Início Motociclismo Naqueles Tempos

Jovens irreverentes na calmaria de uma cidade

Falo da pureza que havia em jovens irreverentes, que mesmo pilotos graduados, por falta de habilitação não lhes eram permitido passear livremente na cidade com suas adoráveis motocicletas.

1552
Reunião de amigos motociclistas - Araraquara

Zé Faito quando conheceu Marisa com a intenção de namorá-la, não foi bem aceito pela família da garota. Tinha uma vasta cabeleira, fios longos e cacheados, que cresceram acompanhados de uma vistosa costeleta, modismo dos anos 70. Além disso, tinha uma motocicleta e para piorar a situação, era piloto oficial do Moto Clube Araraquara. Tinha também, para o olhar dos pais da pretendida, evangélicos que eram, a imagem de um jovem rebelde, que não seria por gosto, o genro de seus sonhos.

O mesmo quadro se desenhou para Marli quando conheceu Eduardo Luzia, para Sandra que se encantou com Dinho Dallacqua, para Fátima quando sucumbiu às graças de Diogo, para Ise aos encantos de Pinho, para Vera e o seu amor proibido de Celso, para Luzia do Carmo que queria se casar com Adolpho, para Vera Lúcia paixão de José Duvilio, para Shirley então noiva de José da Penha e para Stella a princesa de Evaldo.

Sentados no banco em Interlagos: Penha, Benê e Adolpho Tedeschi

Na verdade éramos todos iguais, cabelos longos, barba por fazer e sonhadores. Éramos bonzinhos? Não, Claro que não, nem nossa mãe achava isso. Apenas éramos jovens, honestos, vivendo suas plenitudes, que não fumavam, que bebiam o saboroso refrigerante Mimosa da fábrica Ciomino e simplesmente apaixonados por velocidade, em especial corrida de motocicleta, esporte este de poucos praticantes, tão poucos que, de regra éramos identificados não por nossos nomes, mas sim pelas poderosas máquinas que guiávamos.

Neste período, existia uma pureza na vida. Não havia o consumo disseminado das drogas, o ladrão de celular, alias nem o celular existia e o contato era de forma pessoalíssima e visceral.

Uns jovens, outros meninos, e a coisa em comum de errado que praticávamos, até de forma inocente, era “desviar de comandos policiais”, especialmente pela falta de habilitação. Por mais paradoxal que fosse, era muito difícil para todos nós, entender que nos era permitido “correr” em Interlagos, o maior autódromo do país e um dos melhores do mundo, representando nossa cidade e ao mesmo tempo não nos ser permitido uma simples volta “livre” na encantadora Avenida Bento de Abreu. Temíamos até o último fio de cabelo a possibilidade de encontrarmos o policial Joel nas ruas. Capitão Bordini, só de pronunciar seu nome tínhamos pesadelos.

Zé Duvilio (Tedeschi) – Victorinho Barbugli – Alameda Paulista

Certa oportunidade, Pinho e eu, passeando com sua Yamaha, num sábado de verão à noite, na Rua 3 (São Bento), entre o perímetro que cobria o Cine Veneza ao Capri (da Av. Espanha até a Av. São Paulo), no horário de saída do cinema, com o trânsito completamente paralisado, íamos tranquilamente no meio dos carros transitando lentamente e aproveitando a oportunidade para paquerar, quando de longe, na esquina da Avenida Portugal, ao som de seu apito estridente, o policial ali presente, para manter a ordem que julgava necessário, com seu braço direito em riste, primeiro arrumou o seu quepe, em seguida ajustou seu uniforme para depois incontinente parar por completo o trânsito, caminhando em seguida, passos largos ao nosso encontro naquele funil, objetivando fazer a conferência dos documentos da motocicleta e do piloto.

Tudo foi muito rápido. O soldado em passos largos, acelerando ao nosso encontro e eu ao mesmo tempo, para facilitar a fuga, fui discretamente descendo da garupa e me misturando na multidão em footing na calçada despejada pela saída dos cinemas. Pinho, com suas enormes e ágeis pernas foi dando marcha-ré na velocidade de seu oponente até a Av. Duque de Caxias, para em seguida como um corisco, sumir no infinito dos olhos da autoridade.

Tempos depois, não teve jeito. Pinho foi abordado e retido, sua “ficha” conferida de todas as maneiras, sua motocicleta vistoriada em todos os detalhes, mas o tempo, sempre senhor, já havia conspirado a seu favor e ele não era mais simplesmente um piloto graduado pela Federação de Motociclismo, era também “habilitado” pela CIRETRAN de Araraquara.

Outro episódio marcante, foi Adolphinho Signini, na Rua 9 de Julho com a Avenida Duque de Caxias, que prometeu aos policiais ele mesmo colocar “a carniça de sua lambreta irregular” no caminhão que a levaria para o pátio zero. Balanço vai, balanço vem, a lambreta sob o seu comando subiu até meia plataforma, balanço vai, balanço vem, quando em movimento brusco, mudou de direção e deu linha……. até hoje essa lambreta não foi presa.

Velhos Tempos, Belos Dias.

Por Benedito Salvador Carlos / Pesquisa: Deives Meciano