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Nos céus da Europa, um araraquarense apaixonado por sua pátria amada

A história do Tenente Fernando Corrêa Rocha, aviador criado em nossa cidade, integrante do Senta a Pua, 1º Grupo de Aviação de Caça Brasileiro que combateu na Itália durante a 2ª Guerra Mundial.

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Fernando Rocha deixou a Faculdade de Direito para se dedicar à aviação, tornando-se piloto de caça da FAB

Dia 2 de abril de 2008. Quase 10 horas da manhã. Oficialmente, a Força Aérea Brasileira (FAB) emitia a seguinte nota: “Lamentamos o falecimento de um de nossos ilustres heróis da Segunda Guerra Mundial”.

Na ocasião, o comunicado referia-se ao Tenente Aviador Fernando Corrêa Rocha, paulistano por nascimento e araraquarense de coração, que deixava este plano, aos 86 anos, por falência múltipla dos órgãos.

E foi ali, em um leito do hospital Albert Einsten, em São Paulo, que um dos mais importantes personagens dentro da participação brasileira no conflito calava-se para sempre. No currículo, 75 missões nos céus italianos a bordo do caça bombardeiro P-47 Thunderbolt.

No livro “Cartas de um Piloto de Caça”, o intelectual Antônio Cândido define o comandante como um herói discreto. Alegre estudante de Direito na Universidade São Paulo, Fernando Rocha resolveu se arriscar em um curso local de pilotagem, fazendo parte, na sequência, de um rigoroso treinamento para a aviação de caça.

Brasileiros e americanos prestes a embarcar no navio General Meigs rumo ao Brasil, no fim da guerra. Fernando é o terceiro, na primeira fila, da esquerda para a direita

Assim, as aventuras nos ares tornaram-se mais interessantes que as longas sessões em tribunais. O gosto o levou até a FAB e, posteriormente, aos Estados Unidos. De lá, passou a escrever novos capítulos não só para sua história, bem como para a história da aeronáutica mundial. Por suas ações, recebeu as mais altas condecorações dos exércitos brasileiro e americano.

VIDA

Filho de Hilda Correia Rocha e Candido de Moraes Rocha, Fernando nasceu em São Paulo em 12 de julho de 1921. Morou em Araraquara na fazenda Santa Izabel (propriedade de seus pais que ficava em Santa Lúcia, à época distrito de nossa cidade) durante toda a infância e parte da adolescência. Ao seu lado, quatro irmãos: Maria Elisa, Carlos Eduardo, Gilda e Renato.

Segundo sua filha, Heloisa Rocha Pires, o gosto do pai por aviões teve um embrião: em 1941, o jornalista Assis Chateaubriand promoveu, no Brasil, o movimento Deem Asas, contribuindo para a consolidação da aviação no Brasil.

“Foi aí que Fernando e alguns colegas de faculdade, igualmente aficionados como ele, obtiveram de empresários paulistas um monomotor doado ao hangar de Renato Pedroso, grande piloto da época, em troca de aulas de pilotagem a todo o grupo”, diz Heloisa no livro “Cartas de um Piloto de Caça”, da Editora Ouro Sobre Azul.

Rocha em meio a dois oficiais americanos

Paralelo ao curso, Rocha intensificava os estudos da língua inglesa. Após a finalização de ambos, se inscreveu, em São Paulo, num organismo do setor aeronáutico, espécie de IV Comar da época e, assim que recebeu o brevê, partiu para o Rio de Janeiro onde se alistou no recém- criado Ministério da Aeronáutica com a intenção de ir para os Estados Unidos fazer o curso de piloto de caça.

Lá, ele foi para a San Antonio Aviation Cadet Centere, seguindo depois para Corsicana Army Air Field, Waco e Eagle Pass, ou seja, a Advanced Flying Schoole Harding Fieldem Baton Rouge, de onde, já com mais de 200 horas de pilotagem no P-47, avião usado pelos EUA na Europa durante a 2ª Guerra Mundial, saiu com o passaporte carimbado para Suf-folk Army Air Fieldem Long Island, partindo daí com o 1º Grupo de Aviação de Caça Brasileiro (GAvCa) para a Itália, em setembro de 1944. Nascia então o ‘Senta a Pua’.

Em meio a cerca de 350 aviadores, Fernando Rocha seguiu para a Europa a bordo do navio francês Ust Colombie, confiscado pela marinha norte-americana, tendo desembarcado no porto de Livorno, Itália, em 6 de outubro de 1944. Lá, os brasileiros foram apresentados ao P-47 Thunderbolt, moderno caça da época que usariam até o final da guerra.

