍLIA E AO TRABALHO

Bar do Eudes em dois momentos: da agitação ao servir o café e a famosa torta de sardinha, no contraste com a calmaria dos domingos

No ano passado tivemos a oportunidade de ouvir através do próprio Eudes sua história de vida, abalada em 2003 ao perder o filho Renato em 2003. Ele dizia que – parte do seu mundo desabara. Ainda assim, somou a força que o filho lhe dava, para seguir em frente com um bar na Rua 9 de Julho. Depois disso veio o cansaço de tantos anos atrás de um balcão, não resistindo deu adeus à profissão que abraçara.

Dezesseis anos depois estávamos diante de Eudes, na época com 93 anos de idade e a mesma disposição para contar histórias buscadas nos tempos do grupo escolar de Uchoa, cidade onde nasceu e viveu parte da sua adolescência. Chegando agora aos 94 anos de vida (27/agosto), ele casou-se em 1957 com Inocência Conde Fernandes, em São Paulo, mudou-se para Araraquara no ano seguinte para cuidar de seu pai Raphael Fernandez.

O Bar do Eudes na Rua 9 de Julho era ponto de parada para quem queria encontrar boas amizades e entre elas, um dia apareceu o baixinho José Valien Royo, ator hispano-brasileiro. Nacionalmente famoso por ser de 1986 a 2010 o garoto-propaganda da cerveja Kaiser

O emprego conseguido com Tuffy Jorge na Feira das Meias em Araraquara foi apenas o começo para quem estava disposto a enfrentar a vida. Dois anos depois estava ele a dirigir a Cantina do IEBA que comprara em sociedade com o cunhado Ezio Fleury da Silveira, onde permaneceu por seis anos: “Um tempo de felicidade na cantina, pois convivia com os jovens e o IEBA estava despontando como uma das melhores escolas da região”, contava Eudes.

Foi em 1969 que Eudes Fernandes estava entendendo que este seria o momento certo de investir em algo que fosse seu; deixou a Kibelanche e o agradecimento a Apparecido Dahab, o “Aparício da Kibelanche” pelos anos de convivência. Comprou um restaurante na Vila Melhado para atender os caminhoneiros que descarregavam laranja na Cutrale e por quatro anos ali ficou, até surgir a oportunidade de chegar ao centro da cidade emergente.

Eudes e a esposa Inocência que preparava uma deliciosa torta de sardinha. Ela faleceu em 2010.

Com o Bar do Eudes que havia sido recomendado pelo amigo Sebastião Costa, Eudes retornou aos olhos da clientela que havia conhecido na Kibelanche: “O que não faltava pra mim, era o apoio da Inocência que fazia uma torta de sardinha jamais saboreada. Era o X da questão”, comentana ele até com certa euforia.

A esta altura, o filho Renato estava com 11 anos e crescendo foi ajudando o pai nos afazeres, detalhe que se ajustava à educação antiga dentro do meio familiar. Era praticamente um ambiente de trabalho entre Eudes, Inocência e acompanhado de perto por Tereza que durante 14 anos prestou serviços ao pequeno e agitado café.

No entanto, a morte do filho Renato com 42 anos de idade (hoje estaria com 58) e casado, o abalou: “Era ele praticamente que vinha assumindo o bar; me entristeceu e resolvi parar”, relembra. A esta altura, o outro filho Cláudio, seguia em frente com sua atividade profissional, casado com Neusa e residente em São Carlos O casal tem uma filha, chamada Maíra. Já o Renato casado com Ana, tem a filha Thaís. As duas netas simbolizavam a felicidade da família.

Toda família reunida em 1995

A VIDA COMO ELA É

Pronto para comemorar 94 anos, Eudes recordava com o RCIA em 2019 – o romantismo da 9 de Julho entre os seus dois períodos de convivência. Um deles o levava aos tempos da Kibelanche com a sede do 27 de Outubro na porta da lanchonete e de tantos outros bons vizinhos – A Esmeralda da família Saba, a Casa das Linhas com dona Olga e Juarez; a própria King Lanche, do Gordinho, ao lado da Kibelanche. São coisas, dizia ele, que não dá pra gente esquecer e cada vez que lembramos, nos aprofundamos ainda mais neste tempo de alegria, amizade e fraternidade.

Da Kibelanche ao Bar do Eudes as coisas mudaram muito, embora tivessem ocorrido em uma faixa de pouco menos 10 anos; ocorre que a cidade vivia um período emergente com os anos 70/80 emplacando o desenvolvimento econômico: “O que fica na gente é a saudade dos clientes, dos amigos que formamos e não há dinheiro que pague a alegria da convivência”, contou ele durante a reportagem.

Encontro em família: Neusa Maria da Silva (nora), Thaís (neta), Eudes, Ana Lúcia Bernardes Fernandes (nora) e Maíra (neta)

Ao baixar as portas do bar em 2003, depois de 30 anos de trabalho, Eudes se viu mergulhado na companhia das noras, netas e do filho Cláudio, já com 61 anos de idade. “Na vida tudo passa”, disse Eudes.

De fato, passou.