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O araraquarense símbolo no combate as epidemias nas três Américas

Homenageado pela Fundação Nelson Rockefeller e também pelos Governos do Brasil, Argentina e Paraguai, pela forma com que combatia os diversos tipos de epidemias, o professor Savério Ianelli tornou-se um nome lendário dentro da Saúde Pública latino-americana com direito a salas especifícas na Sucen e no Sesa. Em meio a pandemia do coronavírus seu nome vem à tona por suas ações inesquecíveis.

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Dois momentos na vida de Savério Ianelli: ainda jovem servindo o Ministério da Saúde e recebendo o título de "Cidadão Araraquarense"

Para se chegar a gloriosa história de sucesso do profissional que com conhecimento e técnicas apropriadas combateu epidemias em várias partes do mundo, é preciso que se percorra os lados extremos de uma vida voltada para o comprometimento com a Saúde Pública. Assim era a descrição que se fazia de Savério Ianelli, cujo trabalho no combate as doenças endêmicas como Malária (Maleita), Febre Amarela, Dengue, além de outras que ‘pipocavam’ em uma época de difícil acesso aos medicamentos e tratamentos, tornou-se motivo de reconhecimento em diversos países.

O COMEÇO DE UMA HISTÓRIA

O menino Savério ao lado da avó Rafaela Boffe Ianelli e dos pais Júlia Verdinelli e Affonso Ianelli

Os Ianelli e os Verdinelli embora de regiões diferentes da Itália, tinham pontos bastante comuns. Não eram abastados mas reuniam o suficiente para a compra de um bom pedaço de terra no país que os acolhia como imigrantes; as esperanças de vencer eram também idênticas.

Na alfândega de Santos, a diferença entre as famílias aumentou. Os Ianelli tiveram suas malas roubadas, com elas se foram todas as economias da família.

Sujeitando-se a condição de colonos o casal e os oito filhos vieram para Jaú para a fazenda dos Almeida Prado, na Barra da Estrela. Trabalhando de sol a sol, pai, mãe e filhos conseguiram comprar um pequeno sítio.

O filho mais velho muito cedo se casaria com uma Verdinelli. Júlia Vinhati Verdinelli que haveria de lhe dar quatro filhos: Savério, Alfredo, José e Helena.

O início para combater a febre amarela no interior de São Paulo

Desejando uma melhor sorte para os mesmos não mediu esforços em colocar os filhos na escola da cidade, mesmo tendo de prescindir de “Corisco”, o cavalo que muito ajudava no trato da terra.

Com a falta de professores, os estudantes mais aplicados da Academia Horácio Berlinck foram convidados pela Prefeitura Municipal de Jaú para o preenchimento das vagas de mestre-escola. Assim, ele começou a lecionar na Escola Mista Municipal do Bairro da Estrela, distante três quilômetros de onde morava.

Estranhara que uma vaga tão boa como aquela fosse deixada de lado por outros candidatos melhor classificados. Só mais tarde encontraria a explicação para suas dúvidas: o local estava infestado pela malária.

Em 1930, ganhando duzentos mil réis por mês e uma maleita por ano, Savério resolveu casar-se. Estava então com apenas 17 anos.

Savério Ianelli passou a comandar o 1° Grupo de Guardas do Paraguai para enfrentar a febre amarela

Pai de dois filhos, sem condições físicas para o trabalho, foi aconselhado pelo médico a afastar-se do magistério por três meses, se é que realmente quisesse se livrar da malária.

Por 18 mil réis alugou uma casinha no final da Rua Quintino Bocaiuva, em Jaú. Em menos de um mês já era outro homem. O que ganhava não era o bastante para o sustento da família. A oportunidade de ganhar mais lhe surgiu ao ler um anúncio do “Comércio de Jahu”. O Serviço Nacional de Defesa contra Febre Amarela estava recrutando pessoas da localidade para o combate ao mal.

Submetendo-se aos exames de seleção, conseguiu o primeiro lugar, classificação que lhe valeu imediata colocação nos Escritórios do Serviço. Um mês depois, era promovido a Guarda-Chefe de Distrito, com a responsabilidade de organizar o serviço na zona rural.

Vencido o prazo do seu afastamento do magistério foi obrigado a optar. Como havia gostado da nova experiência preferiu combater a febre amarela que sujeitar-se a malária na Barra da Estrela.

Os focos no interior do Estado por volta de 1930 eram inúmeros, exigindo providências urgentes das autoridades sanitárias. Deixando a família em Jaú foi a caça dos focos onde quer que eles estivessem.