Após a série de combates a Medalha Americana concedida somente por atos de extrema bravura em combate aéreo. Rocha ganhou uma

A princípio, naquele momento e espaço, as atividades da Luftwaffe (Força Aérea Alemã) eram quase inexistentes. Assim, Rocha e nossos heróis iniciaram suas atividades como uma unidade de caça-bombardeiro, com missões de reconhecimento em suporte ao 5º Exército Norte-Americano, ao qual a Força Expedicionária Brasileira estava ligada.

A base aérea ficava na cidade Tarquinia, local com características medievais e aspecto rudimentar. “As condições de instalação eram precárias e o local resumia-se em um aglomerado de tendas e barracas sem muito conforto, em meio a um lamaçal. As pistas dos aviões eram complementadas com imensas chapas de ferro, o que fazia dos pousos e decolagens um risco a mais para os pilotos”, relata o livro “Cartas de um Piloto de Caça”.

As missões do 1ºGAvCa eram decididas pela Força Aérea Americana, as mensagens diretas e concisas: “Às 08h03, bombardear a estação da estrada de ferro de Bolonha”. Na verdade, o grupo brasileiro foi preparado para lutar cara a cara, mas, ao desembarcar, a estratégia foi alterada, pois os aliados já tinham a supremacia aérea. Os brasileiros passaram então a cumprir missões de bombardeio de alvos no solo. Dessas aventuras, Fernando Rocha participou de 75 ações.

PASSO POR PASSO

Este é o caça P-47 Thunderbolt, usado pelo piloto. Reparem no logo do Senta a Pua, logo à frente

O 1º GAvCa era dividido em quatro esquadrilhas, compostas por aproximadamente 12 pilotos, que voavam em conjunto. Cada um usava um “écharpe” nas cores de sua divisão, que continha seis aeronaves, identificadas pelas letras A (vermelha), B (amarela), C (Azul) e D (verde).

Na esquadrilha Amarela, ou “Yellow”, liderada pelo Capitão Joel Miranda, estava Fernando Rocha. Segundo o Brigadeiro Rui Moreira Lima, esses pilotos eram, guardadas as devidas proporções, os “kamikazes” do grupo. O preço pago por eles, entretanto, foi alto: cinco pilotos abatidos (dois mortos) e dois afastados por motivos de saúde.

Após a queda do Capitão Joel Miranda, o comando da esquadrilha foi assumido pelo Capitão Aviador Roberto Pessoa Ramos. Assim, com a perda de boa parte de seus pilotos e sem a devida reposição, a “Yellow” deixou de existir em fevereiro de 1944. Os pilotos restantes (Poucinhas, Canário, Rocha e Pessoa Ramos) foram realocados nas demais esquadrilhas do Grupo. O araraquarense foi para o esquadrão Verde, onde permaneceu até os últimos dias na Europa.

Em 2 de maio de 1945 foram suspensas todas as missões aéreas, pois a Alemanha assinou sua rendição na Itália e na Áustria. Encerrava-se a participação do Senta Pua no conflito, computando seis meses de atividades: de 11 de novembro de 1944 a 4 de maio de 1945.

ETERNIZANDO

Recepção no Rio de Janeiro

E detalhes de todo esse período, Fernando Rocha relatou em cartas, enviadas aos pais e familiares. Até sua morte, em abril de 2008, ele não havia deixado transparecer gosto especial pela escrita, até que uma das filhas, Heloisa, remexendo fotografias e papéis, ao tentar pôr ordem nos guardados do pai, descobriu essas cartas e um pequeno diário.  Ela organizou tudo e lançou “Cartas de um Piloto de Caça”. Inclusive, seu último registro na Europa, foi feito em 16 de junho de 1945. Direcionado aos ‘queridos pais’, o texto dizia, em uma rápida edição.

“Embarcarei para o Brasil nos primeiros dias de julho. Vinte pilotos foram para os Estados Unidos de avião. Não tive sorte no sorteio e, então, vou de navio direto para o Brasil. Acabo de voltar de uma viagem pela Itália e sul da França, onde me diverti muito. Recebi outras condecorações da Força Aérea Americana. Ficarei muito satisfeito se forem me receber no Rio. Eu quero que vocês me levem 10 contos, pois terei que comprar alguma roupa, pois chegarei só de uniforme e com pouco dinheiro no bolso. Tenho sonhado muito com a nossa casa. Um milhão de abraços. Pede a benção o filho Fernando”.

Quando voltou ao Brasil, agora como Primeiro-Tenente da FAB, Fernando Rocha entrou para a aviação comercial, trabalhando primeiro na Panair, depois na Varig. Aposentou- se como consultor técnico para a construção de aeroportos, na Hidroservice Engenharia. Em Araraquara, passou a morar em uma casa na esquina da Avenida Feijó com a Rua Zero. Também tinha uma residência fixa na capital paulista.

Reportagem: Matheus Vieira