O sobrinho Alzemiro Ianelli mostra a máquina fotográfica que o tio Savério recebeu como presente de Juan Domingos Peron, presidente da Argentina, durante combate da febre amarela naquele país

Depois de erradicar, por completo, a epidemia em Rio Claro, dirigiu-se para a Alta Araraquarense, onde o número de vítimas da doença causava muita apreensão. São José do Rio Preto e Mirassol mantinham, na época, uma liderança nada honrosa nas estatísticas da Fundação Rockefeller, mantenedora do Serviço Contra a Febre Amarela. Os focos foram imediatamente localizados na água dos vasos do cemitério.

Escudado em decreto federal, fixou o prazo de 4 dias para que os recipientes fossem definitivamente esvaziados. A determinação não foi levada a sério nem pelo zelador muito menos pelo prefeito. Expirado o prazo fatal e não cumprida a exigência, o quebra-quebra começou.

Com o falecimento da primeira esposa Elvira Schiavo com quem teve quatro filhos (Alceu, Aureo, Afonso e Helena) ele se casa em segundas núpcias com Leonor (foto) com quem teve os filhos Lilian e Saverinho

A indignação foi geral. O prefeito quis fazer valer a sua autoridade; os parentes dos mortos foram à imprensa. No dia seguinte, o jornal da cidade estampava em letras garrafais: “População recebe com mais satisfação a febre amarela do que as exigências do Chefe do Serviço que a combate”.

Três meses, porém, foi tempo suficiente para provar que Savério estava certo. Graças aquela enérgica decisão, a febre amarela estava completamente erradicada na região.

Pelos idos de 1937, os “aedes aegypti”, infectados faziam novas vítimas em Rancharia e Quatá. Não menos brilhante foi a atuação de Savério Ianelli. Em 1942 era designado para chefiar o serviço nas regiões de Barretos e Bebedouro, Alta Mogiana e no Estado de Goiás, debelando, em pouco tempo e muito esforço a stegomia.

Savério recebendo título de “Cidadão Araraquarense” tendo ao lado o presidente da Câmara Geraldo Polezze e o prefeito Waldemar de Santi

Pelos excelentes serviços prestados no combate ao mal foi promovido em 1944, a Chefe Geral do Interior. No ano seguinte era guindado ao posto de Coordenador-Geral.

Em 1947 já como Coordenador da Oficina Sanitária Panamericana para a América do Sul, após rápido e destacado estágio nos Estados Unidos, recebeu a incumbência de organizar e coordenar os trabalhos de campo em Assunção no Paraguai.

O Serviço de Saúde Pública era bastante deficiente. A própria capital paraguaia não apresentava sequer rede de água e esgoto. Porém, graças a retaguarda oferecida pelo então Presidente General Morino a turma chefiada por Ianelli pode livrar toda a população da febre amarela. O interior do vizinho país também não foi esquecido Encarnación, Vila Rica e Concepción foram algumas das cidades beneficiadas.

Em noite de homenagem, Savério Ianelli recebe o carinho dos filhos Affonso Ianelli Neto, Helena e Lilian Ianelli, um momento inesquecível para a família

A Argentina assistia, a distância, o trabalho desenvolvido pelos brasileiros no Paraguai. Com apoio de Juan Domingos Perón, iniciou a erradicação dos focos em Pousada onde o índice stegômico era dos mais elevados. Mais uma vez o seu trabalho haveria de ser reconhecido pela Fundação Rockefeller com a sua designação para as funções de Inspetor da Oficina Sanitária Panamericana para o Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia e o norte do Chile.

Em 1950 voltando para o Brasil, foi o responsável pelo treinamento de uma turma argentino-brasileira, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, em serviços de Taxidermia, coleta de sangue, captura de macacos e mosquitos, com laboratórios improvisados nas próprias matas.

Internando doentes, elaborando gráficos, orientando, fiscalizando a esterilização completa dos materiais utilizados, participou ativamente nas campanhas contra febre amarela nos anos de 1951 a 53. Além dos 278 postos de viscerotomias e todo o pessoal de Campo, Savério Ianelli chefiava ainda mais 37 unidades de vacinações motorizadas que garantiram a população paulista o que ela tem mais caro, a saúde.

Recebendo o abraço do sobrinho Alzemiro na noite em que recebeu o título de “Cidadão Araraquarense” em 1981

Em 1975 completou 47 anos de excelentes serviços prestados à saúde pública. Depois de beneficiar a tanta gente, salvar tantas vidas, viver para o próximo, ainda que com sacrifício da própria vida, era chegada a hora de descansar.

Outros poderão continuar a luta, mas o mérito do pioneiro ninguém lhe tirou.

Pela sua sua luta recebeu distinções honoríficas, embora de muitas delas se fizesse credor; paralelamente recebeu a maior das recompensas, a satisfação do dever cumprido. Outros, por certo, continuarão a sua luta, mas poucos serão os que poderão se orgulhar de ser o pioneiro no combate a febre amarela, um orgulho para Araraquara.